Crítica | Better Call Saul – 3X03: Sunk Costs

better_call_saul_3x03_sunk_costs_plano_critico

estrelas 4

Obs: Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Não me canso de repetir: Vince Gilligan é um artista plástico televisivo. Quem acompanha minhas críticas já sabe que eu acho isso com todas as minhas forças e já deve estar sem paciência para minhas repetições, capítulo a capítulo. Mas é algo mais forte do que eu.

Peguem, por exemplo, dois enquadramentos em Sunk Costs. O primeiro, quando a câmera em plongée mostra Mike acertando os sapatos no fio telefônico/elétrico perto da fronteira com o México nos preparativos de mais uma brilhante estratégia para “roubar” um caminhão de drogas, desta vez a partir de uma sugestão – ok, foi mais que isso, mas vocês entenderam – de Gustavo Fring. Vemos o fio cortando a tela em diagonal criando um triângulo retângulo na metade superior direita, com o par de tênis pendurado exatamente no meio de seu “lado” maior em primeiro plano e Mike, sua sombra comprida e a estrada fundido-se com a terra, que serve de fundo a tudo lá embaixo em segundo plano, com profundidade de campo total, que nos permite ver os detalhes das rachaduras no asfalto, a faixa central desgastada e um pouco de uma satisfação no rosto do personagem.

E não, não esperem, aqui, uma explicação profunda sobre o significado da imagem em questão. Sua simetria e sua beleza plástica não exigem maiores detalhamentos, não estão lá para necessariamente cumprir uma função narrativa que vá além do apuro estético do showrunner e da série como um todo.

O outro enquadramento é mais longo e mais fácil de observar em detalhes. Trata-se do momento de encerramento do episódio, com Jimmy e Kim, de mãos dadas, em silhueta contra a parede de tijolos de vidro de seu escritório, sacramentando sua união que, apesar de tudo, continua firme e forte. Foi essa a imagem que escolhi – dentre as duas que decidi usar como exemplo – para ilustrar a presente crítica. Novamente notamos a simetria na direção de John Shiban, que coloca a “sombra” dos dois exatamente no meio – há cinco colunas de blocos de cada lado com o casal ocupando as quatro centrais. Aqui, porém, é possível agregar um breve – e óbvio – significado a partir da imagem, com as mãos dadas formando, ao mesmo tempo, o “M” de McGill e o “W” de Wexler que também é o logotipo recém-terminado (pela secretária) do escritório dos dois, deixando mais clara ainda a reunião efetiva deles, com Kim aceitando Jimmy daquele jeito mesmo, como os sunk costs ou “custos embutidos” de toda aquela operação/relação.

Falei demais? Enchi a paciência de meus leitores? Caso positivo, peço desculpas, mas é que Better Call Saul, também como já tive a oportunidade de afirmar diversas vezes, não é uma série para ser apreciada por seu valor de face. Há uma história ali, claro. Duas narrativas paralelas ocasionalmente tangenciando, na verdade, mas muitas vezes a forma ganha da substância e, quando não ganha, fica em pé de igualdade. São, realmente, sucessivas lições de composição de cena, de mis-en-scène para ficar chique, que amplificam e muito o alcance da série. Enquanto alguns cineastas (e espectadores) acham que a parcela “visual” do audiovisual é sinônimo de cortes rápidos e explosões, outros como Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock, Wes Anderson e Paul Thomas Anderson, isso só para citar quatro rapidamente, criam arte em movimento, exatamente como Vince Gilligan na televisão, mídia que, hoje, tem galgado um espaço impressionante na vida de todos com obras das mais diferentes e espetaculares como Better Call Saul.

Em termos narrativos, Sunk Costs é uma espécie de arrumação de tabuleiro. Não há um efetivo impulsionamento das histórias, ainda que  o que vemos já delineie, de certa forma, o que vem por aí. O aspecto que salta aos olhos é que o episódio estabelece a primeira vez que Gus e Mike unem esforços. Não existe uma relação profissional efetiva entre os dois, mas, com panos limpos, cada um entendo o que o outro quer, há um esforço concertado em uma direção só, com Mike vingando-se de maneira a não afetar os interesses comerciais de Gus. Novamente, aquele passo lento, típico das sequências com Mike, tomam o capítulo, mas a montagem faz o possível para manter essa narrativa e a de Jimmy bem encadeadas, evitando longos minutos em uma para que depois a outra seja abordada.

Assim, há uma impressão de um passo um pouco mais apertado, mas é só impressão mesmo. Depois do diálogo de Mike com Gus, há, “apenas”, a execução de mais um plano do silencioso ex-policial, usando sensacionalmente os sapatos do belo quadro que descrevi para fazer com que a polícia fronteiriça americana apreenda o caminhão com drogas de Tio. Resta saber se haverá algum tipo de retaliação e/ou se essa ação servirá como mola propulsora para o estreitamento das relações entre Mike e Gus.

Do lado de Jimmy, o plano de Chuck continua a todo vapor e o que eu previa como seu objetivo final foi revelado aqui: ele quer a licença de Jimmy para advogar, tirando seu irmão mais novo do jogo. A calma de Chuck ao se aproximar de Jimmy sentado no meio-fio, completamente indefeso, é um daqueles momentos que faz o sangue ferver, que nos leva a querer socar a televisão ou vitimar o coitado do controle remoto ao nosso lado. Mas a virulência de Jimmy em resposta de certa forma lava a nossa alma, ainda que sua via crucis, desconfio, tenha apenas começado. Será interessante ver se o caso de invasão de domicílio realmente irá a julgamento, pois isso poderá converter a temporada em um drama de tribunal com enorme potencial de “lavação de roupa suja”.

Será que é isso que finalmente será a gota d’água que transformará Jimmy em Saul? Aliás, será que veremos a mudança ainda nessa temporada? Sinceramente, tenho para mim que não, que a jornada de Jimmy na direção de Saul será ainda mais dolorosa e raivosa e, especialmente, mais demorada. Mas será uma demora, tenho certeza, agradabilíssima para quem estiver observando do lado de cá da telinha.

Better Call Saul – 3X03: Sunk Costs (EUA, 24 de abril de 2017)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: John Shiban
Roteiro: Gennifer Hutchison
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis, Giancarlo Esposito
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.