Crítica | Ben-Hur (1959)

estrelas 4

Escrever sobre Ben-Hur, produção da MGM de 1959, é necessariamente falar em superlativos. Da duração do filme – 212 minutos – passando pela história da produção em si, pelos cenários, figurinos, montagem, atuações e equipamentos de filmagem, tudo é grandioso, ambicioso e detalhista. Assistir a esse épico exige um estado de espírito especial, uma volta ao passado, especificamente para a década de 50, marcada por grande épicos bíblicos, dos quais Ben-Hur parece ser o ponto mais alto, ainda que não livre de problemas.

O filme, dirigido por William Wyler, é, na verdade, a terceira adaptação cinematográfica do romance Ben-Hur: Um Conto do Cristo, de 1880, de Lew Wallace que, sendo ateu, começou a escrevê-lo com o objetivo de comprovar que Cristo não era filho de Deus, mas que, ao longo de suas pesquisas, acabou convertido. O livro foi um enorme sucesso à época, ficando atrás, apenas, da própria Bíblia e contava a história de Judah Ben-Hur, rico judeu da Judeia (hoje, correspondente à parte sul da Palestina) que, depois de um acidente, é traído por seu amigo de infância romano Messala, novo tribuno da região, e é mandado para as galés por anos, até retornar para cumprir sua promessa de vingança. Mas essa narrativa, fictícia para ficar bem claro, corre paralelamente à vida de Cristo, já que Ben-Hur tem mais ou menos a mesma idade e, por diversas vezes, sua vida tangencia com a de Jesus, sem que, porém, ele seja um efetivo personagem da história.

Depois de se tornar uma peça de teatro, o livro ganhou sua primeira adaptação cinematográfica, na verdade desautorizada, na forma de um curta-metragem de 15 minutos em 1907 e que foi objeto de uma ação judicial importante nos EUA, cuja decisão é até hoje citada nas faculdades de Direito por lá. Em 1925, Louis B. Mayer produziu a primeira versão cinematográfica autorizada do romance, nem bem um ano depois da fundação da MGM, que comandava. Um filme mudo, essa versão de Ben-Hur custou caríssimo para a época e, no final, acabou dando prejuízo financeiro à produtora que, porém, graças à publicidade aliada à fita, ganhou enorme prestígio, pavimentando as sólidas décadas seguintes do estúdio.

Corta para a década de 50.

Os grande estúdios, incluindo a MGM, haviam investido maciçamente na Itália, ajudando a sedimentar a Cinecittà. Querendo empregar seus investimentos por lá, em 1952 a MGM circulou a ideia de fazer uma nova adaptação do romance de Lew Wallace e, ao mesmo tempo, uma refilmagem de seu filme de 1925, baseado no sucesso comercial de Quo Vadis, do próprio estúdio, lançado no ano anterior. Estamos falando da década dos épicos e o trabalho começou imediatamente, mas foi adiado diversas vezes, por razões diferentes, por alguns anos, com a produção efetiva só reiniciando de verdade em 1957, depois do grande sucesso do épico bíblico Os Dez Mandamentos, em 1956, dirigido por Cecil B. DeMille e estrelando Charlton Heston. Àquela época, a MGM estava passando pelo primeiro de seus apertos financeiros, causados tanto pela decisão anticoncorrencial dos tribunais americanos determinando que a concentração vertical dos estúdios deveria acabar (ou seja, a distribuição – cinemas – e a produção – estúdios – deveriam ser separados) quanto pela concorrência da televisão.

Ben-Hur, então, foi o grande all-in da MGM, a tentativa de fugir de uma possível falência, estratégia essa que acabou dando muito certo, com o sucesso de público e crítica da nova versão da história, apesar do altíssimo custo, o maior até então, algo como 15 milhões de dólares da época. É perfeitamente possível ver, a cada fotograma, onde o dinheiro foi gasto e é nesse ponto que o espectador de hoje precisa pausar e contemplar Ben-Hur. E a primeira coisa que deve ficar clara é que estamos em uma era em que computadores eram equipamentos só vistos em obras de ficção científica. Efeitos especiais via computador, então, estavam muitos anos no futuro ainda. E, apesar disso, Ben-Hur não deixa absolutamente nada a dever em termos de grandiosidade aos mais épicos filmes modernos, como, por exemplo, a trilogia O Senhor dos Anéis ou Gladiador, que substituem extras, cenários e planos de fundo por bits e bytes, ao mesmo tempo amplificando e retirando a mágica do cinema.

