Crítica | Better Call Saul – 1X08: RICO

estrelas 4

Obs: Há spoilers da série. Leia as críticas dos episódios anteriores, aqui.  

Depois de episódios mais artísticos e contemplativos, tendência que começou de verdade com o midseason Alpine Shepherd Boy, com metade do foco em Jimmy e a outra metade em Mike, continuando com Five-0, 100% (ou quase) dedicado a Mike e terminando no plasticamente perfeito Bingo, já de volta à história de Jimmy, mas agora fortemente envolvido com Mike, era de se esperar que a série ganhasse um episódio como RICO. Sei que o que escrevi pode até parecer uma preparação para um desfile de aspectos negativos, mas não é na verdade. Trata-se de mais um sólido episódio dessa incrível jornada pela qual Vince Gilligan nos leva, mas acho que estava mal-acostumado com um ritmo mais lento e menos focado na progressão direta da narrativa.

RICO (é com letras maiúsculas mesmo, pois se trata da sigla da lei contra o crime organizado nos EUA) estabelece o que parece ser a grande virada na vida e na carreira de Jimmy McGill. Inteligente, ele percebe que os velhinhos que o contratam para fazer testamentos por alguns trocados não têm dinheiro e Jimmy estabelece uma ligação ainda frágil com eventual exploração por parte dos lares/hospitais. Conversando com seu genial irmão Chuck, os dois montam uma estratégia que pode render milhões usando como ferramenta de pressão contra a rede de estabelecimentos que cuida dos idosos exatamente a lei federal que nomeia o episódio.

Vemos algo que ainda não tínhamos visto de verdade na série, apenas vislumbres aqui e ali. Jimmy realmente é um bom advogado – e temos um fantástico flashback de abertura mostrando-o ainda como estagiário no escritório de Chuck demonstrando todo seu valor ao passar na prova da Ordem – e Chuck é um monstro em sua profissão, mesmo considerando sua condição psiquiátrica. E os dois passam a trabalhar juntos, com Chuck se empolgando com o caso e Jimmy fazendo de tudo (a sequência da lixeira é uma das mais nojentas que já vi e tive o azar de estar jantando no momento em que ela passou…) para reunir as provas para montar o caso. A dinâmica entre os dois é sincera e perfeitamente crível, sem artificialidades. Tanto Bob Odenkirk quanto Michael McKean estão à vontade em seus respectivos papéis e exalam toda a excitação que seus personagens sentem.

Mas Vince Gilligan não esconde que está construindo uma bela, pomposa e particularmente alta plataforma da qual pretende jogar Jimmy. Não dizem que quanto mais alto, maior o tombo? Pois bem, esse caso baseado na lei RICO, desconfio, será o momento de virada para mostrar a Jimmy que ele precisa ser Saul e, no processo, provavelmente, de uma maneira ou de outra, isso significará que tanto seu amado irmão Chuck quanto a prestativa Kim serão cartas fora do baralho ou, talvez até, danos colaterais.

Vemos também um pouco mais da canalhice de Howard Hamlin (Patrick Fabian) tanto no passado, ao se recusar a contratar Jimmy para trabalhar no escritório que divide com Chuck e no presente, ao tratar Kim como se o que ele fez com ela em Bingo não tivesse acontecido. Há uma grande possibilidade de Howard ser um dos pivôs da queda de Jimmy, mas ao menos nós não sofreremos com o destino que seu personagem vier a ter, desde que seja algo no mínimo doloroso… (Heisenberg baixou em mim, por um momento…)

Mas, como de praxe, o episódio é excepcional no quesito fotografia. Não é o ponto alto da série – acho que esse prêmio fica com Bingo – mas o trabalho de luz e sombra na quase assombrada mansão de Chuck é um primor para se passar tanto o estado de espírito dos personagens quanto para dar pistas do futuro sombrio que provavelmente (ou deveria dizer “obviamente”?) se avizinha?

RICO é o episódio que estabelece o começo do fim da temporada. Ele é muito mais funcional e objetivo do que propriamente trabalhado até seus mínimos detalhes se compararmos com aqueles que imediatamente o precederam. Mesmo assim, o resultado final é bem acima da média do que vemos por aí.

Vince Gilligan sabe o caminho que deseja percorrer e nos leva direitinho por ele, manipulando-nos a cada curva e surpreendendo-nos a toda hora. E nós adoramos isso, não é mesmo?

Better Call Saul – 1X08: RICO (EUA, 2015)
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Colin Bucksey
Roteiro: Gordon Smith
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty
Duração: 47 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.