Crítica | Better Call Saul – 3X06: Off Brand

estrelas 4,5

Obs: Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

E, finalmente, 26 episódios depois, Saul Goodman aparece de verdade! Mas calma, ainda não é o Saul Goodman que conhecemos em Breaking Bad, mas é o germe da ideia que resultaria no advogado malandro que aprendemos a amar na memorável série de Vince Gilligan.

Off Brand é um daqueles episódios funcionais, feitos para acelerar a narrativa ao lidar com as diversas histórias paralelamente, o que de forma alguma é um demérito. Há a relação de Nacho e Hector Salamanca degringolando pela exigência deste último em usar o negócio legítimo do pai de Nacho para acobertar a importação de drogas; há a tentativa de reconexão de Rebecca com Chuck, a manutenção dos laços de Howard e Chuck, um breve momento que firma a proximidade entre Stacey e Mike, a tentativa de Rebecca em convencer Jimmy a ajudar Chuck, e, claro, Kim e Jimmy tentando adaptar-se à decisão da Ordem dos Advogados e isso sem esquecer de alguns segundos em que vemos Gus e, pela primeira vez na série, Lydia (Laura Fraser), mais uma personagem trazida de Breaking Bad, fazendo-nos passear pela futura lavanderia industrial que será fachada para o laboratório de Walter White. Tudo é abordado de maneira competentíssima, fluida, em uma direção precisa de Keith Gordon e uma montagem que em momento algum confunde o espectador.

E, por mais que seja um bombardeio de histórias paralelas, algo em franca antítese ao episódio anterior, tudo funciona como uma frenética preparação para o grande momento em que Saul Goodman aparece pela primeira vez, de chapéu, barbicha e óculos escuros, em um anúncio de televisão para vender espaços comerciais na TV imaginado por Jimmy que, sem poder advogar por um ano, precisa evitar o prejuízo da publicidade que ele já havia comprado. Ele, então, no calor do momento, cria a persona baseada na frase ‘s all good, man, corruptela de it’s all good, man (“está tudo bem, cara”) que, foneticamente, pode ser lida como Saul Goodman e que já fora mencionada (e o primeiro nome usado) em Hero, na já longínqua primeira temporada.

Mas o que é realmente importante é que essa versão “genérica” (ou off brand) de Jimmy McGill surge – podemos dizer que nasce, na verdade – depois que seu confronto com Chuck acaba. Jimmy havia tirado as luvas de pelica e usado a arma mais letal de todas: a revelação, para o mundo, que Chuck tem problemas mentais e não alergia a eletromagnetismo, desmascarando a farsa e deixando às escâncaras a inveja, ciúmes e raiva que Chuck sente de Jimmy. Ou seja, aquela barreira invisível que de certa forma mantinha Jimmy no bom caminho – mesmo com todas as recaídas – ruiu completamente. Não há nada mais que o impeça de colocar as máscaras que quiser ou tirar de vez a máscara de Jimmy e adotar a persona de Saul Goodman que, talvez, seja a verdadeira.

E é o que parece que acontecerá. O Saul Goodman que vemos em Off Brand é criado para esconder Jimmy. O Saul Goodman que vemos em Breaking Bad é a persona que tomou conta de Jimmy McGill como uma evolução (ou seria involução?) de Slippin’ Jimmy. Ainda não chegamos lá, mas é evidente que largos passos foram dados nessa direção.

Os futuros empurrões de Jimmy na direção de Saul provavelmente ainda virão a partir de Chuck que parece estar cozinhando mais um plano para virar a mesa. O acordo de “um novo futuro” entre ele e Howard pareceu-me completamente falso e o passeio de Chuck ao centro da cidade como um louco varrido vestido de prateado somente para falar com sua ex-médica em um telefone público no lugar mais iluminado possível parece ser o começo de alguma nova tramoia dele.

No entanto, como já tive a oportunidade de mencionar antes, essas idas e vindas entre Chuck e Jimmy já deram o que tinham que dar. O ponto alto, sem dúvida, foi em Chicanery e creio que seja importante que Gilligan mantenham o clímax ali, naquele momento. Mas, claro, Gilligan é Gilligan e, como abri a crítica anterior, não duvidarei mais dele.

Ainda que tenha sido fenomenal ver Saul Goodman surgir, não poderia encerrar esta crítica sem mencionar a relação de Nacho com Hector Salamanca que, como disse, parece estar chegando ao ponto de ruptura. Foi uma escolha muito interessante do roteiro de Ann Cherkis em focar essa linha narrativa em Nacho, usando a evolução de seu semblante para marcar momentos que potencialmente o levarão a voltar-se contra Hector, valendo notar o detalhe do medicamento escondido por ele no que parece ser o delineamento do futuro AVC de Tio Salamanca. Será que a desejada vingança de Gus contra Hector será frustrada por Nacho? Só o tempo dirá, mas suspeito que a ação nesse lado da história ainda ganhará em complexidade antes de chegar a uma solução.

Off Brand lida com tudo ao mesmo tempo e surpreende ao fazer com que esse tudo não seja muito mais do que um prelúdio para “primeira aparição” de Saul Goodman em um momento memorável. É só um nome? Certamente que não!

Better Call Saul – 3X06: Off Brand (EUA, 15 de maio de 2017)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Keith Gordon
Roteiro: Ann Cherkis
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis, Giancarlo Esposito, Steven Bauer, Ann Cusack, Lavell Crawford, Laura Fraser
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.