Com isso na cabeça, observem cuidadosamente Ben-Hur. Reparem quando, logo no início, na sequência crucial que leva à prisão de Judah (Charlton Heston) e sua família (a mãe Miriam, vivida por Martha Scott e a irmã Tirzah, vivida por Cathy O’Donnell), a majestade da chegada à cidade do novo governador da Judeia, o romano Valerius Gratus (Mino Doro). Não só vemos muros altos cercando a estreita rua por onde passa seu cortejo, como também podemos notar a população nas laterais, os mais ricos – como Judah e Tirzah – nos telhados das casas e a infinita comitiva do governador, que segue, sinuosa, mas perfeitamente visível, por toda a rua a perder de vista. Apesar de essencial, essa sequência tem apenas não mais do que 10 minutos e ilustra muito bem os valores gastos nos cenários, figurinos, extras e toda a perícia técnica de Wyler (que havia sido um dos 30 diretores-assistentes da versão de 1925) e do diretor de fotografia Robert Surtees (As Minas do Rei Salomão, Quo Vadis) na composição cenográfica do plano aberto. É como um orgulhoso dono de uma nova Ferrari fazendo questão absoluta de mostrar cada detalhe a seus deslumbrados espectadores.

Mas se o espectador acha que a Ferrari é bonita somente por fora, ele estará completamente enganado. A suntuosidade dos cenários e dos figurinos, graças ao trabalho a peso de ouro de Vittorio Valentini (design de produção), Edward C. Carfagno e William A. Horning (direção de arte), Hugh Hunt (decoração de set) e Elizabeth Haffenden (figurino), é absolutamente inacreditável. Cada armadura é entalhada (e elas variam, se é cerimonial ou não), cada espada tem detalhes nos punhos, cada salão é cavernoso, imenso, lindo. Claro que é uma produção no estilo dos anos 50 e nada parece “vivido” de verdade. Ao contrário: tudo parece recém-construído e reluz inacreditavelmente mesmo quando o objetivo é mostrar decadência. Faz parte do estilo de uma época, porém e o espectador só deve sentar-se confortavelmente para apreciar o espetáculo.

Indo ainda além, a grande verdade é que a Ferrari que mencionei é uma frota de Ferraris e Lamborghinis, por assim dizer. Se essa sequência, ainda no início do filme, já é um sinal da riqueza da produção, espere até o leitor constatar e testemunhar os dois grandes momentos de ação da fita: a batalha marítima e a famosíssima e ainda hoje imbatível corrida de quadrigas. Ben-Hur é enviado para as galés, como mencionei, e passa pouco mais de três anos remando, acorrentado a navios romanos. Quando o vemos depois do acidente que o leva a ser preso pelo inescrupuloso Messala (Stephen Boyd), ele já é um remador veterano e chama a atenção do cônsul romano Quintus Arrius (Jack Hawkins) que salva a vida de Ben-Hur ao não acorrentá-lo às galés e que Ben-Hur, em troca, também o salva quando o navio vai à pique. A batalha em si, contra piratas macedônios, foi toda feita com miniaturas (mas não tão pequenas assim) e em tanques d’água, impressionando não só pelos detalhes quanto pelo rigor histórico em relação às armas e técnicas de combate no mar. É bem verdade que qualquer espectador moderno, acostumado com o conforto ótico do CGI, dará de ombros ao trabalho da produção, mas esse é um erro inaceitável. Novamente, devemos entender o filme em sua época e capturar o tamanho da dificuldade que deve ter sido colocar tantos pequenos navios em um enorme tanque e simular a batalha por intermédio da montagem de planos abertos da frota e planos médios e fechados dos soldados e de alguns momentos-chave sendo intercalados de maneira fluida e inteligente.

