Crítica | Better Call Saul – 2X01: Switch

estrelas 4

Obs: Há spoilers da série. Leiam as críticas dos episódios anteriores, aqui.

Quando Jimmy se afasta do estacionamento do tribunal ao volante de seu combalido carro cantarolando Smoke on the Water em Marco, último episódio da primeira temporada de Better Call Saul, ele não é mais Jimmy e sim Saul. Em poucas palavras, foi o que escrevi em minha crítica.

Mas eu estava errado.

Jimmy sempre foi Saul Goodman e Switch deixa isso bem claro.

Quando, espelhando a abertura de Uno, vemos Jimmy em sua persona “Gene” preso na lixeira do shopping onde trabalha em momentos posteriores ao fim de Breaking Bad tendo que escolher entre esperar por ali ou chamar a polícia e decidindo por aguardar alguém abrir a porta somente para descobrimos que ele rabiscou na parede “SG esteve aqui”, fica evidente que mesmo como “Gene”, ele nunca deixou – ou deixará – de ser Saul Goodman. Esse mesmo momento ganha eco ao finalzinho de Switch, com Jimmy aceitando finalmente trabalhar no escritório de advocacia Davis & Main, recebendo todos os luxos possíveis, como sala grande, carro e escrivaninha à sua escolha. Assentado em sua nova posição, ele desobedece a única regra que lhe é imposta e desliga um interruptor (o “switch” literal do título) na parede que tem a clara indicação que deve sempre ser mantido aceso. Nada acontece. Ninguém nota. Mas é Saul Goodman agindo novamente.

Entre esses dois belos momentos que envelopam o episódio de começo de nova temporada, vemos Jimmy (ou Saul) momentos antes do final de Marco, rejeitando a proposta de emprego no Davis & Main e cantarolando a já mencionada Smoke on the Water depois de resmungar com Mike sobre a oportunidade perdida de ficar com o dinheiro que tinham em mãos. Voltamos um pouquinho para o passado para marcar essa passagem e para que Vince Gilligan possa nos mostrar que, mais uma vez, Jimmy tenta ser ele mesmo. Mas não o “ele mesmo” advogado e sim o “ele mesmo” na versão Jimmy Sabonete de outrora, em Chicago, antes de seu traiçoeiro irmão colocá-lo sob sua asa. Jimmy quer mostrar que ele pode ser quem ele quiser e tira umas férias em hotel próximo, somente para Kim segui-lo.

A relação entre os dois, uma constante da temporada inaugural, é o aspecto que ganha mais atenção no de Thomas Schnauz, o diretor e roteirista, neste episódio. Jimmy claramente quer Kim a seu lado e, para isso, precisa provar que suas habilidades permitiriam uma vida de golpes. Apesar do sucesso de sua demonstração e da noite tórrida resultante da excitação gerada, Kim é esperta o suficiente para ver através de Jimmy e entender que isso jamais daria certo. É um momento terno e de certa forma melancólico, especialmente quando, depois, vemos Jimmy de volta à sua piscina (o celular no saco plástico é um toque genial…) maquinando seus próximos passos.

Mais uma vez Bob Odenkirk prova sua latitude como ator ao transitar entre suas três personas muito facilmente, convencendo-nos todas as vezes que seu coração está lá no que faz, seja na malandragem, seja no amor que sente por Kim, seja no rancor que sente por seu irmão ou em suas habilidades como advogado brilhante. E, talvez pela primeira na série, Rhea Seehorn, que vive Kim, tenha tido espaço para trabalhar de verdade sua personagem, mesmo que em situações que constantemente têm Jimmy como o centro das atenções. Aqui, ela mostra que realmente faz um par interessante com Odenkirk – nos golpes ou no relacionamento de casal -, o que pode gerar boas situações nos próximos episódios.

Em termos narrativos, o que não funcionou foi a trama paralela envolvendo Mike Ehrmantraut e seu empregador Pryce (Mark Proksch). Na verdade, deixe-me corrigir: a trama paralela envolvendo Pryce e ponto, pois Mike logo sai do cenário, deixando o bobalhão com aquele enorme Pussy Wagon (confessem que esse nome veio à mente imediatamente!) lidando com Nacho (Michael Mando) e, depois com a polícia. Sim, fica suficientemente claro que a presença dessa narrativa menor muito provavelmente tem relação com os desdobramentos futuros da temporada que levarão Mike e Jimmy a envolverem-se mais uma vez. O problema, porém, é que todas essas sequências pareceram muito deslocadas dentro do episódio, quebrando o ritmo da narrativa do protagonista. Talvez a solução tivesse sido o encurtamento da sequência dos policiais na casa de Pryce ou o uso de elipses ou ainda os dois, mas, do jeito que ficou, a história de Pryce destacou-se demais e negativamente dentro do ritmo de Switch.

O esmero na fotografia, marca registrada dos trabalhos sob a batuta de Gilligan, é sensível por todo o episódio que faz uso de câmeras em ângulos baixos para trabalhar diálogos mais íntimos e câmeras em ângulos altos com planos gerais para salientar e agravar o vazio da vida de Jimmy. É como se a câmera fosse um outro personagem ou uma espécie de linha de comentário sobre o frágil e variável estado de espírito do protagonista.

Mesmo sendo obrigado a abordar uma história paralela que parece um corpo estranho, Switch é um mais do que um eficiente episódio de começo de nova temporada. A caminhada em direção a como Saul Goodman surgirá não poderia ser mais empolgante.

Better Call Saul – 2X01: Switch (EUA, 15 de fevereiro de 2016)
Criação:
 Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Thomas Schnauz
Roteiro: Thomas Schnauz
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch
Duração: 47 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.