Crítica | Better Call Saul – 2X10: Klick

estrelas 4

Obs: Há spoilers da série. Leiam as críticas dos episódios anteriores, aqui.

Apesar de ter sido dirigido e co-escrito pelo próprio brilhante showrunner Vince Gilligan, Klick, o episódio que encerra a segunda temporada de Better Call Saul, não cai na categoria de obra-prima, como tantos episódios antes dele. Diferente do que vimos na primeira temporada, não houve um efetivo encerramento do arco dessa segunda parte da história da transformação de Jimmy em Saul. Marco, que encerrou a temporada anterior trouxe um senso de convergência e circularidade que não está presente em Klick.

Mas calma, pois essa questão não torna Klick um episódio ruim ou mesmo fraco. Já disse várias vezes ao longo de minhas críticas a cada episódio da série que, aparentemente, o showrunner não consegue, nem quando ele quer, fazer algo abaixo da média. E, se analisássemos o season finale mesmo que apenas sob a ótica da fotografia e direção de arte, ele já seria muito superior à maioria do que vemos por aí.

Reparem como Gilligan usa e abusa dos planos gerais mesmo em espaços confinados. O contraste entre as sequências envolvendo Mike e as que envolvem Jimmy e Chuck demonstram essa questão muito claramente, demonstrando o completo domínio da técnica ao, por exemplo, posicionar a câmera na quina da sala de espera do hospital, tendo Jimmy e Kim levemente à esquerda, mas usando a profundidade de campo total para deixar cada milímetro do local em pleno foco e, com isso, acentuar a solidão massacrante e a tensão do momento em que não sabemos exatamente o que aconteceu com Chuck durante sua tomografia. Notem, nessa mesma sequência, a disposição obsessiva-compulsiva dos props (objetos do cenário) que estão simetricamente separados um do outro, deixando o corredor de entrada vazio e, por isso mesmo, longuíssimo, sem que tenhamos noção perfeita de espaço, novamente para dar aquela impressão de desolamento, impressão essa que ganha reflexo nas tomadas grandiosas, também em plano geral, de Mike no deserto, preparando seu plano de assassinato de Tio. Tenham em mente que são, literalmente, histórias separadas, cada uma com seu próprio contorno, além de própria e distinta paleta de cores (frio x quente) e disposição de elementos cênicos. Há, simultaneamente, tangenciamento e distanciamento das narrativas, como se observássemos duas séries diferentes saídas da cabeça de um mesmo criador (e esse é um dos pontos negativos desse episódio, como abordarei mais adiante).

Better Call Saul, mais ainda que Breaking Bad, é uma série que é melhor apreciada aos poucos, com muita calma, prestando atenção exatamente no tipo de detalhe que procurei abordar no parágrafo anterior. Não é uma série de ação, que anda a passos largos. Muito ao contrário, trata-se de um drama lento em que cada frame importa e conta uma história, em que cada reação gera uma reação mais cedo ou mais tarde, em que cada personagem cumpre papel relevante e circular. Portanto, os detalhes se sobrepõem ao todo, algo normalmente raro e de difícil apreciação especialmente no mundo frenético e imediatista que hoje vivemos.

Rebecca, a (ex???)mulher de Chuck é um desses personagens que muitos poderiam achar que foge dessa regra de robustez narrativa, por somente ter aparecido rapidamente no prólogo do episódio homônimo que marcou a metade da segunda temporada. Reclamei, naquela ocasião, sobre a desconexão dela do resto da história e da ausência de um fim, de um objetivo. Mas, depois de ver o prólogo de Klick, fica evidente que Rebecca, assim como a mãe de Chuck e Jimmy, funcionam como elementos que apenas reiteram o quanto Jimmy é amado por todos que o cercam, para completo horror, incompreensão e – talvez principalmente – inveja de Chuck. Se Rebecca encantou-se com seu cunhado à mesa de jantar, as últimas palavras da mãe foram à procura de Jimmy, não de Chuck que, mesmo ali, presente constantemente, foi completamente ignorado. Apesar de obviamente não justificar a sana vingativa (não tem mais como esconder isso, pois o que Chuck quer mesmo é destruir Jimmy), certamente esses aspectos a explicam e funcionam bem para o plano maquiavélico de Chuck para pegar Jimmy na  mentira, plano esse que certamente envolve não só o fingimento de uma aposentadoria e de um surto psicótico, mas também sua “auto-catatonia” ali mesmo no hospital com conhecimento prévio de que Jimmy faria tudo – tudo mesmo – pelo irmão mais velho.