Depois, quando Ben-Hur volta para a Judeia, quatro ano após ser mandado para as galés, ele retorna como o filho adotivo de Arrius e um exímio cocheiro em campeonatos de quadrigas em Roma. Sua vingança em relação a Messala se dá com a ajuda do xeque árabe Ilderim (Hugh Griffith em tenebrosa maquiagem para ganhar pele mais escura) e seu amor por cavalos e por apostas. Ben-Hur torna-se seu cocheiro para competir na corrida de quadrigas que, nos últimos quatro anos, só tem visto vitória de Messala e seus cavalos negros. Ben-Hur cavalga cavalos brancos, em um daqueles momentos de virar os olhos em termos de oposição do “bem contra o mal”, mas que logo esquecemos com o que vem em seguida. Qualquer tentativa de descrever a corrida, que acontece quase que em tempo real, com nove voltas pela arena elíptica, é de tirar o fôlego e de fazer qualquer um deixar o queixo cair no chão. Nenhum efeito especial, nem mesmo simples truques óticos de câmera foram usados. Surtees, utilizando a todo vapor a câmera MGM 65, que foi feita para o filme e custou 100 mil dólares cada, para filmar em 70 mm com razão de aspecto de 2.76:1, deslumbra o espectador com tomadas em plano aberto que mostram a inimaginável grandiosidade da arena (que mistura pinturas matte de fundo, com uma quantidade gigantesca de extras) por intermédio do desfile das quadrigas e, em planos médios e americanos, a rivalidade entre Judah e Messala.

Quando a corrida começa, a precisa montagem de John D. Dunning e Ralph E. Winters, permite que o olhar trafegue, sem solavancos, entre um tipo de plano e outro, com os planos mais próximos servindo para dar a urgência e velocidade à corrida, além dos vários e fantásticos stunts que colocam para correr qualquer tentativa de comparar essa sequência com qualquer outra em qualquer filme antes ou depois desse. As quadrigas pulam obstáculos, capotam, Beh-Hur é arremessado para o alto e volta para sua posição, tudo de maneira harmônica e excitante, no mais embasbacante clímax da Sétima Arte, ao ponto de essa sequência estar lado-a-lado com outras como a da escadaria de Odessa, de O Encouraçado Potemkin em termos de importância para o Cinema.

Mas, apesar de toda sua grandiosidade e de ser um espetáculo a parte que precisa ser assistido irrestritamente por todos os cinéfilos, Ben-Hur não é, de forma alguma, sem defeitos, como salientei bem no começo da presente crítica.

Começarei, porém, pelo menor dos problemas, mas que é, mesmo assim, um problema: as atuações. Charlton Heston nunca foi um grande ator e seu papel visceral em Ben-Hur é uma mistura de dentes cerrados com olhares tristes, úmidos, que fazem seus olhos azuis saltarem na tela. A emoção que ele passa é muito mais devida à história em si, a tragédia pessoal de seu personagem, do que por seus méritos artísticos, ainda que o ator cumpra sua função adequadamente e que isso o tenha levado a ganhar o Oscar de Melhor Ator, um dos 11 que o filme levou (além desse, abocanhou o de filme, direção, ator coadjuvante para Hugh Griffith, diretor, fotografia à cores, direção de arte à cores, figurino à cores, som, montagem, efeitos especiais e música). Seu antagonista, Stephen Boyd, é ainda pior, em uma atuação clichê, sem sal, mas que, segundo Gore Vidal, que trabalhou em diversos momentos no roteiro, passa, como deveria passar mesmo, um tom homossexual à trama, já que Vidal acreditava que somente o ódio gerado pelo amor não correspondido poderia gerar aquele grau de vingança que Messala impinge sobre seu amigo Judah.

