Crítica | Better Call Saul – 1X03: Nacho

estrelas 4

Mesmo tendo estabelecido o personagem Jimmy McGill – o futuro Saul Goodman – em Uno e Mijo, Vince Gilligan quer ter certeza que o espectador realmente entendeu que Jimmy é, nas profundezas de seu ser, um malandro, um bandido. Saul Goodman sempre existiu em seu coração e seu eventual desabrochar nessa direção é algo quase no DNA dele.

É isso que o breve flashback no começo de Nacho tenta enfatizar. Nele, vemos Chuck, antes de sua “hipersensibilidade ao electromagnetismo”, entrando em uma prisão para defender algum criminoso e, surpresa, surpresa, este é seu irmão, Jimmy, em alguma encrenca séria. Sem se ver há cinco anos, Chuck está para desistir do irmão, quando Jimmy promete fazer literalmente qualquer coisa se ele sair dali como que por um passe de mágica advocatício. É, possivelmente, a razão pela qual Jimmy acaba estudando Direito e vai trabalhar como Defensor Público sob os auspícios de Chuck, mas isso fica para outro momento, já que logo voltamos para o presente. Só vale aqui um comentário: espero, sinceramente, que esses momentos muito no passado sejam breves, pois Bob Odenkirk não tem mais idade para fazer o papel de um jovem. Fica estranho e irreal.

Quando a ação volta para o presente, começamos a perceber, de verdade, que Vince Gilligan usará o mesmo tipo de estrutura de “escolhas erradas” de Breaking Bad. Sem saída, Jimmy se vê tentado a ajudar Nacho em seu plano de roubar o dinheiro roubado por Craig e Betsy Kettleman, os clientes que ele quase conseguira. Para isso, liga para Kim, seu (ex?) caso e advogada no escritório Hamlin, Hamlin & McGill, de onde seu irmão é sócio e, em uma estranhíssima conversa noturna, acaba dando a entender que os Kettleman estariam em perigo. Ato contínuo, em atitude completamente impensada, Jimmy cria esse perigo ao ligar diretamente para os Kettleman para assustá-los. Acontece que Nacho estava mesmo vigiando a casa da família e, como eles desaparecem na manhã seguinte, o gângster é preso e Jimmy tem que tirá-lo de lá de qualquer maneira depois que Nacho deixa claro seu descontentamento com o advogado.

A história dá voltas e mais voltas e reflete, em estrutura, a confusão mental na cabeça do futuro Saul Goodman. Aqui, o tom de comédia da série surge de maneira um pouco mais saliente (Gilligan disse que a série seria 85% drama e 15% comédia) e as trapalhadas de Jimmy são dignas de pastelão em alguns breves momentos. Mas vejam que isso não detrai da série. Muito ao contrário, na verdade. O roteiro de Thomas Schnauz é muito inteligente ao usar comédia para criar tensão. Reparem, por exemplo, na ótima sequência em que Jimmy liga para Nacho em um telefone público. A indecisão de Jimmy é hilária, mas a cada nova ligação – a direção de Terry McDonough e a montagem ajudam muito, claro – o espectador fica mais exasperado, mais ainda que o protagonista. “Larga o telefone!” – dá vontade de gritar para a tela.

O mesmo vale, mais para a frente, com a primeira interação entre Jimmy e Mike fora do ambiente do estacionamento (sequências essas que, por si só, já são clássicas). Sabemos quem Mike é na verdade – ou tornar-se-á, melhor dizendo – mas o roteiro trabalha do zero, usando muito mais as feições carrancudas de Jonathan Banks em contraposição com o rosto confuso de Odenkirk. Essa interação, que se dá na escada da delegacia, é, certamente, “o começo de uma bela amizade”.

O que fica abundantemente claro em Nacho é que, agora, o caminho de Jimmy pelo lado negro é inevitável. Sim, ainda vemos resquícios de bondade em seu coração. Ele tenta mesmo, por vias tortas, fazer o certo ou, ao menos, desfazer o errado, mas a conjunção astral formada basicamente por suas ações anteriores não permitirão outro caminho. Claro, claro, estou dizendo isso, pois todos nós já sabemos quem será Saul Goodman, mas parem um pouco e pensem: alguém conseguiria imaginar uma backstory tão rica assim para um personagem que odiamos amar? Vince Gilligan não vende as coisas de maneira simples ou barata. Ele cria camadas e mais camadas de complexidade que enriquecem a história quase que a cada fotograma, coisa que, aliás, ele não desperdiça. E essas camadas não são nunca forçadas ou completamente fora do personagem ou mesmo uma tentativa de “enrolar” a série. É perfeitamente possível ver, no horizonte, o encerramento de Better Call Saul e tudo que Gilligan enxerta em seu universo faz sentido de uma forma ou de outra. Pode ser um tiquinho exagerado aqui e ali, mas o tom de comédia da série permite esses arroubos menos realistas.

Já sabemos muito sobre Saul antes de ser Saul e até mesmo sobre Jimmy antes de ser Jimmy. Mas  não há dúvidas que há muito mais para descobrimos nesse magnífico olhar para o passado chamado Better Caul Saul.

Better Call Saul – 1X03: Nacho (EUA, 2015)
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Terry McDonough
Roteiro: Thomas Schnauz
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.