Crítica | Berserk – Saga 01: O Espadachim Negro

estrelas 4,5

Crítica publicada originalmente na revista Neo Tokyo nº 106, que pode ser adquirida aqui.

Tendo seu primeiro volume lançado em 26 de Novembro de 1990, Berserk rapidamente se tornou um dos mangás de maior influência da cultura pop japonesa, influenciando outras obras como Vinland Saga e games de destaque, como Final Fantasy VII (a espada de Cloud não é meramente coincidência), Devil May Cry e, mais recentemente, Demon’s Souls e Dark Souls, cujas artes conceituais em muito se inspiraram no traço e nos personagens apresentados no mangá.

capaberserk1Roteirizado e ilustrado por Kentaro Miura, a obra acompanha um solitário mercenário, Guts, também conhecido como o Espadachim Negro. Passado em um universo de fantasia medieval, seguimos o protagonista enquanto ele caça um grupo de poderosos demônios conhecido como A Mão de Deus, que, ao que tudo indica, desde as páginas iniciais, afetou de forma pessoal a vida de Guts. Miura nos introduz a esse mundo sombrio como em um súbito mergulho – o autor não perde tempo realizando inúmeras explicações sobre a mitologia apresentada e dá início à sua narrativa sem qualquer esforço didático. Vale ressaltar que se trata de uma história mirada no público adulto e Kentaro trata seu leitor como tal. Essa falta de explicação garante uma notável fluidez na leitura, praticamente nos obrigando a voar de capítulo em capítulo ao passo que a história se torna cada vez mais envolvente.

Apesar da técnica de redação utilizada não nos causar hesitações, o desenrolar do roteiro em si acaba gerando, à princípio, medo no leitor. Guts, em sua personalidade fechada e ampla habilidade com sua gigantesca espada, é tido como uma figura praticamente invencível, portanto em nenhum dos embates do trecho inicial da obra sentimos como se ele, de fato, estivesse em algum perigo, o que poderia significar a queda em uma armadilha evidente em animes como Devil May Cry Hellsing (não me refiro ao OVA), onde sabemos que o protagonista sempre levará a melhor. Miura, contudo, consegue se distanciar de tal deslize por meio do uso de personagens secundários, que são praticamente descartados a fim de construir o tom da narrativa.

E que tom é esse? A ultraviolência. Não me refiro apenas ao costumeiro gore, embora esse se faça presente, e sim à casualidade da morte, o que perfeitamente se encaixa dentro do universo medieval retratado. Nos dois primeiros arcos, que fecham a primeira saga do mangá, observamos inúmeros indivíduos fazendo pequenas aparições em geral para morrerem da forma mais sanguinolenta possível e, nesse cenário, nem crianças, mulheres e idosos se salvam. Essa banalidade da morte, ainda que retratada de forma chocante e memorável, dá à personalidade de Guts uma interessante dubiedade. Ao mesmo tempo que temos nele um espadachim que vê o fim da vida como algo natural, enxergamos traços de preocupação sempre que alguém se encontra em perigo, por mais que ele mesmo tente esconder isso por trás de palavras frias e disposição despreocupada. Trata-se quase de um medo do protagonista, que nos faz apenas indagar o que há de tão traumático no passado desse homem.

Ouch...

Ouch…

Com esse aspecto em mente, a violência gráfica pela qual o mangá se tornou famoso é parte crucial dentro da construção da narrativa, assegurando que cada personagem introduzido pode estar em perigo. Berserk nos deixa nessa posição constante de inquietude e tensão, ao passo que todo diálogo pode ser a última fala de determinado indivíduo – certamente não se trata de uma leitura para crianças. O traço, também de Kentaro, que mistura bem o realismo com o exagero, se encaixa organicamente dentro da proposta, ainda que nas páginas iniciais, como de costume em grande parte dos mangás, seja menos rebuscado.

Contrabalançando esse clima sombrio que domina praticamente todas as páginas da leitura, temos Puck, um pequeno elfo (que em Berserk é bastante similar a uma fada) que decide acompanhar Guts em sua jornada, embora este o trate mal e o ignore a maior parte do tempo. Puck conta com disposição muito mais alegre que a de seu companheiro de viagem, funcionando como alívio cômico em diversos capítulos. É curioso observar que o desenho, nesses momentos, se torna evidentemente mais caricato, aliviando a tensão presente nas páginas. Com alguns poderes especiais, como o de curar ferimentos, o elfo estabelece evidente antítese em relação ao protagonista, representando a vida enquanto o outro, a morte. Por mais que o Espadachim Negro desdenhe tal criatura mágica a maior parte do tempo, Kentaro Miura constrói uma engajante relação entre os dois, que pouco a pouco demonstra traços do avanço de uma maior familiaridade.

Retomando o tópico da relativa invencibilidade de Guts, essa é completamente descartada com a breve aparição da Mão de Deus, ponto crucial dentro da narrativa que, enfim, garante um rumo definido para a história e um elemento pelo qual o leitor pode ansiar a cada virada de página. O grupo de demônios se apresenta, visivelmente, com nível de poder muito acima do protagonista. Em outras palavras, a jornada do herói será longa, o que pode significar não só uma melhoria física do personagem como emocional/afetiva. A aparição da Mão de Deus marca, também, o término da primeira saga do mangá; a posterior nos contando um pouco sobre as origens de Guts, em uma estrutura que seria utilizada novamente no já citado Vinland Saga. Porém, como não pretendo estragar detalhes cruciais da trama neste texto, limitarei essa análise apenas a essa primeira saga, definidora da obra como um todo.

Repleto de violência, personagens engajantes e uma história que suga ao máximo o leitor, Berserk certamente se configura como um mangá que merece ser lido. A história nos traz um rico universo sombrio de fantasia medieval que perfeitamente mistura o realismo com notáveis e deliciosos exageros que marcariam a cultura pop de forma definitiva.

Berserk – Saga 01: O Espadachim Negro
Roteiro: Kentaro Miura
Arte: Kentaro Miura
Editora (no Brasil): Panini
Editora (no Japão): Hakusensha

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.