Crítica | Better Call Saul – 2X08: Fifi

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estrelas 4,5

Obs: Há spoilers da série. Leiam as críticas dos episódios anteriores, aqui.

Depois de uma abertura com um sofisticado e belo plano sequência sem cortes de quase cinco minutos que segue um caminhão frigorífico cruzando a fronteira entre o México e os EUA, Fifi realmente começa e tem a ingrata tarefa de ser o episódio posterior ao magnífico Inflatable. O capítulo também marca o começo do fim da temporada, ao impulsionar dinamicamente a narrativa de Jimmy + Kim de um lado e de Mike vs Tio de outro.

O apuro técnico-visual que Vince Gilligan apresenta em Better Call Saul – e em Breaking Bad antes dela – faz-se novamente presente de maneira especialmente marcante, não só com o referido plano-sequência, que impressionantemente combina desde tomadas aéreas (provavelmente com grua telescópica) até câmera em steadycam sem que haja qualquer solução de continuidade, mas também com as sensacionais sequências em plano geral com Kim e Jimmy que ressaltam uma incômoda solidão entre eles e deles em relação ao “resto do mundo”. A composição espacial de cada sequência dessas carrega o mesmo nível de detalhes que testemunhamos em, por exemplo, Bali Ha’i, quando Mike vai conversar com Tio depois de sua neta ser ameaçada pelos gêmeos sinistros. Em outras palavras, não há nenhuma novidade propriamente dita aqui, apenas a confirmação da genialidade e detalhismo do showrunner que mantém sua assinatura sempre presente e torna a experiência de assistir à série completa e incrivelmente prazerosa.

No entanto, do lado do roteiro, dessa vez escrito por Thomas Schnauz, voltando a série depois de escrever e dirigir Switch, o episódio de abertura da segunda temporada, algo que tem sido uma constante incômoda na série aparece mais uma vez. Já comentei em críticas anteriores que existe uma certa desconexão entre a narrativa de Jimmy e Kim em relação à de Mike e ela se faz presente novamente, mas de maneira um pouco diferente. Enquanto em outros momentos uma história quase dava lugar à outra, em Fifi o que vemos é uma espécie de concorrência pela atenção do espectador, como se Jimmy e Mike estivessem estrelando séries diferentes que vão ao ar no mesmo horário. E isso é bom e ruim ao mesmo tempo.

O lado bom é que as duas histórias são cativantes. Jimmy e Kim solidificando suas escolhas de caminharem juntos, mas separados, é momento-chave na série, deixando claro que a coisa ficará feia entre os dois muito proximamente. Mike e sua vingança contra Tio, que ameaçou sua querida netinha, é também saborosa, pois sabemos do que Mike é capaz e também como Tio nos foi apresentado em Breaking Bad – permitindo a conclusão (baseada em “achismo” apenas, admito) que Mike será o responsável pelo estado do traficante de drogas no futuro -, o que nos faz ansiar pelo desfecho. Mas são narrativas segregadas e que não exatamente rimam tematicamente como rimaram de forma antitética no excelente Gloves Off. Com isso, a sensação de “concorrência” que descrevi acima veio à tona, dividindo-me ao meio e me fazendo concluir que, mesmo que aconteça um tangenciamento narrativo mais para a frente, ele será potencialmente apenas algo de conveniência, como no começo de Inflatable em que Jimmy se junta a Mike apenas para permitir que ele mude seu depoimento perante a promotoria pública.

Se estou sendo chato e detalhista é porque essa série merece um grau de escrutínio maior do que outras que nos são apresentadas aos borbotões por aí. Better Call Saul pede uma análise dessa natureza, assim como as recentes Fargo e True Detective (e algumas poucas outras, claro). Vince Gilligan cria sentimentos conflitantes, mas nenhum deles é divisivo entre algo ser bom ou ruim. O showrunner tem um extraordinário domínio sobre seu ofício, ao ponto de tudo que ele ter feito até agora ser “bom” ou “menos bom” ou, talvez mais claramente, “sensacional” e “menos do que sensacional”. Portanto, esse abismo entre histórias com uma conexão no máximo apenas eventual é certamente um ponto fraco na série que é reapresentado aqui, mesmo que cada um dos lados desse abismo seja fascinante de seu modo.

