Crítica | Better Call Saul – 3X02: Witness

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estrelas 4,5

Obs: Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Vince Gilligan volta para dirigir o segundo episódio seguido da temporada e um que os fãs de Breaking Bad estavam desesperados esperando, pois era a prometida volta de Gus Fring, personagem de Giancarlo Esposito e grande vilão de Heisenberg. E Gilligan, bem do seu jeito, brinca com nossas expectativas de maneira quase cruel.

Primeiro, ele começa com uma longa sequência não com Mike ou Jimmy, mas sim com Chuck lentamente verificando cada porta e cada janela de sua casa e, depois, brevemente conversando com um homem de bigode sentado à sua mesa. E somos deixados “pendurados” com esse leve mistério, que obviamente faz parte do plano maior para pegar Jimmy com a boca na botija, quando Gilligan, então, corta para nos mostrar Mike em sua contínua caçada ao autor do bilhete que o impediu de matar Tio e sua gangue ao final da temporada anterior.

Novamente, o roteiro não tem pressa e usa o silêncio em seu favor. A metódica vigília de Mike o leva a uma troca de mãos da tampa de seu tanque de combustível com o rastreador e a uma lenta perseguição a um homem que aparentemente cumpre tarefas aleatórias pelas estradas e acaba em um famoso estabelecimento que demora a ser revelado por completo: Los Pollos Hermanos. Chega a ser enervante ver como os enquadramentos da câmera de Gilligan nos leva de Mike ao restaurante e de volta a Mike sucessivas vezes sem que saibamos em definitivo onde ele está. Somente quando tudo acaba e a câmera se afasta é que podemos ver o letreiro e, finalmente, respirar aliviados com a confirmação.

Mas resta Gus. Se há Los Pollos Hermanos, há Gus Fring. Pelo menos para quem já viu a série original (alguém não viu?). E, novamente, como um gato brincando com sua mais recente presa, Gilligan manipula sua audiência primeiro fazendo com que Mike procure a ajuda de Jimmy e, segundo, colocando Jimmy em uma missão de reconhecimento dentro do restaurante de fast food que sabemos é de Gus ou, pelo menos, queremos muito que seja. Levanta a mão quem ficou roendo as unhas com a câmera constantemente em close up ou plano americano em Jimmy, mantendo-nos vendo quase que exclusivamente aquilo que ele vê, ou seja, cada detalhe da pessoa que Mike está seguindo e que, obviamente, não é Gus. Minutos se passam e nada e, com a câmera olhando para Jimmy vidrado em quem ele tem que vigiar, vemos, sem foco e em segundo plano, alguém que muito obviamente só pode ser Gus limpando o chão e as mesas de seu restaurante.

No entanto, mais esse momento passa sem efetivamente vermos Gus e é necessário Jimmy ser pego em uma situação embaraçosa na lixeira para que, de repente, a tão esperada volta aconteça. E ela é tão prosaica quanto ameaçadora. Há algo por trás das gentilezas de Gus que conhecemos muito bem e, com a câmera fixa em seu rosto por mais tempo do que o necessário, lembramos que ali está um homem cauteloso e inteligente, alguém que realmente pode dar trabalho para Mike. E, de fato, é o que vemos, ao lado de fora, no semblante sinistro de Gus em primeiro plano quando Jimmy vai embora em seu carro bicolor barulhento em segundo e desfocado plano, em uma brilhante inversão da sequência anterior.

Mas será que Gus não aparecerá mais mesmo no episódio? E, efetivamente, ele não aparece. O gostinho já foi dado. Nada de entregar demais a seus espectadores, não é mesmo Mr. Gilligan? E, do mesmo jeito que começa, a perseguição de Mike acaba, no meio do deserto, atendendo a um celular colocado ali especialmente para ele em uma sequência meticulosamente criada para tirar o melhor proveito da ilusão de ótica e fazer Mike aparecer pela metade na estrada, sem truque de câmera ou efeitos especiais, como se Gilligan estivesse nos dizendo que só fez aquilo porque ele podia fazer.

Do lado da história de Jimmy, o plano de Chuck dá perfeitamente certo – como esperado, aliás – e, exatamente quando seu pequeno escritório de advocacia parecia estar de vento em popa, ele é tragado de volta para a vingança do irmão, que usa Ernie para levar Jimmy a tomar a fita de Chuck à força, abrindo as portas para um processo criminal e muito provavelmente, também, à perda da licença para advogar. E, aqui, vamos às questões morais novamente. Claro que Jimmy não agiu corretamente ao sabotar os papeis da Mesa Verde preparados por Chuck. Claro que Jimmy é um enganador. Inegavelmente, porém, Jimmy tem bom coração e é um cara que não quer o mal de ninguém, muito menos do irmão. Basta ver como ele fica genuinamente abalado ao descobrir de mais essa traição de Chuck em uma sequência de “retirada de fita” que espelha exatamente a mesma situação em Mabel, o único momento desta temporada em que, por alguns segundos, os dois irmãos foram realmente irmãos.

Aliás, é interessante notar como a trama de Jimmy anda a passos largos em apenas dois episódios. É perfeitamente possível vislumbrar, agora, como isso acabará. Ou melhor, deixe-me refrasear: é possível imaginar como pode ser um desfecho, já que Gilligan mostrou mais de uma vez que, fazer o óbvio, não é a praia dele. Mesmo assim, as linhas gerais estão presentes nessa narrativa, enquanto que na de Mike o futuro imediato ainda é incerto.

Vejo Witness como uma gostosa brincadeira do showrunner conosco. Uma forma de tornar o esperado em inesperado ou, pelo menos, uma maneira de abordar o óbvio com sutileza, provocando-nos vagarosamente, quase tirando-nos do sério. Mas, ao mesmo tempo, em termos de andamento narrativo, há mais desenvolvimento aqui do que em Mabel, o que naturalmente acaba sacrificando um pouco a estética imaculada do episódio inaugural da temporada, o que nem mesmo de binóculo e pelo espelho retrovisor torna Witness um episódio inferior.

Agora que Gus deu uma volta em Mike e Chuck em Jimmy, o próximo episódio promete!

Better Call Saul – 3X02: Witness (EUA, 17 de abril de 2017)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Vince Gilligan
Roteiro: Thomas Schnauz
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis, Giancarlo Esposito
Duração: 52 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.