Crítica | Better Call Saul – 1X04: Hero

estrelas 4

Obs: Há spoilers da série. 

Mais um capítulo que abre no passado de Jimmy McGill, quando ele era conhecido como Slippin’ Jimmy. E agora entendemos exatamente que tipo de golpes ele fazia antes de ser “convertido” por seu irmão Chuck (provavelmente logo após o flashback que vemos em Nacho). Além de servir de uma espécie de prelúdio à ação no decorrer de Hero descobrimos, finalmente, de onde vem o nome Saul Goodman.

É que, em conversa com sua vítima, outro malandro, Jimmy solta a frase “it’s all good, man” em sua corruptela “s’all good, man” que significa, simplesmente, “está tudo certo, cara”. Divertido e muito bem pensado, dando um toque de inteligência ao peculiar nome que viria a ser escolhido pelo protagonista.

Quando o passeio ao passado acaba, voltamos imediatamente ao ponto em que Nacho se encerrou: Jimmy está conversando com os Kettleman logo após de descobrir onde  estavam escondidos. O dinheiro todo que eles roubaram está lá, ao pé do grupo e vislumbramos a última barreira de honestidade de Jimmy desabar completamente. Os Kettleman oferecem dinheiro para ele ficar quieto ao que Jimmy responde que não. Eles insistem e a resposta ainda é não. Insistem novamente e a certeza de Jimmy começa a falhar. Mais uma vez e Jimmy sugere que os Kettleman o contrate como advogado e o dinheiro seria uma espécie de pagamento adiantado (o chamado retainer). Os Kettleman se negam e dizem o porquê: Jimmy parece o tipo de advogado que é contratado por gente culpada.

He, he. Realmente. Os Kettleman têm bom faro, sem dúvida. Mas acontece que, até aquele momento, Jimmy era só um advogado tentando sobreviver dentro da lei (ok, quase). Quando ele pega o dinheiro – o que só descobrimos com certeza alguns minutos depois em uma tomada com câmera baixa, com Jimmy em sua escrivaninha – seu rito de passagem se completa. Ele volta a ser Slippin’ Jimmy.

Ou será que não?

Afinal, o roteiro de Gennifer Hutchison está longe de ser óbvio. Ele escreve o episódio de maneira a nos manter na dúvida o tempo todo sobre qual é exatamente o plano que Jimmy imagina em sua cabeça para se vingar de Howard Hamlin (Patrick Fabian), co-fundador (junto com Chuck McGill, irmão de Jimmy) do escritório Hamlin, Hamlin & McGill. No começo, vemos uma tentativa boba de copiar a marca do escritório de Hamlin, mas essa trama de se desenvolve com Jimmy se transformando primeiro em vítima e, depois, no herói do título.

A atuação de Bob Odenkirk ajuda muito na farsa que Hutchison tenta estabelecer. Ele parece muito sincero, especialmente depois de tentar se mostrar honesto perante os Kettleman. Estabelece-se dúvida se ele pegou o dinheiro e, depois, as apostas ficam mais altas e o episódio vai sendo montado a partir de nossas certezas, mas que são derrubadas aqui e ali por uma narração esperta e uma construção crível.

Mas é claro – evidente até – que a tentativa de Vince Gilligan de enganar seu espectador jamais poderia funcionar (se funcionou no seu caso, ótimo!) já que estamos lidando com o ex-Slippin’ Jimmy (olha o flashback aí!) e, mais importante ainda, o futuro Saul Goodman. Não havia qualquer possibilidade dos acontecimentos não serem armação.

E esse é, ao mesmo tempo, o ponto forte e o fraco de Hero. O episódio inteiro lida com o golpe de Saul, digo, Jimmy e o flashback ainda deixa claro o desfecho. Com isso, qualquer traço de surpresa desaparece, retirando a efetividade da brincadeira. No entanto, por  outro lado, é lógico que Gilligan não é bobo e não quer tratar seus espectadores como bobos. Ele está contando a origem de um salafrário e o que vemos em Hero, sem rodeios, é o primeiro de potencialmente muitos outros grandes golpes do nosso “herói”. É o começo efetivo da queda de Jimmy ao inferno (na concepção do sofrido Chuck, ao menos) ou sua subida ao paraíso do “advogado de bandido” como profeticamente diz Betsy Kettleman ao oferecer dinheiro em troca de seu silêncio.

A costura da narrativa é brilhante. Há uma espécie de casamento perfeito entre diálogos e a atuação de Odenkirk que hipnotiza o espectador de tal forma que os pouco mais de 45 minutos do episódio passam como se fossem 15. E Hero é um show quase que exclusivo do ator, que tem muito o que fazer durante toda a projeção e ganha generosos close-ups fixos da câmera comandada por Colin Bucksey, veteraníssimo diretor britânico que já dirigira episódios de Breaking Bad e também da 1ª temporada da soberba série Fargo, de 2014.

E aos poucos Better Call Saul vai saindo da sombra da série original, caminhando a passos largos para tornar-se uma das melhores séries novas de 2015.

Better Call Saul – 1X04: Hero (EUA, 2015)
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Colin Bucksey
Roteiro: Gennifer Hutchison
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.