Crítica | Better Call Saul – 3X04: Sabrosito

estrelas 4

Obs: Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Não que diversos episódios de Better Call Saul não evoquem Breaking Bad, mas nenhum me deu um senso de déjà vu tão forte quanto Sabrosito em seu prólogo na hacienda de Don Eladio, com direito também a Juan Bolsa (Steven Bauer e Javier Grajeda voltando para o Gilliganverse) e o mesmo cenário icônico usando anteriormente (ou seria posteriormente?). É aquela sensação gostosa de ver as peças sendo encaixadas e aos poucos nos dando uma visão ampla da jornada dos personagens.

E o melhor é que os encaixes não são forçados. Aqui, o roteiro de Jonathan Glatzer, que dirigira Amarillo, na temporada anterior, aproveita os eventos relacionados a Mike que vimos em Sunk Costs e estabelece uma forte conexão entre o sucesso de Gus Fring, representado pelas bolsas cheias de dinheiro trazidas por Bolsa (claro!), com a humilhação completa de Hector Salamanca em uma especialmente magnífica atuação de Mark Margolis que nos leva de um traficante confiante até um ser distorcido cheio de ódio sem que o ator levante um dedo, sem quase falar. Ele e Jonathan Banks, juntos, devem canalizar toda a rabugice de Hollywood e será muito interessante ver o eventual enfrentamento dos dois mais para a frente.

Com isso, o plano de Fring de desestabilizar a concorrência e dominar o mercado local de drogas vai de vento em popa, com uma importante informação sendo largada por ele a Mike no estacionamento: há um ódio mortal de Salamanca por Fring e ele não procura só dinheiro, como, também, vingança, algo que, de uma forma ou de outra, sabemos que ele alcançará. Mas é a jornada que importa e este lado da narrativa da série tem sido particularmente intrigante e complexo, com um final provavelmente explosivo.

Contudo, não sei se posso dizer o mesmo da narrativa de Jimmy. Creio que já tenha ficado claro que este conflito entre ele e Chuck será o final, aquele que terminará de vez com o resquício de respeito e amizade entre os irmãos. Acontece que, ao longo do final da temporada passada e dos três primeiros episódios desta temporada, acompanhamos o plano maquiavélico de Chuck para derrubar o irmão mais novo, com o objetivo final de arrancar-lhe a licença para advogar. Jimmy percebeu a jogada ao final do último capítulo e, na belíssima sequência em que ele e Kim, em silhueta, fazem um pacto de ajuda mútua, fica no ar a possibilidade de ele levar o caso ao tribunal, rejeitando o acordo da promotoria depois de sugestão de Chuck.

Acontece que não é o que vemos em Sabrosito. Jimmy e Kim também têm um plano e, em muitos aspectos, ele é parecido com o do irmão. Há “espionagem”, com direito ao recrutamento de Mike em uma sequência hilária em que ele afasta Chuck com uma furadeira à bateria e confissões arrancadas em pleno corredor da promotoria e possivelmente gravadas. Claramente, a dupla planeja algo ou diretamente perante a Ordem dos Advogados ou perante a promotoria e o jogo continua. Só que esse jogo está começando a tornar-se repetitivo. A perseguição no estilo gato e rato tem transitado entre Chuck e Jimmy já há algum tempo e é importante que Vince Gilligan ponha um ponto final nisso de maneira que esse lado da história realmente caminhe.

Mas calma, pois a série como um todo ainda está muito interessante e cativante, especialmente se somarmos a isso a impecável fotografia e direção de arte que funcionam como colírios estéticos para os espectadores. Como já disse algumas vezes antes, estamos diante de algo mais do que apenas uma série de TV e Gilligan merece toda nossa atenção. Creio que ele saiba perfeitamente – muito melhor do que eu, lógico – até onde ele pode ir, mas o conflito Jimmy-Chuck está começando a ratear de leve, mais andando de lado do que desenvolvendo de verdade a linha narrativa deles. E vale lembrar que nem mesmo chegamos na metade da temporada, o que me faz temer que essa mesma história seja esticada ao longo de mais seis episódios, ainda que eu tenha fortes esperanças de que não.

Sabrosito faz o fã de Breaking Bad salivar pelo olhos com seu prólogo e com a utilização em mais larga escala de Gus Fring (será que a presença do personagem será tal a ponto de gerar uma terceira linha narrativa?). Mas essa é a história que em tese deveria ser paralela à principal, que lida com a transformação de Jimmy em Saul. Curiosamente, é nesta última que falta alguma coisa, possivelmente um grande evento ou, mais provavelmente, uma resolução definitiva ou próxima de definitiva no que toca Chuck. O que não quero é um dia olhar para trás e lembrar, com um gosto acridoce na boca, que Better Call Saul deveria ter sido chamada de Better Call Mike ou Breaking Bad Begins.

Better Call Saul – 3X04: Sabrosito (EUA, 1º de maio de 2017)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Thomas Schnauz
Roteiro: Jonathan Glatzer
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis, Giancarlo Esposito, Steven Bauer
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.