Crítica | Better Call Saul – 3X01: Mabel

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Vince Gilligan e seu Better Call Saul estão de volta. Que maravilha! Assistir as duas primeiras temporadas do spin-off de Breaking Bad foi um enorme prazer audiovisual e, a julgar por Mabel, que conta com a promessa da “volta” de Gus Fring, esse prazer continuará e, potencialmente, será intensificado.

Quando a temporada anterior acabou, fomos deixados com dois cliffhangers, um para cada narrativa paralela. Jimmy confessa sua elaborada falsificação para tirar o cliente Mesa Verde de Chuck sem saber que seu irmão está gravando tudo e Mike é surpreendido, no meio do deserto, com uma mensagem em seu para-brisas dizendo para ele não fazer o que estava prestes a fazer, ou seja, matar Tio e os seus capangas.

Mabel, então, começa exatamente desses dois pontos, mantendo a estrutura de histórias paralelas que, para o mal ou para o bem, finalmente quebra com as temporadas auto-contidas que vimos anteriormente e estabelece uma continuidade maior, ainda que, como quem vem acompanhando minhas críticas sabe bem, isso me incomode um pouco. Mas o incômodo é mais por minha incapacidade de ver o plano de médio ou longo prazo de Gilligan aqui, pois é evidente que a convergência acontecerá mais cedo ou mais tarde. O nome do jogo, aqui, é paciência.

Aliás, esse é o jogo que tanto Chuck quanto Mike jogam, cada um de seu jeito.

A trama principal, portanto, lida com um certamente maquiavélico plano do irmão mais velho de Jimmy para derrubá-lo de vez, provavelmente levando Kim junto para o buraco. A gravação, como Howard deixa bem claro depois de escutá-la, é inútil como matéria de prova, pelo que ele a descarta. Mas o primeiro objetivo de Chuck foi alcançado ali, na audição da fatídica fita por Howard. Agora, ele está 100% contra Jimmy e ao lado de Chuck mais uma vez, que fingiu o agravamento de sua doença exatamente para conseguir essa confissão.

Mas Chuck não jogou todas as suas cartas ainda. Aliás, ele apenas fez três pequenos movimentos: colocou Howard contra Jimmy, instigou o capitão a tomar satisfações pela outra fraude cometida por Jimmy na base aérea e “acidentalmente de propósito” deixou Ernesto escutar o momento chave da gravação. Qual é exatamente o endgame de Chuck, ainda não sabemos, mas o que temos certeza é que a vingança será definitiva, potencialmente marcando a separação final entre os irmãos e o nascimento de Saul Goodman.

E abro um parêntese aqui. No prólogo em preto e branco passado no presente pós-Breaking Bad, temos um vislumbre da rotina de “Gene” como gerente da Cinnabon – com direito a time-lapse, algo que seria repetido mais duas vezes no episódio, vale notar – e, mais do que isso, percebemos que o Saul Goodman ainda não o deixou. Ao mesmo tempo que hesitantemente Gene entrega o jovem ladrão à polícia, muito mais por reflexo condicionado do que por qualquer outra coisa, Saul fala para ele ficar em silêncio e procurar imediatamente um advogado. Já aqui, nesses primeiros segundos, vemos o tom do episódio ser estabelecido, em uma confluência narrativa excepcional em que futuro e passado conversam sensacionalmente, deixando-nos de certa forma até frustrados por ainda não vislumbramos exatamente como o salto será dado.

Voltando para um Jimmy ainda ignorante do plano de Chuck, é particularmente importante notar que o escritório compartilhado dele com Kim anda estremecido. Afinal, Kim condenou a atitude de Jimmy em relação à Mesa Verde, mas resolveu brigar consigo mesma para aceitar essa transgressão, esse crime de seu vizinho de sala. Afinal, esse cliente é a tábua de salvação para ela, ainda que seu senso de ética esteja apitando e avisando-a do problema ali bem na esquina. A hesitação em entregar os documentos ao banco e sua constante alteração do texto de uma das cartas mostra suas dúvidas, mas também pode mostrar que ela está tentando se precaver da “queda de Jimmy McGill”, afastando-se ao máximo desse castelo de cartas. A dicotomia presente na relação dos dois é ainda evidenciada pelo momento em que, na sala de Kim, os dois sentam lado a lado, mas separados por uma “lâmina de luz”. Jimmy está no lado sombreado e Kim no contra-luz, com uma simbologia óbvia, mas importante e que é mantida mais vezes durante o decorrer da narrativa, especialmente quando Chuck também é mantido nas sombras em diversas sequências em sua casa.

Com menos relevância, mas mantendo o brilhantismo da narrativa, Gilligan intercala o drama de Jimmy e Kim com a frustração de Mike com a pessoa misteriosa que o persegue. Não acontece muito nesse lado da história se espremermos o conteúdo, mas Better Call Saul é uma série que é tanto forma como substância. Há, normalmente, equilíbrio entre os dois polos, mas, quando falta um, o outro  compensa. E, no caso de Mike, somos brindados, primeiro, com mais uma atuação arrebatadora de Jonathan Banks em um papel, aqui, substancialmente silencioso. Mas, além disso, há toda a cadência do que o vemos fazendo, sempre com muita calma e com uma câmera que, usando ângulos radicais – plongée, contra-plongée, close-ups extremos em oposição a planos gerais – além de uma fotografia que abusa do foco profundo, da simetria e do chiaroscuro, nunca nos confunde e mantém a narrativa sóbria.

É particularmente impressionante a sequência em que, com uma câmera afasta e com profundidade de campo total, temos, do lado direito, Mike, encostado em seu carro, esperando seu amigo veterinário. Ao centro, há uma coluna negra e, à esquerda, vemos o interior do que parece ser um armazém abandonado, com janelas que filtram a luz do farol do carro se aproximando. Não há nada mais ali do que uma “Ext. Noite. Mike aguarda seu comparsa. Comparsa chega de automóvel“, mas Gilligan, que não só co-escreveu o episódio como o dirigiu, nos mostra porque Better Call Saul é especial. Essa falsa simplicidade é de tirar o fôlego e o chapéu.

Mabel, que simboliza os poucos segundos que os irmãos McGill se conectam como irmãos, prenuncia o fim. Mas o fim que, na verdade, é um começo. Em poucas palavras, ainda que eu queira ver Saul Goodman em algum ponto, torço para que a jornada continue ainda por um bom tempo, pois não há nada mais prazeroso do que ver um clássico nascendo.

Better Call Saul – 3X01: Mabel (EUA, 10 de abril de 2017)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Vince Gilligan
Roteiro: Vince Gilligan, Peter Gould
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis
Duração: 52 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.