Crítica | Ben-Hur (2016)

estrelas 1

O clássico livro de Lew Wallace, desde seu lançamento, já rendeu quatro adaptações cinematográficas sendo a terceira o eterno clássico estrelado por Charlton Heston e dirigido por William Wyler que nos impressiona até hoje não só pela sua produção, como pelo seu primor técnico, em especial a icônica sequência das quadrigas. O novo Ben-Hur, quinto filme a adaptar o romance, contava imediatamente, portanto, com a grande responsabilidade de se provar ao menos relevante, especialmente visto que em 2010 já tivemos a história contada por meio de uma série televisiva. O diretor Timur Bekmambetov, contudo, não consegue fazer sua obra sequer beirar o aceitável.

A narrativa tem início já nos momentos que antecedem a corrida de quadrigas. Vemos Judah Ben-Hur (Jack Huston) e Messala Severus (Toby Kebbell) trocando ardilosas palavras e logo somos levados para o passado, quando ainda eram amigos. Severus, romano adotado pela rica família de Judah, cresceu ao lado do judeu em Jerusalém e sempre tiveram uma relação bastante próxima. A história desde aqui já se delineia como o clássico irmão x irmão, o que não seria um problema se a motivação desse embate fosse, de fato, bem elaborada. Messala, todavia, é retratado como uma criança mimada e é rápido para descartar os anos de companheirismo com Judah. Naturalmente, os anos que serviria na legião romana o tornaram uma pessoa dura, mas sua mudança, no filme, ocorre como que da água para o vinho e não temos tempo de, efetivamente, acreditar na cisão entre os dois.

Chega a ser engraçado até como o filme gasta grande parte de sua duração para mostrar a vida de ambos antes do incidente que levou à escravidão de Judah e, nesse tempo todo, o que vemos são apenas relances de bases que poderiam ter sido mais bem construídas. Tudo soa extremamente raso, como se isso tudo não se tratasse apenas de um resumo da história, que tenta aprofundar em questões como a exploração romana da província da Judeia, ou as diferenças étnicas dentro do império, sem conseguir sequer arranhar a superfície.

Sequer culpo o roteiro de John Ridley e Keith R. Clarke por tais questões, visto que a artificialidade da projeção é mais que garantida pela direção de Timur Bekmambetov, que, aliado ao trabalho de montagem, simplesmente não consegue deixar a câmera parada por mais de três segundos sem antes trazer um corte. Mesmo em algumas cenas nas quais só vemos diálogos ele nos traz, ocasionalmente, uma câmera tremida, como se o operador de câmera estivesse sob o efeito de muito café. Os planos, que já são curtos, ainda não dão espaço para um trabalho de atuação mais envolvente, visto que impossibilitam que o elenco transmita qualquer emoção antes de serem interrompidos.

O pior, contudo, vem nas cenas de ação, que precisamos esperar alguns segundos para, de fato, entender o que acontece na tela. Chega a ser tão gritante o amadorismo de Bekmambetov (que já conta com boa experiência, apesar de seus filmes normalmente fracos), que na icônica sequência das quadrigas ele consegue errar completamente. É simplesmente impossível entender o que ocorre naquela arena, ao ponto de não sabermos quem morre, quem vive ou até mesmo em qual posição Ben-Hur se encontra. Isso sem falar no exagero dos efeitos especiais (claramente visíveis) que trazem uma artificialidade ainda maior para a cena e no 3D que parece estar presente somente para jogar poeira na tela, dificultando ainda mais o nosso entendimento da obra.

Não contente com esses erros, o diretor russo falha miseravelmente na construção, ou melhor, desconstrução do protagonista na segunda metade do longa. E não entrarei sequer na questão de sua caracterização risível logo antes da corrida, que parece ter sido feita pensando em jovens adolescentes. A calma que apresentara anteriormente parece que não lhe deixou tempo suficiente para nos contar a história e, por isso, teve de correr ao máximo para finalizar seu filme. O absurdo é tamanho que Ilderim, interpretado por um provavelmente arrependido Morgan Freeman, arrisca sua fortuna (que é declaradamente tudo o que tem) por um homem que acabara de conhecer, nos mostrando que não é só a relação entre irmãos que foi mal construída. Isso sem falar na forçada redenção do personagem principal, que parece estar presente na obra apenas para trazer um epílogo feliz e uma relevância para o personagem de Jesus (Rodrigo Santoro).

Resta alguma dúvida que essa adaptação foi totalmente irrelevante e desnecessária? Certamente que não. Ben-Hur é um filme muito aquém de seu potencial e seu maior problema é justamente seu diretor, que trabalha como se estivesse dirigindo seu primeiro longa-metragem sem qualquer assistência ou bom senso. Temos aqui uma obra que não serve nem pelo espetáculo visual, visto que este é uma completa bagunça que nos deixa mais perdidos que Judah em seus anos de escravidão. Melhor nos atermos ao clássico de 1959 mesmo.

Ben-Hur (idem) – EUA, 2016
Direção:
 Timur Bekmambetov
Roteiro: Keith R. Clarke, John Ridley
Elenco: Jack Huston, Toby Kebbell, Rodrigo Santoro, Nazanin Boniadi, Ayelet Zurer,  Pilou Asbæk,  Sofia Black-D’Elia, Morgan Freeman
Duração: 124 min.


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GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.