Crítica | Better Call Saul – 2X06: Bali Ha’i

estrelas 3,5

Obs: Há spoilers da série. Leiam as críticas dos episódios anteriores, aqui.

Tenho grande dificuldade de falar mal de alguma coisa que Vince Gilligan toca. E calma, isso aqui não é um prelúdio para prepará-los para uma conclusão do tipo “Bali Ha’i é muito ruim”, pois o episódio está absurdamente longe de ser fraco, que dirá ruim. O que quero dizer é que me parece que a história da transformação de Jimmy em Saul não tem pernas suficientes para ser o centro das atenções sempre, o que pode ser preocupante, já que esse é o segundo episódio em que Jimmy se torna coadjuvante em sua própria série.

Novamente, o centro da atenções fica em Kim e sua luta para retomar o caminho de crescimento no HHM, depois de desapontar Howard indiretamente pela besteira que Jimmy fizera colocando no ar um anúncio para atrair mais clientes para o caso Sandpiper. Nós a vemos sozinha no tribunal, tentando impedir que os advogados da Sandpiper tenham acesso ao histórico médico dos idosos que fazem parte da ação coletiva. Sua aguerrida defesa chama a atenção do sócio do escritório rival, que oferece emprego a ela, com chance de ser sócia.

Vendo-se valorizada por um rival e sendo ainda execrada por Howard – o que é evidenciado em um magnífico plano-sequência sem cortes e quase sem diálogos à la Kubrick em Glória Feita de Sangue – seu ego infla e ela se torna segura ao ponto de ignorar ordem do chefe e de embarcar em outra aventura golpista com Jimmy, que funciona como uma entrega de Kim a um vício escondido. Rhea Seehorn continua excelente com o espaço que Gilligan está dando a ela, realmente agarrando a chance de ser momentaneamente a estrela de uma grande série.

Essa linha narrativa de Kim mal ou bem casa diretamente com a situação de Jimmy, ainda vigiado pela “cadela de guarda” Erin, em uma breve e hilária sequência na sala dele, logo antes de Kim ligar. Jimmy está novamente fora de seu ambiente e, no pouco em que aparece nesse capítulo, ele demonstra extremo desconforto com sua confortável situação, em uma daquelas ironias que fazem de Better Call Saul a série que é. Confesso que o roteiro, aqui, trabalha um tanto quanto de forma exagerada na metáfora da caneca de “segundo melhor advogado” que Kim deu a Jimmy e que não se encaixa na Mercedes que o Davis & Main emprestou a ele, mas sem dúvida ela funciona e alguma hora, mesmo de que de maneira torta, ela tinha que entrar no console.

O grande problema é mesmo a narrativa paralela de Mike. E não, a questão não é a história em si, que fica cada vez mais interessante, mas sim o quanto ela tem ocupado espaço de tela e tornando-se mais relevante do que o arco de evolução de Jimmy sem que as histórias caminhem para algum tipo de caminho convergente (sim, provavelmente Mike precisará de um advogado agora e será o Jimmy, mas vocês entenderam o que quis dizer, não?). A presença mais uma vez de Tio e a sensacional aparição dos “primos gêmeos”, com direito à ponteira de caveira na bota, são bem vindas e é exatamente por isso que, de repente, o drama de Mike passou a ser mais interessante do que o de Jimmy, levando à conclusão que cheguei logo no começo: está faltando algo ali, alguma coisa que realmente traga o protagonista se não para o centro da narrativa, pelo menos para mais próximo, pois, do jeito que está, Bob Odenkirk tornou-se um coadjuvante em seu próprio show.

Mas os pequenos detalhes é que tiram Better Call Saul do lugar-comum, mesmo considerando-se seus problemas. E nem falo na incrivelmente bem dirigida sequência em que Mike volta para casa e repara que alguém está esperando por ele lá dentro. A fotografia escurecida, a câmera que segue o personagem e só nos permite ver o que ele vê, toda a disposição do cenário é de fazer inveja aos mais bem estruturados filmes de suspense por aí. No entanto, quando digo “pequenos detalhes”, falo realmente de coisas mínimas. Querem um exemplo?

A sequência em que Mike vai conversar com Tio coloca os dois frente a frente sentados, com uma mesa entre eles. Reparem a composição da cena. Mike, Tio, os primos, Nacho e o outro capanga. Cada uma aparece em sua integralidade – ou quase no caso do capanga mais à direita – com uma câmera quase grande angular baixa com total profundidade de cena (ou foco profundo) que deixa tudo nítido e podemos acompanhar a negociação em vários quadrantes, observando a reação de cada “jogador” no tabuleiro. Com exceção de Fargo, não lembro de mais nenhuma série hoje em andamento que tenha esse tipo de cuidado em uma sequência que é tão, digamos, trivial.

Better Call Saul está, tecnicamente, chegando ao fim. São mais quatro episódios para Gilligan criar a “colisão” narrativa que sei que ele criará. Mas confesso que estou ficando angustiado, ainda que a temporada continue sendo o colírio televisivo que sempre é…

Better Call Saul – 2X06: Bali Ha’i (EUA, 21 de março de 2016)
Criação:
 Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Michael Slovis
Roteiro: Gennifer Hutchison
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.