Crítica | Better Call Saul – 1X01/02: Uno e Mijo

estrelas 4,5

Seria cedo demais para afirmar que Vince Gilligan conseguiu novamente?

Tenho para mim, muito sinceramente, que não.

Uno e Mijo, os dois episódios iniciais da aguardada série Better Call Saul, spin-off da aclamadíssima Breaking Bad focada na “origem” do advogado malandro Saul Goodman, criam e estabelecem a base para uma vigorosa história que tem contornos próprios, sem, porém, trair o que veio antes (ou depois, tecnicamente falando). Gilligan nos apresenta uma narrativa bem construída, bem pensada, engajante e que nos faz salivar por mais, de maneira parecida, mas diferente, se é que vocês me entendem, com o que ele fez conosco ao longo de cinco temporadas de seu triunfo anterior.

Não há dúvida que muito da curiosidade por Better Call Saul venha justamente da fama de Breaking Bad. Isso é bom e  ruim ao mesmo tempo, pois deixa a nova série sob a sombra da que veio antes, gerando, possivelmente, comparações injustas. Mas Gilligan sabe disso. E ele não se deixou amedrontar por eventuais paralelos traçados entre seus dois trabalho. Muito ao contrário, na verdade. Better Call Saul muito claramente bebe de Breaking Bad e o showrunner não tenta esconder esse aspecto, utilizando-se desde a fotografia com ângulos radicais e cores saturadas de Breaking Bad, passando por sequências icônicas muito parecidas (basta ver todo o entrevero no deserto em Mijo, que é quase que fotograma a fotograma pinçado de Breaking Bad), uso de outros personagens vividos pelos mesmos atores que também apareceram em Breaking  Bad (Jonathan Banks, Raymond Cruz, Cesar Garcia e Jesus Payan) e até detalhes insignificantes como a cor da fita adesiva usada por Saul para fixar seu para-brisa que é idêntica a que Walter White usa nas mesmas circunstâncias.

Portanto, Better Call Saul é sim, sem sombra de dúvidas, com muito orgulho, um prelúdio de Breaking Bad. Mas quer saber? Isso não importa. Gilligan, mesmo trabalhando na segurança de uma atmosfera conhecida, faz um trabalho excepcional que dá personalidade própria à sua nova empreitada. É necessário assistir Breaking Bad antes. Sim, para melhor apreciação do que ele está fazendo, mas não é obrigatório. Better Call Saul tem história para viver sozinha, para expandir seus horizontes, mesmo que, no final do dia, saibamos o que acontecerá com Saul.

Aliás, Saul não. James Morgan McGill. Ou somente Jimmy. Esse é o personagem vivido por Bob Odenkirk, personagem esse que se desenvolverá e se transformará em Saul Goodman. Mas a série começa no presente, em um gancho que torna realidade a premonição de Saul ao final de Breaking Bad, a que ele seria no máximo um gerente de uma loja Cinnabon em Omaha, Nebraska. É lá que o vemos – com o nome falso Gene – em um prelúdio no presente em preto e branco. Ele está sozinho, triste, envelhecido, em uma vida de constante medo de ser reconhecido. Quando, em casa, ele coloca uma fita em VHS com o anúncio “Better Call Saul” de seus dias de ouro (reparem no reflexo colorido nas lentes do óculos dele), somos levados para 2002, com Saul ainda como Jimmy, um advogado “de porta de cadeia” que vive a vida de pequenos casos na Defensoria Pública de Albuquerque.

Quebrado, sem ter onde cair morto, com um escritório/casa nos fundos de um salão de beleza, Jimmy precisa desesperadamente de clientes. Sua rotina diária é pegar pequenos casos para tirar a sorte grande e finalmente ser contratado por clientes com dinheiro, algo que demora a acontecer. Mas mesmo aí, nesses momentos duros, a eloquência e carisma do futuro Saul é vista. Seus momentos de tribunal são uma mistura de arroubos de genialidade com absurdos surrealistas típicos de Salvador Dalí.

Uno, o piloto, estabelece esse universo, essa premissa. As conexões com Breaking Bad se fazem sentir a cada minuto, mas Bob Odenkirk convincentemente cria um novo personagem, um homem de vida dura que tenta de verdade fazer o que é correto. E Gilligan embute mais passado ainda para Jimmy, mostrando que sua malandragem futura não era muito mais do que a continuação de sua malandragem passada e que ele usa novamente em Uno para desesperadamente angariar um cliente que prefere contratar o escritório de seu irmão mais velho Chuck (Michael McKean).

Aliás, como nada é simples, falando nesse escritório e no irmão de Jimmy, aprendemos, mas não entendemos prontamente – pelo menos não em Uno – que alguma coisa estranha acometeu Chuck, pois ele vive em sua mansão sem qualquer traço de energia elétrica, com direito a isopor com gelo para manter a comida e lampiões para quebrar o breu. Ele está afastado do escritório que ajudou a fundar em razão dessa sua condição e Jimmy não se conforma com isso e tenta fazer com que o escritório compre a parte de seu irmão. A relação de Jimmy com os sócios de Chuck e com o próprio Chuck é estranha, mas fascinante, com potencial para desdobramentos interessantes.

Somente em Mijo, porém, é que não só aprendemos mais sobre a doença de Chuck – é verdadeira e conhecida como “hipersensibilidade eletromagnética” – como também começamos a ver que o passado de Jimmy como malandro de rua começa a alcançá-lo novamente. Em Uno ele dá partida a um golpe para angariar um cliente receoso, mas em Mijo vemos as consequências dele, mesmo que Jimmy tente ao máximo desvencilhar-se do problema e voltar para sua vida de todos os dias. Como  um para-raio, o personagem atrai para si uma cadeia de problemas, assim como um dominó enfileirado cuja primeira peça ele derrubou sem saber. De certa forma, há um paralelo entre essa história e a escolha de Walter White em fabricar metanfetaminas em Breaking Bad e tudo de ruim que isso gerou.

Se existe um potencial defeito em Better Call Saul é que, diferente de sua série-mãe, nós sabemos a direção que ela caminha. O fator surpresa sobre o destino de Jimmy é inexistente. Mas, como dizem por aí, o importante é a jornada, não é mesmo?

E essa jornada tem tudo para ser inesquecível.

Better Call Saul – 1X01/1X02: Uno e Mijo (EUA, 2015)
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Vince Gilligan (1X01), Michelle MacLaren (1X02)
Roteiro: Vince Gilligan (1X01), Peter Gould (1X01 e 1X02)
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty
Duração: 53 min. (1X01), 46 min. (1X02)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.