Crítica | Better Call Saul – 1X05: Alpine Shepherd Boy

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers da série. 

Como não amar um episódio em que há uma privada falante e um louco varrido que quer fazer a secessão de sua fazenda dos Estados Unidos e que tem notas de dólares com o rosto dele estampado? Impossível, não é mesmo?

Alpine Shepherd Boy nos leva da comicidade total à preocupação genuína à uma virada de foco inesperada. Tudo isso em pouco mais de 44 minutos. É a prova que Vince Gilligan tem uma série com vida própria, relevante e que não fica sob a poderosa sombra de Breaking Bad.

Na primeira “parte” do episódio, acompanhamos Jimmy McGill em sua peregrinação atrás dos clientes que surgiram depois de seu literal golpe publicitário visto em Hero. O primeiro potencial cliente é um fazendeiro que dirige automóveis militares e tem animais empalhados como orgulhosos enfeites por toda sua casa (a crítica social é tão forte e rica que não dá nem para começar a descrever). Ele quer que Saul entre com uma ação contra o governo americano para que ele possa se separar dos EUA, já que ele não tolera o grau de intervenção do estado na vida dos cidadãos. Promete pagar um milhão de dólares, em dinheiro, metade ali, na lata e metade no final da ação.

Jimmy tirou a sorte grande. Ele mal pode conter sua excitação quando seu futuro cliente se levanta e pega uma bandeja de notas de 100 dólares em gordos chumaços de 10 mil. E qual não é seu desapontamento quando ele percebe que se trata de dinheiro do próprio futuro país – um Vaticano nos EUA! – do aloprado que quer contratá-lo. Bob Odenkirk, nesses poucos segundos, mostra todo seu talento nato, construindo vagarosamente a felicidade de seu personagem somente despedaçá-la com a visão das notas falsas em sua mãos trêmulas. Sua alegria se esvai, junto com grande parte de sua paciência.

Mas ele insiste e visita o próximo possível cliente. Dessa vez é um inventor que o faz assinar um acordo de confidencialidade antes de revelar sua brilhante criação: um vaso sanitário falante para treinar crianças a, claro, usar o vaso. Mas as frases que saem de sua invenção são de rachar de rir, por seu conteúdo sexual que o inventor simplesmente não compreende, expulsando Jimmy quando ele fala o óbvio. Depois disso, é ladeira abaixo, com Jimmy trabalhando literalmente por migalhas fazendo testamentos e outros trabalhos menos nobres.

Esse primeiro momento do episódio funciona para mostrar que Jimmy ainda é Jimmy, não tendo voltado a ser o Slippin’ Jimmy de outrora, apesar do golpe em frente às televisões e jornais da cidade. Jimmy McGill tenta, com todas as suas forças, fazer o certo, mesmo que de maneira torta. Ele luta contra o inevitável, nada contra uma maré inclemente. Os momentos cômicos, na verdade, são tragicômicos, um prenúncio do que está por vir.

E a situação começa a se complicar logo na segunda parte. Chuck, o irmão de Jimmy que sofre de hipersensibilidade ao electromagnetismo foi preso depois que furtou o jornal da vizinha. Em um hospital, ele mal consegue falar com todas as luzes e aparelhos eletrônicos ao seu redor. Quando Jimmy chega para tentar resolver a situação, tem que debater sobre internar ou não o irmão em algum tipo de sanatório, já que a médica prova que sua doença não é física, mas sim psiquiátrica.

Novamente vemos Jimmy se contorcer internamente. Ele adora o irmão e ele sabe que ele é o culpado pelo infortúnio do jornal e também, em belíssimo e revelador momento, pela própria doença do irmão, ao que tudo indica. Mas ele sabe também que pode se beneficiar muito da internação, para desespero de Howard Hamlin, sócio de Chuck. Sua humanidade é colocada a teste em Alpine Shepherd Boy e ele passa de raspão. Mas por quanto tempo mais? Jimmy tem o mundo encolhendo ao seu redor, tirando, pouco a pouco, lascas de suas defesas internas. Ele é como um viciado em drogas que não pode chegar perto das substâncias sem algum tipo de tentação, sempre estando a poucos segundos – ou poucas palavras – de reverter à sua época negra de bandidagem.

E novamente vemos o brilhantismo de Gilligan em ação, dessa vez por intermédio do extremamente bem escrito roteiro de Bradley Paul. O showrunner sabe que o espectador quer muito ver Saul Goodman, mas só vemos flashes desse futuro salafrário. Ao mesmo tempo, porém, ele nos faz torcer por Jimmy – não pelo Slippin’ Jimmy – de maneira que paremos e pensemos se de repente não preferiríamos alguma espécie de final feliz. Talvez Jimmy case com a bela Kim…

Não, não. Isso é impossível. Jamais acontecerá.

Mas nós queremos que isso – ou algo semelhante – aconteça, não é mesmo?

Essa é a mágica de Gilligan a todo vapor. Os dilemas morais de Jimmy conseguem ser mais profundos que os de Walter White. O mergulho na psiquê do personagem também parece ser mais completo e a latitude do trabalho de Odenkirk, oscilando de forma crível de uma personalidade a outra (ele já viveu três “tipos” de advogado até agora – pensem nisso!) é absolutamente fascinante.

E, como se tudo isso não bastasse, entramos no terço final do episódio, que nos dá uma rasteira narrativa. Jimmy sai de cena em uma belíssima sequência em que ele se afasta de carro do estacionamento do Tribunal de Justiça, depois de brevemente conversar com Mike. E a câmera, então, fica parada lá atrás, em plano aberto, apontada para a cabine do solitário “porteiro” a noite toda. Ele bate seu ponto de manhã, sai para tomar café-da-manhã e reflete sobre sua conversa com Jimmy na noite anterior. Jimmy entregara seu novo cartão de especialista em “Direito dos Idosos”, caso Mike precise, para tripudiar do vigia. Esse aspecto fica evidentemente presente no silêncio absoluto que toma o episódio, que passa a focar exclusivamente em  Mike Ehrmantraut.

Nós sabemos quem ele se tornará também. Mas Gilligan nos joga no meio de sua vida aparentemente desperdiçada. Quem é a moça que ele tenta visitar? Sua filha? O que aconteceu entre os dois? E o que os agentes que batem à sua porta mais tarde querem dele? Quase sem diálogos e com uma direção precisa, entramos em um outro mundo e simplesmente morremos de curiosidade quando a tela escurece e o episódio acaba.

Chegamos à metade da temporada com mais um estupendo episódio. Talvez o melhor até agora.

Já é hora de agradecer a Vince Gilligan novamente?

Better Call Saul – 1X05: Alpine Shepherd Boy (EUA, 2015)
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Nicole Kassell
Roteiro: Bradley Paul
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.