Crítica | Better Call Saul – 1X06: Five-0

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers da série. Leia as críticas dos episódios anteriores, aqui.  

Depois de um magnífico episódio que marcou a metade da temporada, Vince Gilligan segue a tendência de nos surpreender. Ele poderia ter seguido o caminho mais fácil, mais batido e trabalhado o passado de  Mike Ehrmantraut de maneira paralela à história de Jimmy McGill, o futuro Saul. Mas Gilligan, sendo o Gilligan que conhecemos, não é de fazer o óbvio, não é mesmo?

Em Alpine Shepherd Boy, vimos duas histórias, uma de Jimmy lidando com potenciais clientes novos e com seu irmão doente e outra, contemplativa, quase sem diálogos, sobre Mike. Mas aprendemos muito pouco sobre o taciturno ex-policial que, sabemos, alguma hora se unirá com Jimmy em suas falcatruas. E essa troca de foco não foi só um brincadeira de Gilligan, um artifício usado para chamar atenção do espectador.

Five-0 está aí para provar isso, já que todo o foco é em Mike, em seu passado recente e em seu presente. Sim, Jimmy McGill aparece, mas por apenas alguns pouquíssimos minutos, literalmente em uma ponta dentro de sua própria série. E isso é ótimo, pois Mike talvez tenha sido o mais misterioso dos personagens de Breaking Bad. Descobrir um pouco do que existe por detrás daquela carranca impassível é fascinante.

O roteiro de Gordon Smith é preciso ao criar uma narrativa intrigante, não linear, que vai aos poucos descortinando as camadas de complexidade do personagem, sua relação com a nora, o que aconteceu com seu filho, o que ele fez a respeito, o porquê de estar ali naquela cidade. Sem dúvida alguma, esse foi, até agora, o mais sério e pesado episódio de Better Call Saul, que sempre tenta manter a história com alguma leveza.

Mas aqui não. Em Five-0 a escuridão impera tanto em narrativa quanto em fotografia. A podridão, a tristeza, o arrependimento tomam conta de cada fotograma em uma história concisa e bem costurada, que serve de parênteses para a série, um parênteses para lá de bem vindo.

E é, também, o momento para Jonathan Banks brilhar. O ator nunca teve muito espaço para mostrar que é mais do que uma cara feia fitando o nada e mesmo assim compôs, na série anterior, um inesquecível personagem. Agora, ele ganha tempo de tela para desconstruir e reconstruir seu personagem, mostrando-nos o homem por atrás da careta truculenta. Só que Banks não muda radicalmente, longe disso. Grandes atuações não são feitas só da habilidade do ator em chorar e sorrir de maneira veemente. Diria que bem ao contrário até. Grandes atuações são sutis, imperceptíveis, invisíveis. E é isso que Banks nos entrega aqui, com uma câmera inclemente de Adam Bernstein que não se afasta do personagem.

É uma piscada em falso aqui, um trejeito ali, um silêncio constrangedor acolá. Jonathan Banks dá estofo ao seu personagem com pequenos detalhes, pequenos gestos que o espectador tem que se esforçar para ver em separado, mas que, no conjunto, desnudam a dureza de Mike Ehrmantraut. Mesmo antes de sua forte, sentida e emocionante confissão final, seu pedido de desculpas desesperado, nós já estamos ao lado de Mike e entendemos o alto muro que ele erigiu ao seu redor. O roteiro cria uma história pregressa lancinante, mas simples que Banks explora ao máximo para nosso prazer audiovisual. Pode ser um exagero, mas por diversas vezes vi vislumbres de um Anthony Hopkins ali, ou mesmo de um Marlon Brando.

Vince Gilligan está conseguindo se superar ao nos apresentar muito mais do que uma “história de origem” de um advogado salafrário que amamos. Ele está indo além, muito além. Na verdade, isso não deveria ser surpresa para ninguém vindo de quem vem, mas boa televisão é assim. Nos deixa sem fôlego e absolutamente arrebatados por 45 minutos.

Better Call Saul – 1X06: Five-0 (EUA, 2015)
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Adam Bernstein
Roteiro: Gordon Smith
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.