Crítica | Berberian Sound Studio

estrelas 3

O som é um dos elementos mais importantes da linguagem dos filmes de terror. Até mesmo antes da era diegética, os filmes recebiam um tratamento sonoro através de um músico que acompanhava as imagens musicando-as. Na contemporaneidade, muitos cineastas fazem o uso leviano deste recurso, utilizando-o para empregar sustos nas plateias. Berberian Sound é um filme que retrata os bastidores de sonorização de um filme de mistério italiano, rodeado de eventos macabros, num convite metalinguístico de imersão em um universo cinematográfico bastante peculiar.

Com pouca divulgação no Brasil e item de alguns festivais ao redor do planeta, Berberian Sound Studio nos apresenta o introspectivo Gilderoy (Toby Jones), um engenheiro de som e sua passagem angustiante pelo estúdio que dá nome ao filme. No local, atrizes gritam desesperadamente para a captação do som de uma produção sobre violência e bruxaria. Melancias são esmagadas e outros vegetais esfaqueados na busca de um som perfeito para pessoas mutiladas.

Eis o ambiente de trabalho que além do clima pesado, é permeado pelas diversas faces da insatisfação: Gilderoy precisa lidar com os salários atrasados, além de ter que dar conta das excentricidades do cineasta responsável pela produção sobre bruxas (Antonio Mancini) e da arrogância do produtor ameaçador (Cosino Fusco).

O filme em produção é o giallo The Equestrian Vortex, uma obra que raramente podemos ver através das parcas inclusões em cena. Preso ao propósito de ser um filme sobre a sonoplastia, a violência incitada pelo filme é apenas sugerida, mas suficiente para nos levar ao clima do roteiro, uma angustiante saga que mescla desconforto e tensão para Gilderoy, e por sua vez, para nós, espectadores.

Há uma cena interessante na abertura, quando o engenheiro caminha até o estúdio de produção e a câmera enquadra perfeitamente uma placa com a palavra silêncio. Após o personagem adentrar pela porta, um perturbador som alto invade o filme, fazendo-nos mergulhar num terrível clima de horror. Mais uma prova cabal de que a sugestão e um roteiro equilibrado podem assustar mais que bonecos assassinos, vilões mascarados com motivos banais e ou alienígenas interessados em destroçar Nova York. Habituado a trabalhar com documentários, Gilderoy vai passar por uma curiosa experiência.

Ambientado nos anos 1960, Berberian Sound enquadra um personagem em colapso nervoso graças à atmosfera do local de trabalho. As cartas incessantes da sua mãe, além do envolvimento com as atrizes que participam da produção, geralmente abusadas sexualmente pelo diretor em troca de manutenção da proposta de trabalho.

O filme interessa a todos nós, cinéfilos ou críticos de cinema. É uma obra visceral sobre obsessão em várias vivas: obsessão pelo trabalho, pela sobrevivência, pelo poder, pela sétima arte. Tendo a música como elemento central da história, Berberian Sound é uma bela homenagem aos giallos (tramas policialescas sangrentas italianas) e uma interessante experiência de cunho sensorial. A produção também nos remete ao clássico Um Tiro na Noite, de Brian De Palma, além de ser pensada como uma ode aos tempos analógicos do cinema, quando Hitchcock utilizava frutas para extrair o som das facadas da canônica cena do chuveiro com Janeth Leigh, em Psicose.

Berberian Sound (Berberian Sound Studio, Inglaterra – 2012)
Direção: Peter Strickland
Roteiro: Peter Strickland.
Elenco: Tobey Jones, Guido Ardoni, Antonio Mancino, Cosimo Fusco, Fatima Mohamed, Chiara D´Anna, Eugenia Caruso, Lara Parmiani, Salvatore Li Causi.
Duração: 92 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.