Crítica | Better Call Saul – 3X08: Slip

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Pela terceira vez consecutiva, Vince Gilligan apresenta um episódio funcional, com o objetivo claro de avançar cada linha narrativa da série simultaneamente. Com isso, o caráter contemplativo de Better Call Saul perde espaço para uma abordagem mais capitular, o que de certa forma destoa do todo. No entanto, estamos falando de um dos melhores showrunners da atualidade, assim como de uma das mais instigantes séries hoje em andamento e mesmo um episódio com a estrutura de Slip não passa despercebido por espectadores mais atentos.

O primeiro elemento que chama atenção quando o episódio acaba e paramos para pensar em tudo o que aconteceu é sua unidade dramática encapsulada por seu prosaico, mas muito bem escolhido título. Slip, como verbo, significa “escorregar” ou “esgueirar-se”. Temos, claro, o escorregão proposital de Jimmy (cujo apelido original, não esqueçamos, era Slippin’ Jimmy) na loja de instrumentos musicais para forçar a venda de seus espaços publicitários, algo que dá espaço para Saul Goodman – ou até mesmo o bom e velho Slippin’s Jimmy – esgueirar-se para dentro da mente de um sofrido Jimmy McGill por duas vezes, a segunda como uma forma de ganhar uns trocados extras colocando o supervisor de seus serviços comunitários em uma brilhante saia justa. O mesmo vale para a expressão to slip back que poderia ser traduzida como “voltar de fininho”. Slip como verbo também pode significar “erra” e, como substantivo, pode significar “deslize” ou “lapso”, todos perfeitamente aplicáveis ao dilema de Chuck que, agora, sabe que sua doença não é física e sim mental. Ele veste uma carapaça de alguém em franca recuperação, somente para esconder sua crescente fragilidade, algo que certamente será amplificado agora que terá que enfrentar a questão do seguro de más práticas advocatícias sendo potencialmente revogado (depois de um empurrãozinho de Jimmy, no episódio anterior, em atitude vingativa que, muito sinceramente, não consigo condenar).

Além disso, Nacho continua em seu plano para matar Hector Salamanca, slipping – ou deslizando – para um lado criminoso que ele ainda não havia chegado e também slipping a droga falsa para o bolso do paletó de Hector em uma tensa sequência carregada de close-ups e câmeras lentas, cortesia da direção de Adam Bernstein (responsável pelos espetaculares Five-0 e Gloves Off), além de uma cada vez mais complexa atuação de Michael Mando. Mike, por sua vez, ajuda na concretização do plano de Nacho e coloca o seu próprio em funcionamento, algo que, aparentemente, terá a tendência de uni-lo ainda mais firmemente a Gus, algo que se conecta diretamente com Breaking Bad, claro.

Ou seja, em 49 precisos minutos, Vince Gilligan, por intermédio de um impressionante roteiro escrito por Heather Marion, co-autora de Klick, o encerramento da temporada anterior, consegue fazer o que muitas séries não alcançam em uma temporada inteira: avançar integralmente sua trama de maneira orgânica e lógica sob um guarda-chuva temático único que reúne e amarra todas as pontas. É como ver um maestro conduzindo sua orquestra ou como acompanhar os inebriantes movimentos de um enorme cardume de sardinhas manobrando em mar aberto. Nada está fora do lugar e o que testemunhamos é como uma obra de artes plásticas sendo criada na medida em que os minutos passam.

Se precisamos de mais alguma prova do brilhantismo de Gilligan, basta notarmos como o prelúdio no passado, com Slippin’ Jimmy e seu amigo Marco visitando a loja em que seu pai trabalhava, tem um perfeito encaixe com a história que ouvimos por intermédio de Chuck e que é um dos exemplos pelos quais ele detesta o irmão mais novo. Antes, ouvimos uma história de um filho furtando o pai. Agora, o outro lado da moeda é muito mais prosaico e igualmente verdadeiro: Jimmy apenas recolhia as moedas que considerava mais valiosas e que eram dadas em pagamento por seu valor de face. As moedas também representam os lados de Jimmy e Chuck. Na mesma medida em que podemos colocar um em cada lado, eles também têm personalidades que poderiam estar em lados opostos: o malandro e o advogado lutador no caso de Jimmy e o advogado bem-sucedido e o desequilibrado mental no caso de Chuck.

Seria perfeitamente razoável apontar o dedo para um “problema” em Slip: o arco narrativo de Kim, que parece deslocado aqui. No entanto, há que se considerar que sua história é complementar a de Jimmy, como forma de contraponto. Ela é o resquício de retidão moral inabalável que tenta se manter dessa forma apesar das sacudidas e da tentação representada por Jimmy, bastando ver como ela se delicia com a mera possibilidade de os dois cometerem golpes em desavisados no restaurante a que vão. A sequência dela tentando devolver o dinheiro de seus estudos a Howard, porém, mostra que ela está cada vez mais de pavio curto e sua aceitação de mais um cliente apesar de ter jurado à Mesa Verde que ela não mais trabalharia para ninguém, pode marcar o começo de sua própria queda, algo que provavelmente contribuirá em muito para o surgimento completo e definitivo de Saul Goodman.

Slip é conceitualmente distante do tipo de episódio que aprendemos a esperar de Better Call Saul, mas ele consegue ser igualmente fascinante no quebra-cabeças que energicamente monta em cada linha narrativa. Próximos do fim de mais uma temporada, a jornada transformativa de Jimmy não poderia ser mais recompensadora. Não há escorregão que faça essa temporada ser menos do que brilhante.

Better Call Saul – 3X08: Slip (EUA, 05 de junho de 2017)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Adam Bernstein
Roteiro: Heather Marion
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis, Giancarlo Esposito, Steven Bauer, Ann Cusack, Lavell Crawford, Laura Fraser
Duração: 49 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.