Crítica | Better Call Saul – 2X07: Inflatable

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers da série. Leiam as críticas dos episódios anteriores, aqui.

Quando Vince Gilligan erra, ele cria episódios que são muito superiores à media do mercado. Quando ele acerta, cria obras-primas. Inflatable está nessa segunda categoria. E isso depois de dois episódios seguidos estacionados na primeira.

Voltando as atenções a Jimmy, o capítulo começa com um prólogo em flashback que nos leva a um período inédito na vida do protagonista: sua infância. Já havíamos ouvido de Chuck, em Rebecca, que Jimmy havia sido pelo menos em parte responsável pela falência e depois morte de seu pai, ao furtar dinheiro de sua lojinha de conveniência pela qual ele tanto havia lutado. Mas, conhecendo Chuck como conhecemos, sua narração de fatos passados pode ser tendenciosa e unilateral, tendo em vista sua visão sobre seu irmão. Portanto, há um quê de narrador não confiável em tudo o que ele diz, mas não vemos.

Com a volta ao passado, que faz referência direta à história que Chuck conta para Kim, finalmente podemos entender a gênese do que aconteceu e, também, a gênese do próprio Jimmy Sabonete e, futuramente, de Saul Goodman. A sequência, que tem filtros esmaecidos e paleta de cores própria para marcar o diferente período em que se passa sem que nem precisemos saber que aquele garotinho é Jimmy (pelo ator mirim Blake Bertrand), nos mostra que seu pai (vivido por Raphael Sbarge) era um homem bondoso ao extremo, inocente até demais e, por isso, mesmo, alvo fácil de espertalhões querendo aproveitar-se. Um desses aproveitadores (interpretado por Stephen Snedden) entra na loja e conta uma história cheia de lágrimas e sacrifícios que, sob o olhar de Jimmy – a câmera nos mantêm em seu ponto de vista quase o tempo todo – é obviamente uma mentira, mas mesmo quando avisa ao pai, ele prefere acreditar no estranho.

A sequência, apesar de não ser muito longa, é eficiente ao nos fazer torcer por Jimmy, ao nos colocar do lado do garoto ainda em formação e contra o que nós queremos que seja uma mentira de Chuck. A direção de Colin Bucksey e o roteiro cuidadoso de Gordon Smith nos manipulam nesse caminho, somente para, mais uma vez, levarmos uma rasteira. Ali, diante de nossos olhos, Jimmy decide tornar-se o lobo, já que a ovelha de seu pai não tem mais jeito. Chuck, então, estava realmente certo e nossa esperança vai pelo ralo.

A escolha feita por Jimmy nesse prólogo magistral dá o tom de Inflatable. Kim escolhe sair do HHM e aceitar o emprego no escritório rival. Jimmy escolhe sair do Davis & Main e, ao não conseguir de maneira fácil, força sua demissão. Jimmy escolhe oferecer sociedade para Kim que, por sua vez, escolhe trabalhar sob o mesmo teto, mas separadamente. E toda a progressão narrativa, que parece complexa e realmente é, se dá de maneira orgânica, tranquila, sem quaisquer solavancos, demonstrando como um roteiro bem azeitado e uma montagem eficiente, além de atuações do mais alto gabarito fazem diferença em uma obra audiovisual.

São pouco menos de 45 minutos em que praticamente todo o status quo da temporada muda. A conexão da narrativa de Mike vs Tio finalmente tangencia com a de Jimmy, ainda que de maneira previsível, mas lógica e os grandes escritórios de advocacia parecem sair completamente da jogada, ainda que particularmente desconfie que Howard Hamlin ainda criará problemas para Kim.

Aliás, toda as sequências que mostram Jimmy arquitetando sua demissão são antológicas. Desde o momento em que ele chama Omar (Omar Maskati) para sua sala para ditar sua carta de demissão até quando ele é finalmente demitido por Clifford Main (Ed Begley, Jr.), testemunhamos um trabalho excepcional de direção que faz da famosa e batida estrutura de “montagem” uma aula de cinema (ou televisão…). De quebra, descobrimos de onde vem o estilo espalhafatoso do futuro Saul Goodman, em mais uma tirada genial de Gilligan. O “inflável” do título é um daqueles bonecos de posto de gasolina que ficam se balançando loucamente. Vestido com terno, camisa e gravatas coloridas e visto pela janela do carro de Jimmy, a inspiração gera uma transformação momentânea no personagem, que, depois de fazer algumas compras, torna-se, diante de nossos olhos, no personagem que aprendemos a adorar em Breaking Bad e que ansiamos por ver em Better Call Saul, mas ao mesmo tempo não queremos ver, para que a série se mantenha no ar por mais tempo. Mas o melhor é que, ao mesmo tempo que nos divertimos com o tom de comédia, percebemos um pano de fundo melancólico algo que fica muito claro no diálogo entre Clifford e Jimmy.

Da mesma forma, a melancolia se faz presente quando Kim, ao receber a proposta de Jimmy na imensa e vazia sala de reunião do HHM, confronta Jimmy sobre que tipo de advogado ele seria em eventual sociedade. O rosto de Bob Odenkirk trabalha excepcionalmente a resposta, primeiro afirmando que ele será completamente honesto com um rosto envergonhado, que transmite muito, com muito pouco, somente para, com voz sussurrada e quebrada, ele finalmente admitir que não, não será honesto, que será ele mesmo. Jimmy joga fora, nesse momento, a pele de cordeiro que vinha vestindo por força das convenções da sociedade e deixa claro que o caminho agora a ser trilhado é dele, e somente dele. É, possivelmente, o grande ponto de virada de toda a série. Saul está próximo, ali na esquina. E Kim, então, triste, mas de certa forma aliviada com a honestidade do namorado, recusa a sociedade, somente para depois sugerir, já no micro-escritório/apartamento de Jimmy, que eles dividam os custos, mas trabalhem separadamente.

Faltando apenas três episódios para o encerramento da temporada, Gilligan provavelmente lidará com as consequências dessas escolhas. Será que Jimmy, de volta ao seu escritório de fundo de salão de beleza (mas agora com uma mesa de cocobolo!) terá futuro? Será que Jimmy e Kim, juntos, conseguirão dividir o mesmo teto? E onde Mike se encaixa nisso tudo? Ao mesmo tempo que quero respostas, também hesito em tê-las rapidamente somente para protrair no tempo essas maravilhas televisivas criadas pelo showrunner.

Better Call Saul – 2X07: Inflatable (EUA, 28 de março de 2016)
Criação:
 Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Colin Bucksey
Roteiro: Gordon Smith
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.