Crítica | Better Call Saul – 3X10: Lantern

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Episódio e temporada:

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Quem vem acompanhando minhas críticas da terceira temporada de Better Call Saul já notou que considero o trabalho de Vince Gilligan muito mais do que uma série de TV. Está mais para uma escultura em movimento. Complexa, detalhada, assombrosa e envolvente, a temporada foi, do começo ao fim, de uma perfeição rara de se ver por aí e Lantern encerra dolorosa, mas poeticamente um substancial naco da jornada de Jimmy McGill na direção de Saul Goodman.

Na verdade, por vários momentos achei que Gilligan estava se despedindo mesmo da série, pois, se pararmos para pensar, tivemos o que poderia muito bem ser o encerramento do arco de Mike em Fall, com sua aproximação dos esquemas vis de Gus Fring e, agora, os arcos de Howard, Chuck, Hector Salamanca e Nacho poderiam, também, ao menos em tese, ser considerados como finalizados. Kim é a única personagem, fora o próprio Jimmy, claro, que fica sem uma explicação direta para sua ausência no futuro do Saul Goodman que vemos em Breaking Bad.

Mas é claro que Gilligan muito provavelmente apenas nos arremessou uma proverbial “bola curva”. Chuck tentou suicídio, mas não necessariamente logrou êxito. O ataque de Hector pode não ter sido o derradeiro, o que levaria à investigação sobre a troca das pílulas. E Howard pode ainda dar as caras de uma forma ou de outra. As portas estão abertas ou, melhor afirmando, entreabertas de maneira que não precisa de muito mais para elas serem cerradas de vez e isso somente mostra a tranquilidade do showrunner e a delicada e precisa construção de arcos narrativos ao longo de três temporadas, com diversos clímaces sucessivos acontecendo nesse finalzinho.

O grande destaque, obviamente, é a descida ao inferno da loucura de Chuck, em mais uma assombrosa atuação de Michael McKean. Confrontando Howard logo nos minutos iniciais, Chuck tem mais uma retumbante derrota antes mesmo dos créditos acabarem de aparecer na tela. Seu objetivo não era sair da HHM. Muito ao contrário, ao partir para o ataque, o que ele queria era garantir sua manutenção como sócio do escritório, o que não é aceito por Howard que faz um esforço pessoal para desvencilhar-se de seu mentor sem quebrar a banca (aqui, literalmente).

Se isso parecia a gota d’água, ela só vem de verdade quando Jimmy vai visitar o irmão para mostrar-se arrependido, o que, assim como a reação de Howard, não é aceito por Chuck, que violentamente enxota o irmão. Mas é importante reparar no espelhamento desse belo, mas triste diálogo de irmãos rivais com a proximidade entre os dois que testemunhamos no prólogo do episódio, com eles juntos em uma cabana à luz de uma lanterna. Fica evidente que, ao mesmo tempo que Chuck – já no presente – mente sobre não ligar para Jimmy somente para feri-lo, ele fala toda a verdade sobre Jimmy ter a rotina de fazer coisas erradas que podem ter consequências para terceiros, somente para, ato contínuo, mostrar remorso e pedir perdão em um loop infinito e destrutivo.

Gilligan nos fez sentir raiva mortal de Chuck desde a temporada anterior, chegando ao ponto alto no brilhante Chicanery que entrega o alívio que ansiávamos. Jimmy venceu. Chuck foi destruído. Oba! Só que nada nesse universo do showrunner – assim como na vida real – é tão simples como o “bem vence o mal”. Isso pode funcionar em um mundo de fantasia como lições básicas de moral. Em Better Call Saul, a lição é bem mais profunda e Gilligan fez da tripas coração para nos fazer esquecer da verdadeira persona de Jimmy que nem mesmo é Slippin’ Jimmy (ou Jimmy Sabonete), mas sim, efetivamente, Saul Goodman. Somos arrancados do torpor e da raiva contra Chuck somente em Fall, quando vemos Jimmy afastar da simpática Irene todas as suas amigas apenas para um ganho rápido. É isso que Chuck lembra a Jimmy no diálogo em sua casa e é isso que efetivamente funciona para derrubá-lo de vez e levá-lo ao abismo da loucura, com o agravamento quase instantâneo de sua condição mental.

É a partir de sua espiral descontrolada que McKean mastiga o cenário (literal e figurativamente) e tem uma performance que rivaliza seu trabalho em Chicanery. Como tudo na série, é fascinante observar a lentidão como tudo acontece, primeiro com Chuck acordando no meio da noite, ligando a luz da cabeceira, tomando seu remédio, fazendo sua anotação no caderno e começando a nos mostrar os conhecidos sintomas de sensibilidade à eletricidade. Dali, partimos para os disjuntores sendo desligados, o relógio de luz sendo verificado e ainda sofrendo incrementos por alguma fonte de energia sutil que leva Chuck, então, a destruir sua casa inteira e, ao final, em uma sequência que demoramos um pouco a entender e que corta o coração quando compreendemos, ele derruba a lanterna no chão e o fogo começa.

