Crítica | Better Call Saul – 4X01: Smoke

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Lantern, o último episódio da 3ª temporada de Better Call Saul, foi ao ar no final de junho de 2017 e, pouco mais de um ano depois, a nova temporada começa com Smoke. No entanto, como acontece com as melhores séries, parece que o intervalo foi muito maior do que os 13 meses e, assistindo o novo episódio, vê-se muito claramente a falta que uma série desse naipe faz. E olha que estamos vivendo a chamada Segunda Era de Ouro da Televisão, com uma oferta generosa de magníficas séries para gostos variados.

Mas o prelúdio de Breaking Bad, não me canso de afirmar, é algo realmente especial. Aquela proverbial obra fora da curva que merece ser sorvida com toda calma e vagar possível, em condições ideais de conforto e tranquilidade. Isso fica claro com o episódio de abertura da 4ª temporada que, seguindo o padrão estabelecido por Vince Gilligan, começa no presente, com uma sequência em preto e branco de mais de oito minutos que continua a narrativa que vimos em Mabel, quando testemunhamos “Gene” colapsar no chão da Cinnabon de Omaha, onde se esconde. O genial desse começo é que ele dá o tom para o episódio: Jimmy, que tem como dom o uso da palavra – para o bem ou para o mal – é, neste presente (ou futuro, dependendo do ponto temporal que você quiser considerar como ponto de partida), um homem com extremo receio de aparecer para o mundo, uma pessoa de cabelo ralo, que contrasta fortemente com a generosidade da cabeleira na linha temporal principal, algo que a câmera de Minkie Spiro faz questão de ressaltar, que tem pavor de ter conexões simples com qualquer um ao seu redor.

São oito minutos que contêm mais tensão do que muito filme de terror e suspense por aí e que a constrói com coisas triviais do dia-a-dia, começando pelo tratamento médico que ele recebe, com os vários exames que seguem ao seu desmaio e, principalmente, com sua interação com a atendente do balcão do hospital e, em seguida, no táxi de volta ao shopping. Falar é um esforço tremendo para “Gene” e a verificação de sua identidade é algo que, para ele, é excruciante, o mesmo valendo para a tensão criada no táxi quando ele constata que o motorista não só não para de olhar para ele pelo retrovisor, mas também tem um purificador de ar de Albuquerque, no Novo México. Mas Spiro, com base em roteiro do co-criador da série Peter Gould, não tem pressa, assim como Vince Gilligan não tem pressa nesta que cada vez mais considero sua obra máxima. A lentidão é da essência aqui e é impressionante como isso é bem utilizado nesse começo fenomenal.

No passado, os eventos também começam imediatamente depois do trágico fim de Chuck, que comete suicídio ateando fogo à sua casa depois de arrancar a fiação elétrica da parede ao final de Lantern. Sem recorrer a flashbacks, temos uma despedida digna para o incrível trabalho de Michael McKean, com Jimmy primeiro recebendo em off a notícia do que ocorreu por Howard e, depois, lidando com isso. Sua reação? O silêncio quase absoluto, em um evidente reflexo de seu “Gene” do futuro que vemos no prólogo. Mas, aqui, claro, não se trata de um silêncio movido pelo medo ou pela paranoia. Esse outro silêncio é diferente e, diria, bem mais complexo.

Jimmy McGill sabe o que fez com o irmão. Todos lembrarão que Gilligan moldou um Chuck vilanesco para que nós nos refestelássemos com seu desmascaramento por Jimmy em Chicanery, um dos melhores episódios da série até agora. O brilhante advogado foi desnudado, assim como sua mesquinhez em relação ao irmão mais novo. No entanto, isso não era suficiente e Gilligan, espertamente, começa a virar o jogo narrativo, para relativizar a vilania de Chuck, algo em que ele é também bem-sucedido. Afinal, conhecemos o Saul de Breaking Bad e Jimmy por vezes revela sua verdadeira natureza e sabemos que ele está longe de ser flor que se cheire. Essa vingança final de Jimmy é que leva ao fim da sociedade de Chuck com Howard e, lógico, sua queda ao inferno e suicídio.

Portanto, o silêncio de Jimmy, que poderia ser encarado como um silêncio de pesar combinado com um silêncio oriundo de um profundo sentimento de culpa, é mais do que isso. Creio que não haja dúvidas do quão genuína é a surpresa e a tristeza de Jimmy, mas, mesmo que ele não reconheça, a pessoa mais importante para Jimmy é Jimmy. Isso quer dizer que a culpa pela morte do irmão, que pesa sobre seus ombros, é o fator que realmente o afeta e, tenho para mim – é a leitura que faço, pelo menos – que o silêncio dele é uma combinação de tudo o que mencionei com a maquinação interna sobre como ele poderia “afastar-se desse cálice”.

