Crítica | Better Call Saul – 1X07: Bingo

estrelas 4,5

Obs: Há spoilers da série. Leia as críticas dos episódios anteriores, aqui.  

Esqueçamos por um momento a história desse episódio de Better Call Saul. Esqueçamos a luta de Jimmy para se firmar, a melancolia de Mike, as sandices do casal Kettleman e o sofrimento imaginário de Chuck. Comentarei sobre tudo isso, fique tranquilo, mas queria começar pela plasticidade de Bingo.

Sabe aqueles momentos em que a beleza de um filme é tão intensa, tão presente que você quase esquece tudo ao redor e fica hipnotizado pelas cores, pelos contrastes, pelo ângulo da câmera, pelos planos, pelos enquadramentos? Isso é raro de acontecer, especialmente na televisão, mas Bingo, dirigido por Larysa Kondracki, realmente me capturou logo a partir da sequência inicial, com Mike e Jimmy sentados em um banco inteiriço abaixo de um quadro de “procurados” na delegacia. Vemos os dois a partir do corredor imediatamente em frente, com uma câmera baixa e um enquadramento que, ao manter os “procurados” centralizados, deixa tanto Mike quanto Jimmy – separados por uma boa distância – um pouco “fora de prumo”. A lei e a ordem versus a ilegalidade e a desordem? Claro que os cartazes de procurado fazem a conexão óbvia com o caráter dos personagens, ao menos o caráter futuro, não necessariamente o do momento da série, mas o que realmente interessa é a forma como Kondracki artisticamente nos passa as informações sem que palavras sejam sequer necessárias.

Mas nada disso seria possível, lógico, sem o trabalho mágico de fotografia de Arthur Albert que, ainda que em muitos momentos tente, propositalmente, emular o look and feel de Breaking Bad, emprega à BCS um caráter de estranheza todo próprio. É perfeitamente possível concluir que estamos no mesmo universo, mas sob pontos de vista diferentes, algo que Vince Gilligan se esmera em deixar claro a cada novo episódio.

Quer outro exemplo? A cena – já tradicional – da garagem do escritório Hamlin, Hamlin & McGill, onde Jimmy costuma se encontrar com seu interesse romântico (atual ou passado, pouco importa pelo momento) Kim. É o momento de intimidade dos dois e, em Bingo, o jogo de luz e sombra procura passar o estado de espírito dos personagens, Kim deprimida com a perda dos clientes e Jimmy, na luz, com seu primeiro grande cliente, mas que ele não quer pegar, caminhando ligeiramente para a escuridão de sua parceira.

Ou ainda a magnífica tomada no escritório que Jimmy aluga. A câmera ou está abaixo do nível dos olhos dos personagens, muitas vezes no chão mesmo ou em ângulos que permitem uma visão panorâmica do imóvel. Vemos a vastidão da ambição, da esperança de Jimmy por um futuro melhor e, ao mesmo tempo, sentimos o peso do vazio, da distância que existe entre o que ele deseja e a realidade dos fatos. Quando seu mundo despenca – depois que ele faz o certo, ou o mais ou menos certo, que é devolver o dinheiro pago como adiantamento/suborno depois de furtá-lo dos Kettleman – voltamos para esse futuro escritório com a câmera novamente rastejante, com Jimmy indo à sua altura, ao encontro do chão em seu desespero e falta de perspectiva.

Sinceramente, eu poderia escrever parágrafos e mais parágrafos sobre a beleza de Bingo. Mas creio que o leitor já tenha percebido meu ponto e vou  parar por aqui, pois tenho que comentar um pouco sobre a história.

Gilligan volta finalmente a focar em Jimmy, depois de se fixar por metade de Alpine Shepherd Boy e pela integralidade de Five-0 em Mike Ehrmantraut. É a primeira vez que testemunhamos uma espécie de parceria relutante entre os dois. Jimmy ajudou Mike com a questão dos policiais e Mike, como pagamento, ajuda Jimmy com o problema dos parvos dos Kettleman. Essa interação serve claramente para demonstrar o quanto Jimmy, apesar de seu passado de falcatruas, está a léguas de distância de Mike em termos de compreensão da vida. O descompasso entre os dois é gritante e, ainda que instintivamente saibamos disso, Bingo constrói em cima de nossas expectativas, meio que colocando Jimmy “no lugar dele”. É aqui que o roteiro de Gennifer Hutchison, em seu segundo trabalho para a série (o primeiro foi em Hero) se sobressai, com diálogos curtos e enganosamente simples, que carregam na gravidade do passado que agora conhecemos de Mike (impossível não sentir a tristeza do ex-policial quando ele não para de elogiar o policial mais novo da dupla que o interroga, que claramente ele liga com seu filho morto) e, do outro lado, na leveza e inocência relativa de um verborrágico Jimmy.

Uma pena, porém, que esse momento de interação entre os dois seja curto demais, abrindo espaço para diversas sequências lidando com Craig e Betsy Kettleman. Jeremy Shamos e Julie Ann Emery estão ótimos no papel, nessa primeira vez com bastante tempo de tela. Eles constroem personagens repugnantes, cada um de sua maneira e que o espectador pode facilmente odiar. O roteiro, porém, carrega nas cores e dá diálogos repetitivos aos dois, expondo talvez um pouco demais situações que já ficaram sobejamente claras. É claro que eles são importantes para a trama de Bingo, que envolve Kim e Jimmy diretamente, mas achei que, talvez, uma poda tivesse tornado os diálogos mais precisos.

De toda maneira, é a boa ação de Jimmy – por vias tortas, sem dúvida – que definitivamente mostra que nosso protagonista está em um doloroso caminho sem volta para se tornar Saul Goodman. Ele tenta fazer o que é correto e sua recompensa é só problemas. E isso repetidas vezes. A lógica, então, dita que, talvez, continuar fazendo o que é errado é que seja o caminho certo. Mas veja que interessante: essa conclusão – talvez óbvia – é vendida com dificuldade por Gilligan. Ele manipula o espectador de maneira que, ao mesmo tempo que queremos que Jimmy se transforme em Saul, não queremos ver Jimmy ir embora. Jimmy é, lá no fundo (ou talvez não tão no fundo assim), uma alma boa. É como se Gilligan se sentisse feliz em nos torturar…

E é essa uma das características mais impressionantes de Better Call Saul: a habilidade que a série tem de criar sentimentos conflitantes em nós, em tornar o que esperamos e queremos ver uma gangorra de emoções que por vezes nos faz querer que o futuro que já conhecemos seja diferente. Não é sempre que isso acontece, mas o showrunner parece ser um mestre manipulador. Que continue assim!

Better Call Saul – 1X07: Bingo (EUA, 2015)
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Larysa Kondracki
Roteiro: Gennifer Hutchison
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.