Crítica | Better Call Saul – 2X03: Amarillo

estrelas 4

Obs: Há spoilers da série. Leiam as críticas dos episódios anteriores, aqui.

Quando acabei de assistir Amarillo, minha reação imediata foi algo como “ok, bacana, mas nada excepcional”. Mas as horas foram passando e o episódio voltava à minha cabeça e eu pensava, também, nas demais séries de TV que venho assistindo. Agora, escrevendo a crítica e lembrando de minha reação original, só tenho uma coisa a dizer a mim mesmo: “só bacana? Nada de excepcional? Deixa de ser mané!”.

E é a mais pura verdade. Amarillo não está no mesmo nível de Cobbler, mas é natural. O episódio anterior foi absolutamente fantástico e sustentar esse nível de qualidade seguidamente é algo raro, raríssimo na televisão. Amarillo não tem o mesmo apuro estético de Cobbler, mas é um capítulo fascinante na saga de Jimmy McGill, com um prólogo absolutamente inesquecível, com um belo dolly shot caminhando lateralmente pela bandeira texana pintada na fachada de um prédio, somente para revelar Jimmy como um típico cowboy texano, de roupa branca e gravata de corda com fecho de metal em formato de tatu. Ele levanta a cabeça e vai à ação, depois de subornar o motorista do ônibus da filial local do asilo Sandpiper, com o objetivo de assediar potenciais clientes. Sua lábia impressionante, claro, transforma todos os passageiros do ônibus em clientes do escritório Davis & Main na ação coletiva contra o Sandpiper.

Esse momento de triunfo de Jimmy é amplificado logo em seguida quando, em reunião conjunta entre os dois escritórios que lideram o caso, aprendemos que ele conseguira angariar 200 novos clientes no último mês, feito impressionante e que recebe os louros de todos. Ou quase todos. Chuck McGill está presente novamente como a pretensa balança moral de Jimmy. Ele desconfia das ações do irmão e o confronta, minando a vitória, mesmo considerando que Jimmy não dá o braço a torcer e mantém sua história.

Há um evidente dilema moral aqui e ele pode ser resumido a uma pergunta: quem está certo? Ou talvez melhor ainda: quem está menos errado? Nós sabemos que Chuck traiu friamente o irmão, mas também sabemos que Jimmy “Sabonete”, a persona anterior – mas ainda presente – de Jimmy McGill, era um malandro que não tinha qualquer escrúpulo. O Jimmy advogado, conforme a ação no ônibus cheio de idosos deixa claro, é alguém que usa sua alma contraventora para dobrar a lei e usá-la a seu favor, alguém que sabe que o que faz está errado, mas que fazer dessa forma é algo instintivo, natural, que é parte de seu ser. E a moralidade dessa ação específica de Jimmy é ainda mais fascinante, pois sabemos muito claramente que, no final das contas, o que ele fez foi para ajudar idosos a recuperar dinheiro roubado pela própria instituição que cuida deles. Será que nós faríamos a mesma coisa se estivéssemos nos sapatos de Jimmy? Reparem como o roteiro trabalha a narrativa no fio da navalha, tornando difícil uma decisão ou uma tomada definitiva de partido. Do lado de Chuck, vemos um irmão mais velho amargurado, com dificuldade em receber seu irmão mais novo de peito aberto e acolhê-lo sob seu manto de respeitabilidade. Seu receio é tanto que ele já traiu Jimmy de maneira imperdoável na temporada anterior e continua em constante vigilância, não só por razões nobres e altruístas (se é que elas existem), mas muito mais por questões egoístas, para que o irmão mais novo não manche sua imagem.

Quando Kim confronta o namorado mais uma vez, logo depois de brigar com ele em razão da fabricação de provas para livrar Pryce de uma investigação, como vimos em Cobbler, ela afirma categoricamente que ele consegue fazer o trabalho, mas que ele precisa fazer corretamente. Esse é o nó da questão. O correto para Jimmy não necessariamente é o correto para os demais mortais. Jimmy tem um compasso moral que aponta para uma direção diferente. Suas intenções são nobres, mas ele está disposto a pegar atalhos para atingir seus objetivos que, no caso específico, são nobilíssimos. É o velho “o fim justifica os meios” em plena ação. E simplesmente descartar as atitudes de Jimmy como imorais, ofensivas ou simplesmente erradas, criminosas, não é tão fácil assim. O mesmo vale para o anúncio que ele grava e coloca no  ar sem autorização dos sócios de seus escritório, em claro ato premeditado de desobediência, algo que já havia sido antecipado pelo momento do “interruptor” em Switch. Há uma ambiguidade inerente ao personagem que continua sendo muito bem explorado pelos roteiros da série.

No lado de Mike, outro gancho narrativo parece começar, de maneira a mantê-lo relevante na história de Jimmy. Agora, irrequieto por problemas que sua nora diz passar às noites com tiroteios em sua rua, Mike começa a aceitar todo tipo de bico, o que nos leva ao cliffhanger do episódio, com Nacho oferecendo um serviço a ele.  A necessidade de manter a narrativa envolvendo Mike acesa não funcionou para mim, porém. Primeiro, a história foi abordada de maneira tangencial, quase irrelevante dentro da narrativa maior das falcatruas de Jimmy. Depois, suas histórias parecem seguir mini-arcos desvinculados de Jimmy, mas que usam Jimmy aqui e ali para sacramentar a hesitante amizade entre os dois. Creio, porém, que isso já tenha sido muito bem estabelecido na primeira temporada e essa reiteração, aqui, tem sido forçada e, diria até, desnecessária.

Claro, sem dúvida é um prazer ver Jonathan Banks reviver seu personagem, mas creio que ele perderá a importância se a convergência das histórias não acontecer de maneira mais efetiva como foi na temporada inaugural. E, se isso não ocorrer, a narrativa como um todo tem o potencial de perder a coesão e, então, diluir-se em uma estrutura episódica equivocada. Ainda é cedo para realmente chamar isso de um problema, mas detecto dificuldades por parte de Gilligan em tratar de Jimmy e de Mike dentro de um contexto orgânico só. Mas Gilligan é Gilligan e ele nunca deu a seus espectadores nenhuma razão para duvidar de sua capacidade de fazer uma deliciosa limonada do proverbial limão.

Amarillo, muito diferente de minha reação inicial, é um episódio sólido na série, que estabelece momentos importantes no caminho sombrio que Jimmy tem a seguir. Resta esperar que a saga de Mike seja igualmente relevante.

Better Call Saul – 2X03: Amarillo (EUA, 29 de fevereiro de 2016)
Criação:
 Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Scott Winant
Roteiro: Jonathan Glatzer
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.