E esse fascínio está nos pequenos detalhes.

Do lado Jimmy-Kim, há não só a clara separação de modos de agir entre os dois, algo sabido e reconhecido por todos, inclusive pelos personagens, como, também, a forma como cada um interage com terceiros. Vale especial destaque para a breve conversa finalista entre Kim e Howard, em que ela entrega sua carta de demissão. Howard, em sua arrogância, toma a postura inicial do “já sabia”, mas se surpreende quando Kim revela sua verdadeira estratégia. Patrick Fabian, que nunca teve real espaço para trabalhar seu personagem, dá um show nesse momento em que sua casca engomada cai por alguns segundos. Ele mostra realmente se importar por Kim e, mais do que isso, revela, com todas as letras – seu sorriso desaparece e ele ganha um olhar saudoso, de uma época que não volta mais – que ele não está exatamente feliz onde está e com sua carreira. Claro, trata-se de uma postura passageira, pois seu primeiro ato, como previsto por Jimmy, é ligar para Mesa Verde de forma a evitar que Kim levasse o cliente, mas, nesses curtos segundos em que podemos olhar para dentro do personagem, ele mostra quem ele realmente é.

Chuck, por outro lado, revela-se, definitivamente, como o grande vilão por trás da “queda” de Jimmy McGill e sua transformação em Saul Goodman. Se alguém antes tinha algum tipo de carinho pelo personagem (Michael McKean novamente mostra que ator incrível que é) por agir com retitude moral inabalável, certamente teve sua convicção no mínimo abalada com sua atitude anti-Jimmy. Pela primeira vez lutando de verdade contra seu problema psicológico, ele faz das tripas coração para reverter a decisão do Mesa Verde em ir com Kim, como seu único cliente. E não porque o HHM precise do cliente, mas sim porque, se Kim levá-lo, haverá benefício indireto para Jimmy. Por isso é que, quando Jimmy se dá ao trabalho de passar a madrugada alterando os documentos da empresa – aliás, montagem excepcional na sequência da fotocopiadora, não? – sentimos um certo orgulho dele, damos aquele sorriso vingativo, mas sabemos, por outro lado, que essa diferença entre sua reação e a de Kim será o fim dos dois de alguma forma.

Do lado de Mike, ex-policial durão, quase invencível apesar da idade, novamente o vemos em momentos de ternura com sua netinha. Jonathan Banks, apenas com mínimas inflexões de voz e alterações nos trejeitos corporais, nos passa todo o amor e orgulho que sente pela menina. A sequência em que ele está construindo uma “faixa de furar pneus” com ela como se estivessem fazendo um trabalho de escola é inebriante e sensível, daquelas que geram um movimento muscular involuntário no rosto de maneira a formar um sorriso besta que fica ali até o final. Toda a rudeza do personagem se esvai, mas logo volta quando a menina vai embora e ele continua o trabalho ali mesmo na mesa e, depois, sentado no sofá vendo televisão. De um segundo ao outro, Banks vai de “vovô que queremos abraçar” para “assassino de quem queremos fugir”, o que é acompanhado pela fotografia espantosa da série criando contraste entre cores quentes e frias.

Finalmente, então, volto ao ponto nodal: essa desconexão narrativa aparente realmente atrapalha a série? A minha resposta automática é negativa, mas, pensando friamente, ela tem que ser positiva. Há um problema sim na história, mas, sem dúvida alguma, ele é soterrado debaixo da montanha de qualidade representada por todo o resto que Gilligan coloca em nossas telinhas semanalmente. Pareço bipolar? Pode ser, mas uma coisa é certa e parafraseio leitor (Patrick Duarte, é você mesmo!) em comentário feito na crítica de Bali Ha’i: pouco importa o resto, pois é tão gostoso sentar na sala, ligar a TV e assistir aos episódios que nada mais importa.

Better Call Saul – 2X08: Fifi (EUA, 04 de abril de 2016)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Larysa Kondracki
Roteiro: Thomas Schnauz
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.