No entanto, a atuação é, como disse, o que menos importa nesse épico, pois seu caráter grandioso literalmente nos faz perdoar quase qualquer coisa. O que mais incomoda é o roteiro de Karl Tunberg (aliás, único Oscar que a obra não levou, apesar de ter sido indicado). Embriagado pela grandiosidade da produção, o roteiro não tem substância suficiente para sustentar as 3 horas e 32 minutos de projeção. Ao mesmo tempo que aspectos que poderiam ser importantes na trama são pulados – como os três anos de galé – outros são estendidos de maneira inclemente, como o encontro de Judah com Balthasar (Finlay Currie, que também narra o filme) e com o xeque Ilderrim. Há uma clara tentativa de se passar uma mensagem de reunião de povos – muçulmanos e judeus – contra um inimigo em comum, mas a sequência é longa e cansativa, sem muita função dentro da narrativa que não pudesse ser suprida com alguns poucos minutos. O mesmo vale para a sequência em Roma, com Judah – chamado de jovem Arrius – sendo oficialmente adotado por Quintus Arrius. O trabalho de Tunberg reduz as imagens-chave e as troca por diálogos expositivos, que explicam a trama em detalhes, especialmente o fato de Judah, agora, ser um “charreteiro infernal” (como, diz a lenda, o filme foi chamado em Portugal).

E, como a vida de Judah Ben-Hur acontece de maneira paralela à de Jesus Cristo, o roteiro emprega tempo em pontuar os momentos mais importantes também de Cristo (o filme abre com seu nascimento, em uma desnecessariamente longa sequência), com Judah sempre como observador distante. O primeiro encontro dos dois emociona, com Cristo dando água para Ben-Hur beber e, ao mesmo tempo, com o gesto, dando-lhe a força que ele precisa para sobreviver nas galés. No entanto, esse belo momento – e variações dele – se repete ao longo da narrativa, com o Sermão da Montanha, o julgamento de Cristo por Pôncio Pilates (Frank Thring), a Via Crucis e, finalmente, a crucificação. E essa nem seria a questão se tudo ocorresse de maneira mais orgânica e não como um longo, lento e cansativo dénouement, que segue a excitante sequência da corrida das quadrigas. Quando achamos que o filme está acabando, ele quase recomeça, para tratar do tema de vingança novamente, além de, claro, a conversão de Ben-Hur em cristão (um personagem, diga-se de passagem, criado por um ateu que se converteu ao cristianismo levado às telas e salvando um estúdio comandado por judeus – fantástica a ironia, não?) e a salvação da mãe e irmã do protagonista. Tudo conveniente demais, feliz demais e, em última análise, desestruturado, fora da narrativa principal. Um roteiro um pouco mais preciso poderia ter abordado exatamente as mesmas questões de forma mais coesa, dentro da estrutura de três atos, sem precisar acrescentar um quarto ato que se perde bastante.

Finalmente, há que se falar um pouco da laureada trilha sonora de Miklós Rózsa. Esse grande compositor faz, aqui, uma de suas mais famosas trilhas, mas uma das que menos gosto pessoalmente e sei que nado contra a corrente aqui. É que ela é pomposa e cheia de circunstância como um filme desse escopo exige, mas, ao mesmo tempo, é muito óbvia e manipuladora. Sua sincronização na fita adianta a maneira como o espectador tem que se sentir, sendo verdadeiramente intrusiva. No entanto, há que se dizer que, na sequência das quadrigas, ela funciona à perfeição.

Enfim, depois dessa crítica que é tão longa quanto o filme, a conclusão é uma só: Ben-Hur é um suntuoso e magnífico espetáculo que simplesmente não pode ser perdido. Merece ser visto no cinema se possível ou com a maior televisão e maior qualidade de imagem possível. É o épico bíblico para acabar com todos os épicos bíblicos que não deixará nenhum espectador incólume ou indiferente.

Ben-Hur (Idem, EUA – 1959)
Direção: William Wyler
Roteiro: Karl Tunberg (baseado em romance de Lew Wallace)
Elenco: Charlton Heston, Jack Hawkins, Haya Harareet, Stephen Boyd, Hugh Griffith, Martha Scott, Cathy O’Donnell, Sam Jaffe, Finlay Currie, Frank Thring, Terence Longdon, George Relph, André Morell, Mino Doro
Duração: 212 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.