Crítica | Better Call Saul – 3X09: Fall

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Eu poderia facilmente começar a análise de Fall da mesma maneira que comecei a de Slip, mas isso seria repetitivo demais. Basta dizer, porém, que, assim como o episódio anterior, este gira em torno de um tema que encontra reflexo em seu título. Fall ou, em tradução direta, “Queda”, encapsula o que parece ser um final sombrio para boa parte do elenco nesta terceira temporada.

A assunção de mais um cliente por Kim é a proverbial “gota d’água” – ou, como diz Howard para Chuck, the straw that broke the camel’s back, em um provérbio de conotação bem mais dura e gráfica do que a contrapartida em português – para ela. Já assoberbada por seu trabalho com o banco Mesa Verde, vínhamos acompanhando a personagem praticamente morando em seu escritório, dedicando-se de corpo e alma à sua tábua de salvação.

Rhea Seehorn vinha tendo uma excelente performance, vagarosamente mostrando sua mais completa estafa, algo ajudado pela discreta maquiagem que lhe tirava a cor do rosto e aprofundava as olheiras, além de manter seu cabelo, sempre tão arrumado, um pouco fora do prumo. Sua relação com o sono foi algo muito bem trabalhado ao longo dos roteiros da temporada e era óbvio que alguma coisa grave aconteceria. Só não tínhamos ideia do que era, até que, em Fall, um foreshadowing clássico no começo do episódio já dá a direção e, potencialmente, a gravidade da coisa: seu aparentemente banal problema automobilístico no deserto do Texas, no rancho de seu novo cliente.

Com isso, quando, ao final, a vemos dirigindo e trabalhando a forma como se portar na vindoura reunião, com a câmera fixa em seu rosto e o carro em movimento, de certa forma tentamos nos preparar para o pior, mas, mesmo assim, Minkie Spiro, por intermédio de um preciso e abrupto corte, consegue nos surpreender com uma excelente maneira de mostrar um acidente e, no processo, causar infartos em massa em sua audiência. A simplicidade é tudo nesse momento. Apenas um corte, a alteração na maquiagem da atriz e uma câmera afastando-se para mostrar a dimensão do estrago e pronto. É o suficiente para lidar mais do que eficientemente com a queda de Kim.

Do lado de Chuck, vemos os efeitos da maldosa (e merecida, que fique claro!) estratégia de Jimmy em minar a reputação do irmão mais velho perante a seguradora de más práticas advocatícias. Sem a cobertura, Howard é obrigado a dar um ultimato a Chuck, iniciando um processo – judicial, pois Chuck não é de deixar nada barato – que pode quebrar o escritório HHM. Não foi necessário muito tempo dedicado a essa primeira e potencialmente definitiva rusga entre os sócios para mostrar o potencial destrutivo do que pode vir por aí.

E, então, chegamos em Jimmy que encarna a versão mais maléfica possível de Saul Goodman para manobrar suas ex-clientes contra Irene, outra ex-cliente e representante das demais na ação civil pública contra a Sandpiper. O objetivo é fazer com que Irene aceite a primeira e milionária proposta de acordo, tudo para ele levar 20% do valor rapidamente, sem esperar que a estratégia de Howard siga seu curso natural, potencialmente beneficiando ainda mais as senhorinhas, ainda que também haja um lado negativo óbvio aí.

O que é particularmente importante notar é como Vince Gilligan quer nos colocar contra Jimmy. Ou melhor, como ele quer que vejamos muito claramente que, apesar de ele nos ter colocado ao lado de Jimmy McGill ao longo dessas três incríveis temporadas, não podemos perder de vista quem o protagonista é de verdade: um vigarista que pensa mais nele no que nas pessoas ao seu redor. Chuck serviu como o grande vilão até agora e como uma forma de relativizar as ações de Jimmy, mas, sem Chuck por perto – ou em oposição direta para fazermos a comparação -, conseguimos enxergar além da malemolência de Jimmy e chegar até sua alma retorcida que simplesmente não sabe fazer aquele bem altruísta que, lá no fundo, esperamos que ele faça.

Ao longo de menos de 50 minutos, o roteiro de Gordon Smith nos faz reviver momentos-chave do importante caso que Jimmy ajudou a construir para que possamos vê-lo desconstruir tudo, derrubando nossa esperança e nossa confiança. No final das contas, vemos, mais uma vez, a queda de Jimmy, mas a grande queda mesmo é a nossa, que nos leva ao chão pela forma como ele coloca as velhinhas contra a simpaticíssima Irene.

Esses três momentos – o acidente de Kim, a cisma entre Chuck e Howard e o plano maldoso de Jimmy – abafam completamente os momentos com Nacho e Mike, ainda que eles sejam bem inseridos na narrativa, sem interromper o fluxo das demais histórias. Por um lado, vemos Nacho vendo seu plano lentamente entrar nos eixos, com Hector Salamanca tendo seus ataques e tomando placebo e, do outro, vemos Mike prosseguindo com a lavagem de seu dinheiro, algo que, já sabemos, o aproximará inexoravelmente do diabólico Gus Fring.

Fall é, mais uma vez, um magnífico exercício televisivo. Um episódio que adianta a narrativa e nos surpreende a cada sequência. Os escorregões que vimos no episódio anterior se materializam como quedas aqui, quedas essas das quais  nem todos se levantarão. Nem mesmo nós, talvez.

Better Call Saul – 3X09: Fall (EUA, 12 de junho de 2017)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Minkie Spiro
Roteiro: Gordon Smith
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis, Giancarlo Esposito, Steven Bauer, Ann Cusack, Lavell Crawford, Laura Fraser
Duração: 49 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.