Crítica | Better Call Saul – 2X09: Nailed

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estrelas 4,5

Obs: Há spoilers da série. Leiam as críticas dos episódios anteriores, aqui.

Uma aula de como escrever um cliffhanger. Isso resume Nailed. Ou quase.

Depois de trabalhar uma belíssima e espetacular sequência inicial com Mike roubando o dinheiro de Tio, de fazer Chuck engasgar em pleno tribunal, de colocá-lo em confronto com Jimmy e Kim e de fazer Kim pesarosamente defender Jimmy, dificilmente alguém poderia deduzir o caminho que Vince Gilligan trilharia. Até mesmo a investigação pessoal da fraude de Jimmy por Chuck surpreende, mas nada realmente prepara o espectador para a simplicidade e absoluta eficiência da sequência final em que vemos Chuck cair e violenta e dolorosamente bater a cabeça na quina de uma mesa na loja de fotocópias.

E o mais surpreendente é quando, depois do susto, paramos para respirar e absorvemos a sequência quase psicodélica, com Chuck tendo um surto de seu problema psiquiátrico quando confronta o lojista que nega veementemente ter visto Jimmy dias atrás. Apesar de não sabermos exatamente o que aconteceu, se Chuck está vivo, morto ou em coma, a desgraça se abatendo na vida de Jimmy em razão de suas falcatruas – mesmo que essa em particular tenha sido, aham… justificada – faz completo sentido e cria um ótimo movimento circular. Chuck já havia deixado claro que seu pai morrera indiretamente em razão de Jimmy e agora talvez seja sua vez. Mas há um pouco de culpa concorrente aqui, já que é a obsessão de Chuck em achar que tudo de errado em sua vida vem de Jimmy e a incapacidade dele próprio aceitar que errou (apesar de não ter errado), que  deflagra a investigação e, por consequência, seu surto.

Essa discussão sobre quem está errado – ou menos certo – em Better Call Saul é fascinante e daria uma tese de mestrado. Vince Gilligan não facilita as coisas e trabalha com uma história tortuosa em que nada é exatamente o que  parece e em que há muito mais do que 50 tons de cinza. Não é simples afirmar que Jimmy é o grande culpado aqui. Ou que este é Chuck. O fenomenal confrontamento de Kim diante das acusações fraternas de Chuck aborda esse aspecto de maneira inteligente, concisa e dolorosa. Rhea Seehorn mostra, dessa vez contracenando com Bob Odenkirk e Michael McKean, que não deixa nada a dever a nenhum dos dois atores. A dor em seu rosto, existente a apenas uma camada abaixo de sua  raiva, é impressionante e o monólogo que ela solta violentamente em cima de Chuck é a mais pura verdade: Chuck tem enorme dificuldade em aceitar o sucesso de Jimmy e faz de tudo para miná-lo seja por inveja, egoísmo, mágoa ou pura raiva. Mas as premissas sobre as quais Kim constrói o raciocínio são completamente erradas, como todos nós sabemos,  incluindo aí os três personagens, o que  não necessariamente invalida a conclusão.

Se antes era evidente que os golpes de Jimmy seriam o catalisador da separação do casal, agora essa suspeita ganha contornos ainda mais sérios. O rei está nu. Todos o veem assim, mas sua pose real continua igual. Até quando? E o que o acontecido com Chuck mudará o status quo e acelerará o surgimento de Saul que, aliás, ganha um  vislumbre no episódio na hilária sequência em que Jimmy e sua equipe filmagem correm para filmar o encerramento de seu anúncio sem ter que pagar ou pedir licenças.

A história de Mike, que continua separada e concorrendo com a de Jimmy (algo que abordei em mais detalhes na crítica de Fifi), ganha mais um degrau de complexidade, pois o ex-policial põe em funcionamento seu plano para derrubar Tio. E, apesar do sucesso em roubar o dinheiro escondido no caminhão frigorífico que vimos no plano-sequência de abertura do episódio anterior, ele não alcança seu objetivo final, que é colocar a polícia atrás do traficante. Será que, como diz a Nacho (que não demora a descobrir o que ele fez), Mike não fará mesmo mais nada? Acho improvável, já que Tio, por intermédio dos gêmeos, ameaçou sua  querida netinha e isso não poderia sair barato. Há um bom potencial para um final explosivo nesse lado da história. De certa maneira, ainda que de longe, o esquema de Mike lembra os de Jimmy, com os dois sempre tentando encontrar saídas fora do padrão e jamais alcançando sucesso absoluto. Talvez realmente os dois sejam almas gêmeas e Gilligan queira dizer que, de seu jeito bem particular, Mike é Jimmy amanhã.

O que dizer que já não tenha sido dito antes? Nailed é mais um episódio sensacional em Better Call Saul. Seu dramático cliffhanger deveria ser estudado em escolas de cinema e televisão e, dentro do possível, replicado de forma a se evitar o monte de bobagens que vemos por aí.

Better Call Saul – 2X09: Nailed (EUA, 11 de abril de 2016)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Peter Gould
Roteiro: Peter Gould
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.