Crítica | Bernardo e Bianca

“Talvez Rufus, o gato, esteja certo. O que dois ratos podem fazer?”

Uma aventura simpática. Não é muito complicado simplificar tudo o que Bernardo e Bianca, animação lançada no mesmo ano que o longa As Aventuras do Ursinho Pooh, é. Tendo sido baseado nos livros The Rescuers e Miss Bianca, ambos de Margery Sharp, o filme abrange uma missão destinada a Sociedade de Resgate, organização composta por ratos das mais diferentes nações. Na trama, uma jovem garotinha sumiu e cabe à Bianca (Eva Garbor), ao lado do porteiro Bernardo (Bob Newhart), salvarem-na das ameaças existentes no mundo, seja crocodilos gigantes, seja exploradoras gananciosas. Mas como dois ratos conseguirão realizar tal feito? Com a ajuda de muitos parceiros de viagem, é claro. Sendo assim, Bernardo e Bianca conta com um vasto elenco de personagens coadjuvantes, os quais, em suma, são bastante simpáticos. Como maior destaque, a ave Orville (Jim Jordan, em último papel de sua carreira) protagoniza momentos divertidíssimos, comparando-se a um avião e assumindo, consequentemente, uma aproximação da sociedade humana a sociedade de ratos. Curiosamente, o nome do personagem é dado em referência a um dos irmãos Wright, pioneiros da aviação. Aliás, muitos aspectos que vivemos são levados para esse novo universo, de escala muito menor ao “real”, algo que, em termos de imagem, cria inventivos contrastes diante do reajuste na proporção dos objetos em relação aos protagonistas.

Mas, ainda antes de sermos apresentados a Orville, a jornada teria seu princípio, introduzindo uma dupla de heróis improváveis. A mocinha assume papel dianteiro em relação ao trabalho, e Bernardo, que nem era um voluntário, é chamado por ela para participar da missão, resgatar uma menina de altos apuros. Sob uma análise anacrônica, abre-se espaço na obra para certas críticas em relação a função de Bianca na narrativa, visto que a personagem, sempre ela, acaba em apuros, precisando ser salva por Bernardo – caindo da ave, durante a explosão dos fogos de artifício, e quase se afogando na água, enquanto era guiada por Evinrude, uma libélula marcante, diferente das inúmeras personalidades que surgem, abruptamente, para ajudar no resgate de Penny (Michelle Stacy), a garotinha sumida. A relação entre os dois protagonistas também caminha sobre águas comuns, sem muito destaque, com uma fortificação na conexão gradual, paralela ao tempo de tela destinado a eles. Uma pena que, durante essa trajetória, de Nova Iorque ao pântano do ato final, pouco seja dedicado à investigação, a qual permanece existindo de uma maneira simplificada, sem rodeios maiores. A garrafa é enviada, os ratos passam pelo orfanato, lar de Penny antes de seu desaparecimento, e, não muito tempo depois, já estão a caminho do pântano. A qualidade de animação básica não promove, ao lado da pouca variedade de cenários, uma obra com todo o chamativo visual possível pela realidade dos protagonistas, personagens pequenos em um mundo gigantesco.

Ademais, para uma animação destinada a crianças, é bastante interessante uma abordagem em relação a questão do trabalho infantil. Porém, muito pouco Bernardo e Bianca tem para falar sobre isso, visto que a simplificação em relação às figuras antagônicas não permite um aprofundamento suavizado. A jovem Penny foi sequestrada por uma razão débil, pouco crível, que emburrece a narrativa visando um consumo presumidamente mais acessível. A Madame Medusa (Geraldine Page) não poderia ter usado de seculares técnicas de mineração para conseguir o seu precioso diamante? A justificativa para a necessidade de uma criança, coincidentemente essa criança, é bastante falha. Aliás, a vilã acaba sendo, de certa forma, externamente e internamente, uma versão reciclada de Cruella de Vil, antagonista de 101 Dálmatas, mas sem o mesmo charme indescritível e crueldade deliciosa de acompanhar. De semelhanças, nota-se o caráter histérico da personagem, impulsionado exageradamente pelas coisas horríveis ditas por ela de modo indiscriminado à Penny, assim como a existência de um capanga deveras atrapalhado, servindo de pontual alívio cômico. Dentro desse meio, apenas os corpulentos crocodilos, Brutus e Nero, tem algum carisma a mais. Em termos de vilões, portanto, o espectador não tem mais nada a fazer senão lamentar a inexistência de antagonistas mais bem resolvidos, capazes de serem equiparados aos ótimos protagonistas.

Mas Penny é uma personagem extremamente amável, o ponto alto desta aventura simpática. Por acertar no alvo do resgate, este, ainda simplíssimo, torna-se deveras mais instigante; queremos que ele seja executado e torcemos pelo final feliz da história. A apresentação de Rufus (John McIntire) contribui para uma identificação do público com a garotinha, embora a questão da adoção seja inserida no meio de tudo isso aleatoriamente, criando-se algo de bom, no final das contas, para a menina sonhar. A música Someone’s Waiting For You engloba o sentimento de tristeza atrelado à Penny, apesar dela não se dar por vencida, lutando bravamente para fugir, por contra própria, sem ajuda de ninguém. Um adendo a participação especial de Bambi e sua mãe, durante esse segmento. Todavia, a independência, em alguns casos, não nos fazem atingir os sonhos que ousamos sonhar, mantendo-nos estagnados. O resgate pode vir de qualquer lugar, até dos mais improváveis. Por fim, a atribuição de coragem, de dever aos protagonistas do filme, é notável. Bernardo questiona a sua capacidade, mas é relembrado pela grudenta, mas significativa e cantarolante, Rescue Aid Society. A música em Bernardo e Bianca assume um importante papel, quase sabotado pela genérica Tomorrow is Another Day. Em suma, com todas essas características apresentadas, a vigésima-terceira incursão cinematográfica da Walt Disney Animation Studios acaba por ser meramente simpática.

Bernardo e Bianca (The Rescuers) – EUA, 1977
Direção: Wolfgang Reitherman, John Lounsbery, Art Stevens
Roteiro: Larry Clemmons, Vance Gerry, Ken Anderson, Frank Thomas, Burny Mattinson, Fred Lucky, Dick Sebast, David Michener, Ted Berman
Elenco: Bob Newhart, Eva Gabor, Michelle Stacy, Geraldine Page, Joe Flynn, Jim Jordan, John McIntire, Jeanette Nolan, Pat Buttram, Bernard Fox, George Lindsey, Dub Taylor, John Fiedler
Duração: 77 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.