Crítica | Better Call Saul – 2X04: Gloves Off

estrelas 4,5

Obs: Há spoilers da série. Leiam as críticas dos episódios anteriores, aqui.

Eu poderia repetir meus elogios rasgados à fotografia, design de produção e atuações desta série. Eu poderia colocar Vince Gilligan novamente em um pedestal (do qual, pelo menos no meu livro, ele nunca saiu). Eu poderia e farei, pois é inevitável, mas quero, primeiro, começar com uma constatação muito simples, óbvia mesmo: Better Call Saul é uma daquelas séries que, a cada episódio, nos traz elementos para pensar, discutir, conversar. Ela exige maturação e maturidade como poucas por aí, em praticamente todos os níveis, seja apenas olhando a superfície ou mergulhando profundamente na mente dos personagens.

Quem leu minha crítica do episódio anterior lembrará que fiquei desconfortável com a desconexão da nova história envolvendo Mike em relação à de Jimmy. Reparem o que Gilligan fez então em “resposta”, ou melhor, o que ele não fez. No lugar de simples e facilmente caminhar pela estrada mais viajada e ligar os pontos, o roteiro de Gordon Smith, que volta a série depois de escrever dois episódios da primeira temporada, cria uma oposição antitética entre Jimmy e Mike, usando a história do ex-policial para comentar a do advogado malandro. E em nenhum momento as narrativas sequer tangenciam para mastigar essa relação para o espectador. Muito ao contrário, a separação das histórias, na superfície, continua clara, mas, no subtexto, o contraste é tão belo quanto a luz natural banhando a penumbra fantasmagórica da casa de Chuck.

Mike, ao aceitar trabalhar para Nacho, poderia simplesmente fazer o que seu mandante quer, que é matar Tuco, seu parceiro de crime de longa data. Mike, mais experiente, sabe que o plano de Nacho é cheio de furos e cria o seu próprio, envolvendo o assassinato a longa distância de Tuco. Limpo, rápido, indetectável e muito lucrativo. Mike sabe como usar a lei em seu favor, sabe como manobrar a ação policial para o seu lado, sabe pensar estrategicamente. O assassinato seria tranquilo. No entanto, no lugar de simplesmente executar o plano, Mike muda de ideia e cria outro que lhe dará menos dinheiro e muito mais trabalho, além de muita dor. E assim a coisa vai, com um assassino em tese frio e calculista usando o bom senso, usando sua calma para fazer algo ainda ilegal, mas de maneira muito mais, digamos, suave e, de certa forma, aceitável. Trata-se de um homem em harmonia com quem exatamente ele é.

Comparem então a história de Mike com a resolução da história do anúncio desautorizado que Jimmy colocou no ar em Amarillo. Com a melhor das intenções do mundo, Jimmy partiu para transgredir regras de convivência e de bom senso – não a lei, que fique claro! – ameaçando seu emprego e, pior, o de sua namorada Kim, que sempre o defendeu com unhas e dentes e o avisou muito claramente que qualquer erro dessa natureza por parte de Jimmy refletiria diretamente nela. Jimmy sabe que o que está fazendo é errado, mas, como seu irmão deixa muito claro no intensamente fenomenal diálogo entre os dois na casa de Chuck, Jimmy é como um viciado que não reconhece seu vício. Se os fins são alcançados, os meios não interessam para Jimmy e, aqui, os meios podem não ser ilegais, mas Chuck e os espectadores sabem que o futuro Saul Goodman é capaz sim de transgredir também a lei para obter o resultado que almeja. É o exato oposto de Mike. Jimmy sabe o caminho correto, mas, no lugar de desbravá-lo, prefere, escolhe conscientemente (ou não) o caminho sinuoso, o caminho que lhe trará uma espécie de êxtase pessoal momentâneo (exatamente como as drogas) e muita dor de cabeça a médio e longo prazo. A tentação de desligar o interruptor com clara indicação de que não pode ser desligado (lembram-se de Switch?) é mais forte que ele e, como Jimmy não tem a clareza mental de Mike, não consegue sequer discernir o certo do errado.

Mas a questão não para por aí. Não esqueçamos de Chuck. O irmão mais velho de Jimmy é outro que parece um cão de guarda em cima do irmão e de tudo que ele faz. Ele se sacrifica para estar presente em seu escritório mesmo sabendo que sofrerá à noite em razão de seu distúrbio psicológico e a única razão para isso é manter vigilância sobre seu irmão mais novo. Jimmy é um viciado, mas a terapia representada pela presença massacrante de Chuck não parece ser a melhor solução e talvez até agrave o problema pela necessidade que os irmãos aparentemente têm de competir um com o outro, mas por razões diferentes: o mais velho, egoísta, querendo derrubar o mais novo para que sua própria reputação não seja manchada e o mais novo, arrogante, querendo mostrar ao mais velho, custe o que custar, que é dono de seu próprio nariz. O conflito que emerge disto, representado pelo já mencionado diálogo dos dois na penumbra matinal da casa de Chuck, é absolutamente memorável, mostrando não só um roteiro que tem evidente equilíbrio expositivo como atuações de cair o queixo.

Há, sem dúvida alguma, muito o que ponderar sobre este episódio. O certo e o errado ganham contornos interessantíssimos que permitem raciocínios variados a favor ou contra cada um dos três personagens focais. No entanto, como prometi logo no começo, não pararei apenas aí, ainda que considere os comentários acima suficientes para demonstrar o poder de Gilligan sobre seu produto.

A beleza estética da série faz-se novamente presente em Gloves Off, com uma fotografia assustadora não só na casa de Chuck, como especialmente no HHM depois de fechado. A assepsia e a iluminação do lobby sendo encerado contrasta fortemente com a escuridão e o silêncio do interior das salas por onde Jimmy passa, culminando com uma metafórica descida ao inferno, com fotografia estabelecendo o estado de espírito tanto do protagonista quanto de uma Kim que nem sequer fora mostrada depois da reunião com Howard e Chuck. E, quando Jimmy entra na sala onde Kim está, o design de produção e a profundidade de campo na enorme e assustadora sala de checagem de documentos deslumbra e oprime como se o espectador estivesse entrando no castelo do Drácula. Se existe uma série atualmente em andamento que merece análise fotograma a fotograma como o saudoso Roger Ebert fazia com alguns filmes, esta é Better Call Saul.

Gloves Off é mais um excelente episódio na história da ascensão e queda de Jimmy McGill – e ascensão futura de Saul Goodman – que deixará muitos espectadores pensando nos personagens e seus atos muitas horas após seu término. Vince Gilligan mostra, repetidas vezes, que domina como ninguém a arte de contar uma história.

Better Call Saul – 2X04: Gloves Off (EUA, 07 de março de 2016)
Criação:
 Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Adam Bernstein
Roteiro: Gordon Smith
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.