Se ele morreu ou não, não interessa de verdade. O ponto é que não há mais volta. O Chuck que conhecíamos se foi e só sobrou uma carcaça sem propósito na vida, que era seu trabalho, e sem família, que era Jimmy. Vemos a dor no rosto contorcido e barbado de Chuck e aquele sentimento de raiva que tivemos ao longo da temporada esvai-se por completo, sendo substituído por compreensão e aquela pontada de pena. Ele mesmo escolheu percorrer esse caminho? Bem, seria fácil e confortável concluir que sim, que foi ele apenas em razão de sua raiva incontida pelo sucesso de Jimmy, mas a grande verdade é que no mínimo há culpa concorrente ali e que, portanto, “nosso herói” está longe de ser o que gostaríamos que ele fosse.

Jimmy, por sua vez, além de repetir sua rotina de “fazer algo errado e pedir desculpas” com Chuck, a repete com Irene, deixando muito claro que ele também tem alguma forma de patologia, talvez até mesmo vício. Ao ver o que ele fez com a velhinha, Jimmy veste a roupagem de Saul, mas desta vez para tentar fazer o bem, armando uma armadilha para si próprio que resolve a situação por completo ao mesmo tempo que destrói suas chances de, quando encerrada a suspensão de seu direito de advogar, ele voltar à sua clientela de idosos. Estão abertas as portas para que Saul domine de vez sua personalidade.

Aliás, esse mesmo lado cheio de remorso de Jimmy é o que finalmente o faz ver que Kim, que quase morrera de tanto trabalhar, estava certa desde o começo. Manter o escritório naquelas condições é inviável e eles, então, trabalham para fazer um grande downsizing, mais um elemento que corrobora o futuro negócio de Saul Goodman.

Falando em Kim, é interessante ver como ela lida com seu acidente e como o roteiro aborda as pontas soltas de sua incapacidade momentânea de trabalhar por meio de diálogos em segundo plano e pelo telefone. Pode parecer uma conveniência narrativa daquela de coçar a cabeça, mas a verdade é que o roteiro de Gennifer Hutchison é inteligente e preciso, já que ela tem pouco tempo para lidar com tantos assuntos simultaneamente e precisava achar saídas originais para fechar a lógica do episódio.

Ao mesmo tempo, e aí pode ser que eu realmente esteja vendo coisa que não está lá, parece-me que a narrativa abre espaço para que Kim torne-se uma viciada ao correr logo para as drogas mais fortes para a dor oferecidas por Jimmy. Não que ela vá tornar-se uma viciada em cocaína ou heroína, mas sim em medicamentos viciantes como normalmente são os mais pesados para dor. Mas pode ser apenas viagem minha…

Do lado de Nacho e Hector Salamanca acontece o que parece ser o grande momento que esperávamos. Mas, como disse lá no começo, não devemos contar com isso completamente. Aqui, o destaque é muito mais para a cada vez melhor atuação de Michael Mando que consegue muito com muito pouco. Ele mostra hesitação, tensão, medo e um certo remorso com pequenas pistas corporais e um rosto muito expressivo que consegue se destacar até mesmo quando Mark Margolis dá suas impagáveis demonstrações de ódio e inimitáveis ataques de raiva, ocupando completamente a telinha no processo. Ficou claro que o sempre observador Gus Fring percebeu algo errado ali na história das pílulas e isso ainda pode ser explorado mais para a frente, até porque sua vontade de salvar Hector foi realmente genuína em razão de um plano certamente mais tenebroso de vingança que ele vem cozinhando.

Por último, vale abordar uma gigantesca ausência. Jonathan Banks e seu sempre excelente Mike Ehrmantraut não dão as caras no derradeiro episódio da temporada. Mas é por uma boa razão. Temos que convir que não havia mais história ali para ele e que o episódio já tinha linhas narrativas demais. Foi, portanto, uma escolha acertada de Hutchison que, com isso, ganhou mais tempo para explorar as agruras de Chuck em seu caminho sem volta e evitou o que considero o maior erro de Klick, que encerrou a temporada anterior: o desequilíbrio narrativo.

Lantern é, sem sombra de dúvidas, um grande encerramento de temporada, tão grande e tão bem estruturado que poderia até mesmo ser o encerramento da série como um todo. Mesmo não sendo esse o plano de Gilligan, há que se tirar o chapéu e reconhecer seu esforço em nos presentear com uma escultura quase que completamente pronta, sem defeitos e deslumbrante, uma obra-prima para todos os efeitos. Better Call Saul solidifica-se, sem dúvida alguma, como uma das melhores séries de TV hoje em andamento.

Better Call Saul – 3X10: Lantern (EUA, 19 de junho de 2017)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Peter Gould
Roteiro: Gennifer Hutchison
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty, Mel Rodriguez, Mark Proksch, Mark Margolis, Giancarlo Esposito, Steven Bauer, Ann Cusack, Lavell Crawford, Laura Fraser
Duração: 56 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.