Crítica | Better Call Saul – 2X02: Cobbler

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estrelas 5,0

Obs: Há spoilers da série. Leiam as críticas dos episódios anteriores, aqui.

O esmero visual de Better Call Saul é uma espécie de oásis sensorial em meio a um pântano de séries que se preocupam muito mais com a pirotecnia do que com qualidade. Vince Gilligan já era assim em Breaking Bad e Better Call Saul definitivamente continua a tendência. Cobbler é um dos episódios que muito claramente nos lembra disso.

Começando com a agora asquerosa presença de Chuck McGill, irmão mais velho de Jimmy, a fotografia de Arthur Albert nos apresenta às sombras de sua espaçosa casa enquanto ele toca piano clássico. Chuck é visto de costas em plano geral, no reflexo do espelho, por trás de objetos e através de paneis envidraçados que distorcem sua forma, nunca diretamente. Todos os elementos visuais desse início constroem o personagem para o espectador sem que sequer uma palavra seja dita. Chuck poderia ser um monstro que vive embaixo das escadas, um troll que se esconde debaixo de pontes, mas ele é muito pior do que isso: é um homem que traiu seu irmão. Albert nos faz ver o Chuck que Gilligan quer que vejamos e o uso do irritante metrônomo para a cadência musical da peça que o personagem toca só acrescenta à essa imagem de um ser que se acha mais importante do que ele realmente é, alguém que atua sempre de acordo com o manual mesmo que isso signifique esmagar seu irmão. O metrônomo nas sombras é Chuck, enquanto que as cores por enquanto mais alegres e a iluminação mais abundante significam Jimmy e seus improvisos, sua capacidade de pensar “fora da caixa”, um homem que parece estar no ponto mais alto de sua combalida carreira.

Todo esse prelúdio com Chuck nas sombras não pode significar coisa boa. A aura opressiva que a mera presença do experiente advogado gera para todos na sala de reunião, especialmente Jimmy, é palpável, séria, pesada. Na sequência em que ele entra na grande sala, vê-se novamente a maestria da fotografia que se utiliza do problema psicológico do personagem para escurecer o ambiente, para emudecer as cores, para quebrar a eloquência de Jimmy em seu momento de brilhantismo. Só o sutil apoio de Kim é que impede o pior. No entanto, o reencontro dos irmãos não deixa Jimmy sem sequelas, já que, sem hesitar, ele caminha mais uma vez para o lado das sombras quando recebe uma ligação de Mike e, imediatamente, aceita a proposta escusa do ex-policial. Será que ele aceitaria a proposta se Chuck não estivesse por ali para quebrá-lo? O casamento entre fotografia e roteiro, em Cobbler, é de um primor técnico que realmente impressiona, evitando desperdícios ao economizar nos diálogos e substituindo-os por pistas visuais.

Lembram-se do episódio anterior, Switch? Comparem a luz quase onipresente lá e a escuridão de Cobbler. Reparem que, no momento de encerramento de Switch, Jimmy, contra instruções expressas, desliga um interruptor, o “switch” do título sem que haja nenhum consequência aparente. Mas Cobbler é, metaforicamente, o resultado. Acrescentando sal à ferida, a icônica e sempre repetida cena da garagem com Jimmy e Kim está de volta, desta vez para comemorar o salto de qualidade na vida de Jimmy. Ele está na luz. Ela, no escuro. Há, no fundo, um quê de inveja ali, algo detectado por Jimmy e jocosamente confirmado por sua amante. A verdade por trás da brincadeira é desnudada com uma simples e bela tomada com o uso do chiaroscuro. Esse momento voltaria no encerramento do episódio.

Sei que estou parecendo um velho babão aqui, mas é que realmente é um grande prazer assistir Better Call Saul. Até compreendo aqueles que não tenham ainda sido fisgados pela história, mas o mero prazer sensorial de se ver os episódios já basta para retirar a série do lugar-comum de tantas outras. Mesmo assim, deixe-me abordar a narrativa em si além do círculo Chuck-Jimmy-Kim.

Paralelamente à ascensão meteórica de Jimmy – que obviamente levará a uma enorme queda em algum momento – vemos Mike lidar com o imbecil do Pryce e sua insistência em reaver sua coleção de cartões de baseball mesmo que, para isso, caminhe feliz e serelepe para uma óbvia armadilha da polícia. A raiva contida e escondida atrás de um verniz de calma e experiência na expressão facial de Jonathan Banks é absolutamente hilária. Muito sinceramente, achei que Mike iria explodir os miolos de Pryce ali mesmo dentro do Pussy Wagon, nem que fosse em um daqueles delírios momentâneos da imaginação. A solução do roteiro para o impasse foi o lado suave e engraçado da narrativa pesada envolvendo Chuck e Jimmy e o contraste foi muito bem vindo. Se, de um lado, temos a escuridão, do outro ganhamos muita luz e muitas cores. A convergência narrativa entre as duas histórias foi natural e acabou renovando a parceria entre Jimmy e Mike, parceria essa que, sabemos, será essencial para a construção final de Saul Goodman (ou seria a “destruição final de Jimmy McGill”?.

Aliás, o que foi aquela história que Jimmy conta para livrar Pryce da cadeia, hein? Assim como Kim, nem que me dessem um milhão de anos eu conseguiria imaginar um álibi tão estapafúrdio e surreal como o fetiche de sentar em tortas com todas aquelas detalhadas explicações. Impossível não gargalhar naquele momento em que Bob Odenkirk brilha na pele da versão mais sacana de seu personagem. Mas a graça logo vai para o ralo quando, contando vantagem para Kim, ela percebe que Jimmy (ou seria Saul?) vai muito além de alguém que dá golpes em estranhos em bares. Ao forjar provas, mesmo que em uma situação aparentemente boba, ele desapontou Kim e mostrou o seu “eu” verdadeiro. A sombra novamente vem para quebrar a alegria momentânea do personagem. No final das contas, talvez não seja possível imputar a Chuck a culpa exclusiva pela queda de Jimmy.

Cobbler é um primor de episódio que mostra que televisão realmente inteligente ainda existe. A segunda temporada de Better Call Saul já mostra a que veio, ainda que o lado negativo seja nunca mais conseguir ver uma torta da mesma maneira novamente.

Better Call Saul – 2X02: Cobbler (EUA, 22 de fevereiro de 2016)
Criação:
 Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Terry McDonough
Roteiro: Gennifer Hutchison
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.