Mas, voltando ao prólogo, é particularmente sensacional como Gilligan, quase que em um passe de mágica, nos mostra Jimmy rapidamente à beira do leito de Chuck somente para uma enfermeira passar em frente à câmera e a sequência seguinte ser um flashback para o dia da morte da mãe dos dois. Novamente, pode parecer uma bobagem estilística, mas a série é repleta de pistas visuais e essa serve para enganar os espectadores assim como Jimmy enganou seu irmão e como uma previsão de futuro sobre o plano de Chuck para, dessa vez, pegar Jimmy na mentira. O mesmo vale para a sequência de cabeça para baixo em close-up de Chuck chegando ao hospital, que transmite ao espectador a mesma confusão mental e tensão que o personagem sente naquela situação. Artifício simples, mas incrivelmente eficiente.

Assim como mencionei em episódios anteriores, a desconexão das histórias de Jimmy/Chuck/Kim de um lado e de Mike do outro é, talvez, o único aspecto que realmente tenha me incomodado ao longo da temporada. Aguardava um tangenciamento que fosse em Klick e ele não veio. As histórias permaneceram separadas, com Mike tendo seu plano de assassinato de Tio frustrado por um Nacho na linha de tiro (acho que não foi proposital, mas nunca se sabe) e uma misteriosa mensagem com um singelo don’t (algo como “não faça isso”) em seu para-brisa deixado por alguém ainda não revelado (vejam “p.s.” abaixo). Se, antes, as duas narrativas competiam, aqui a de Mike parece um apêndice, algo relegado ao segundo plano sem uma clareza de propósito nessa temporada.

Aliás, como mencionei ao começo da presente crítica, essa clareza de propósito pode ser entendida como a escolha de Gilligan em não fechar o arco da segunda temporada na própria segunda temporada, o que é sempre uma jogada arriscada. Não houve encerramento nem do conflito Jimmy vs Chuck e nem do conflito Mike vs Tio, com duas pontas soltas em forma de dois cliffhangers light, o primeiro sendo o recado no para-brisa e o segundo a revelação (telegrafada desde o começo) de que a conversa que desnuda a mentira de Jimmy foi gravada por um Chuck literalmente capaz de tudo para acabar com seu irmão, revelando-se, de uma vez por todas, como o maior vilão dessa história (basta reparar nos propósitos das ações de um e de outro para que isso fique claro). Enquanto o suspense funcionou perfeitamente bem em Nailed (uma aula de cliffhanger, vale repetir), aqui o efeito não é o mesmo. Nem de longe, aliás. Mas é importante ressaltar que esse parece ter sido um caminho deliberadamente seguido pelo showrunner que merece, acima de tudo, a confiança do espectador. Ele tomou a decisão – provavelmente ainda na pré-produção da segunda temporada – de alterar a estrutura de arco fechado que usou na primeira temporada (e que é sempre um teste de mercado) e partir para algo mais ambicioso como acabou acontecendo também em Breaking Bad. Mesmo assim, tenho para mim que a natureza mais cerebral de Better Call Saul não pedia algo nessa linha.

Se toda série de TV tivesse o nível de problemas que Better Call Saul tem, estaríamos vivendo não a Era de Ouro da Televisão, mas sim sua Era de Diamante ou de qualquer outra pedra ou metal mais valioso que ouro. O trabalho de Gilligan merece toda a atenção e aplausos por não se contentar em repetir fórmulas ou caminhos ou mesmo de tornar facilmente digeríveis os assuntos que se propõe a discutir. Ele é um Contador de Histórias com letras maiúsculas e nós temos o privilégio de apreciá-las de tempos em tempos. Não se pode querer muito mais do que isso.

P.s. Com Klick, que se escreve na verdade com C, as suspeitas que circularam pela internet sobre a “volta” de Gus Fring ao universo de Gilligan acabaram sendo confirmadas pelo próprio Gilligan. Que suspeitas? Ora, a letra inicial de cada um dos 10 episódios da temporada formam um anagrama de FRING’S BACK (Fring está de volta). Duvidam? Então olhem só:

Fifi
Rebecca
Inflatable
Nailed
Gloves Off
Switch
Bali’Hai
Amarillo
Cobbler
Klick

Divertido, não?

Better Call Saul – 2X10: Klick (EUA, 18 de abril de 2016)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Vince Gilligan
Roteiro: Heather Marion, Vince Gilligan
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.