Crítica | Bem-Vindo a Nova York

estrelas 4

Este filme foi inspirado em um caso judicial filmado, transmitido e comentado pela imprensa mundial. Os personagens e cenas de vida privada são fictícios, sem a pretensão de reconstituir todos os fatos, sobre os quais cada um possui interpretação própria. As sanções foram abandonadas após a procuradoria concluir, pela falta de credibilidade da reclamante, o impedimento em determinar o ocorrido durante o encontro na suíte do hotel.”

As palavras acima introduzem o projeto iniciado por Abel Ferrara em 2011 imediatamente depois de estourar escândalo envolvendo Dominique Strauss-Kahn, então diretor geral do FMI – Fundo Monetário Internacional. O político francês, cujo nome era um dos favoritos à sucessão de Sarkozy à presidência da França, foi detido pelas autoridades policiais no aeroporto de Nova Iorque, antes que embarcasse no seu voo de retorno a Paris, sob a acusação de abuso sexual pela camareira do hotel em estava hospedado.

A ousada proposta de tecer uma construção narrativa que, mesmo inspirada em um caso verídico, esteja circunscrita no eixo da interpretação e opinião, adapta o caso DSK, ainda que não tenha sido autorizado pelo político. Nesta posição de “posso dizer o que quero, doa a quem doer”, Ferrara ganha liberdade para desenvolver um enredo que vai além do relato e revela suas percepções e impressões sobre a vida íntima de DSK.

Quem protagoniza o longa é ninguém menos que Gérard Depardieu. Após um longo tempo sem estrelar produções de grande relevância, Depardieu retorna com toda a força em Bem-Vindo a Nova York. Na pele de Sr. Devereaux, candidato à presidência da França, o ator vive os momentos que antecederam o escândalo, seu desfecho e os detalhes mais viscerais da vida depravada, para ser brando, levada pelo político.

 Navegando habilidosamente entre o factual e o fictício, mas pisando em ovos quando o assunto é ética, o filme relata de maneira crua, sem filtros ou rodeios a decadência de Devereaux, que é obrigado a deixar de lado uma vida sem limites para sexo, violência e poderio em função do crime de que fora acusado.

Adaptações de casos polêmicos, apesar de geralmente serem obras de bastante qualidade, tendem a cair na monotonia, às vezes até no desinteresse. Este, entretanto, não é o caso de Bem-Vindo a Nova York. Com um roteiro brilhante, construções de cena que revelam o mais grotesco da situação ilustrada e trilha sonora instigante, é difícil não se sentir preso à narrativa. Ainda que faça uso de muitos espaços de calmaria e silêncio em meio ao momentos de bastante inquietude, o filme em momento algum se torna monótono.

Vida longa a Abel Ferrara! Vida longa a Gérard Depardieu! Que novos frutos, tão bons quanto este, possam nascer desta parceria.

Bem-Vindo a Nova York (Welcome To New York  – EUA, 2014)
Direção: Abel Ferrara.
Roteiro: Abel Ferrara.
Elenco: Gérard Depardieu, Jacqueline Bisset, Drena De Niro, Paul Calderon, Amy Ferguson.
Duração: 125 min.

FILIPE MONTEIRO . . . O exército vermelho no War, os indianos em Age of Empires, Lannister de Rochedo Casterly. Entrou em órbita terrestre antes que a Estrela da Morte fosse destruída, passou pela Alameda dos Anjos, pernoitou em Azkaban, ajudou a combater o crime em Gotham e andam dizendo por aí que construiu Woodburry. Em uma realidade alternativa, é graduando em Jornalismo, estuda Narrativas e Cultura Popular, gosta de cerveja e tempera coentro com comida.