Crítica | Better Call Saul – 2X05: Rebecca

estrelas 3,5

Obs: Há spoilers da série. Leiam as críticas dos episódios anteriores, aqui.

Sei que provavelmente todos os fãs de Breaking Bad ficaram em polvorosa quando Hector Salamanca ou,  melhor dizendo, Tio em sua versão “pré-cadeira de rodas com sineta” aparece ao final para convencer Mike a alterar seu depoimento sobre sua briga com Tuco. E, realmente, ver Mark Margolis novamente, desta vez falante e caminhante, foi um grande prazer, especialmente contracenando com Jonathan Banks e deixando em dúvidas se o estado em que seu personagem ficará no futuro não teria relação com o ex-policial.

No entanto, essa sequência perdeu-se, em meu pensamento, quando Rebecca (Ann Cusack) não voltou para encerrar o episódio em outro flashback que rimasse com o de abertura. A esposa de Chuck, afinal de contas, batiza o capítulo e ganha ótimo espaço na sequência pré-créditos, em que aprendemos que ela é (era?) violinista, que Jimmy não foi ao casamento dos dois e que Chuck parece nunca ter se sentido à vontade com o irmão mais novo ou mesmo com pessoas que simpatizassem com ele. Teria sido Jimmy a razão de eventual separação de Rebecca e Chuck? Ou será que ela faleceu? Como e quando, afinal de contas, Chuck começou a ter a enfermidade psiquiátrica que tem? Também teria relação com Jimmy?

Vince Gilligan não dá ponto sem nó, todos sabemos disso, mas, apesar da enorme quantidade de perguntas que aqueles três minutos iniciais trouxeram e que permaneceram no ar, completamente sem resposta, pareceu haver um descompasso, uma estranheza no ritmo do episódio. Foi proposital? Creio piamente que sim. Mas funcionou? Acho que não. É possível que eu reveja essa posição mais para a frente na série, mas Rebecca parece um quebra-cabeças em que a peça central se perdeu no meio do caminho.

Mesmo com esse problema que considero importante (e quem nem pode ser um problema, se visto a longo prazo), Rebecca tem seus momentos excepcionais e o foco em Kim e seu inferno astral causado por Jimmy reúne grande parte deles. Rhea Seehorn tem, em Rebecca, seu lugar ao sol ou, melhor dizendo, à sombra. Enterrada na masmorra do HHM conferindo documentos por horas e horas a fio, Kim está desesperada, mas tenta manter sua fleuma, sua calma para ter alguma chance de reconstruir sua carreira por meios lícitos e não usando atalhos como seu namorada Jimmy que continua servindo como aquele diabinho no ombro de desenhos animados.

São particularmente duas sequências brilhantes com Kim. Apesar de cronologicamente ser a segunda a acontecer, analisarei primeiro a mais simples, mas esteticamente perfeita sequência, em um plano médio com câmera parada e posicionada na altura dos personagens sentados, lida com a conversa entre ela e Chuck sobre as chances dela no escritório. No lugar de uma resposta direta, ela ouve uma terrível história sobre o passado de Jimmy, que teria furtado dinheiro do pai, o que potencialmente agravou seus problemas financeiros, a perda de seu negócio e, em seguida, seu falecimento. Podemos confiar inteiramente na narrativa de Chuck? Tenho para mim que não, pois sempre há nuances em tudo e Chuck não é das pessoas mais capazes de olhar várias direções ao mesmo tempo. Para ele, tudo é “pão pão, queijo queijo”. Mas, para Kim, a informação é recebida com um misto de “já sabia” com receio, com quase asco de seu namorado. Ela ainda claramente gosta de Jimmy e seu desapontamento cada vez maior ganha enorme relevo nesta breve, mas belíssima sequência.

A segunda sequência com Kim, na verdade, é uma sucessão de sequências com a mesma temática: ela usando todos os seus contatos para conseguir algum cliente novo para a HHM de forma a sair do buraco literal em que se encontra. Com cortes rápidos, vemos a personagem começar de forma enérgica e, aos poucos, com o amontoado de negativas (e cantadas fora de propósito), perder o elã e as esperanças, somente para, quando já estava admitindo fracasso, receber uma ligação e um fio de luz pela fresta da janela. A conversa com o potencial cliente, na garagem, é particularmente interessante, com Kim quase abaixo de um sinal escrito “out” ou “fora”, que dá sentido duplo à situação: ela pode estar “fora” de sua situação tenebrosa ou “fora” do HHM. A negativa de Howard em colocá-la no caso, pode levá-la a alguma atitude impensada, como, por exemplo, seguir em frente com a ação trabalhista proposta e minutada por Jimmy.

Falando em Jimmy, ele é apresentado a Erin (Jessie Ennis), advogada mais júnior que se torna sua babá. O futuro Saul não pode sequer ir ao banheiro sem que ela esteja por perto, o que gera os momentos de alívio cômico deste pesado episódio. Aliás, note que Jimmy, aqui, é, apenas, um coadjuvante em sua própria série, demonstrando maturidade e confiança de Gilligan em seu ótimo elenco de suporte.

Com tanta coisa interessante que aconteceu em Rebecca, é até razoavelmente possível esquecer da própria Rebecca. Mas, mesmo com Hector Salamanca como a cereja do bolo, ainda considerei que Gilligan errou na mão. Espero muito em breve, em uma próxima crítica, escrever o correspondente a um facepalm narrativo, deixando claro minha insignificância e o quão pouco visionário eu fui diante da maestria do showrunner.

Better Call Saul – 2X05: Rebecca (EUA, 14 de março de 2016)
Criação:
 Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: John Shiban
Roteiro: Ann Cherkis
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.