Toda a fotografia fria e soturna – não necessariamente sombria, vejam bem – destas sequências do episódio tem função dupla aqui. A primeira e óbvia é lidar com a morte e as consequências para todos aqueles tocados por ela, notadamente Howard, Jimmy e Kim, esta última ainda toda machucada em razão de seu acidente. Mas a segunda função é mais importante: vemos uma espécie de representação visual da mente de Jimmy trabalhando por trás de seu silêncio em tese apenas pesaroso. É um tema pesado e, sobretudo, gélido em sua calma para construir uma forma de Jimmy “sair dessa” convencido de que não teve nada a ver com a morte do irmão. Sim, ele é um homem inteligente e sim, ele sabe que essa culpa é inafastável, mas é aquela velha história de que uma mentira contada muitas vezes convence até o mentiroso de que é verdade.

Quando Howard, externamente arrasado pelo ocorrido, vem confessar sua culpa pelo que ele tem certeza foi um suicídio, a reação automática de Jimmy é de aceitar essa confissão. Sim, a culpa é de Howard. Ele mesmo disse, afinal. Portanto, não pode ser culpa de mais ninguém, muito menos do irmão caçula, não é mesmo? Ao dizer de chofre para Howard que essa cruz ele (Howard) terá que carregar, temos um momento breve de humor negro que realmente é capaz de pegar o espectador de surpresa, causando desconforto. É uma genuína cena inesperada daquelas que nos faz repensar todo o ocorrido e concluir aquilo que abordei sobre o silêncio de Jimmy. Ele achou seu bode expiatório e pronto, tudo resolvido. Hora de tomar um café.

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Nossa, acabei de reler o que escrevi até agora e só falei de Jimmy… Há outras duas linhas narrativas no episódio que inadvertidamente joguei para escanteio. Mas é que realmente fiquei extasiado pela abordagem da morte de Chuck pelo maquiavélico Vince Gilligan…

(…)

Não posso, porém, deixar de abordar os demais eventos de Smoke, eventos esses que armam mais claramente o porvir do lado “cartel de drogas” da história, aproximando-nos de Breaking Bad. Também começando a partir de acontecimento quase mortal de Lantern, em que vemos Nacho causar um derrame em Hector por trocar suas pílulas do coração por placebo, roubando Gus de sua detalhada vingança, vemos alguns breves desdobramentos. Fica evidente aquilo que havia sido deixado nas entrelinhas: Gus desconfia de Nacho, que passa a ser seguido por um de seus capangas depois que ele é relutantemente empossado como o “chefe” da parcela Salamanca da estrutura do tráfico. Esse fio narrativo tem enorme e destrutivo potencial para frente, notadamente em relação ao próprio Nacho, claro, com Michael Mando continuamente provando-se um ator repleto de nuances.

Do lado de Mike, o foco é em sua vida doméstica agora que ele largou seu emprego em razão dos cheques da Madrigal oriundos da lavagem de dinheiro armada por Gus. Se sua relação com sua netinha aquece o coração, sua impaciência com uma vida quieta o leva a enfronhar-se na empresa que lava seu dinheiro em uma daquelas sequências que já se tornaram marcas registradas de Gilligan em relação ao personagem. Assim como em Witness, que coloca Mike meticulosamente às voltas do rastreador de Gus, vemos o personagem metodicamente imiscuindo-se na Madrigal em sequências hilárias diante da facilidade e naturalidade em tudo o que ele faz, especialmente ao dar pitaco na conversa entre dois funcionários sobre quem ganharia uma luta, Muhammad Ali ou Bruce Lee (e concordo com a conclusão de Mike, já adianto) e ao chamar a atenção de funcionários que estão levantando peso sem cinto de postura. Aqui também vemos uma “ponta narrativa” para ganhar desenvolvimento ao longo da temporada, algo que fatalmente aproximará Mike ainda mais de Gus.

De toda forma, ainda que necessários, essas duas histórias paralelas quebram ligeiramente o ritmo da história de Jimmy, que exige, digamos assim, silêncio e meditação. Não havia como o roteiro de Gould fugir de algo assim, admito, mas confesso que o episódio – que, apesar do passo lento, passou como se tivesse 15 minutos – talvez tivesse se beneficiado de foco exclusivo no protagonista. Se Mike pode ser eliminado da narrativa em Lantern, não vejo porque o mesmo não poderia acontecer com ele e com Nacho aqui.

Mas Smoke é, não tenho dúvida, um excelente começo para o que promete ser mais uma incrível temporada nessa jornada de transformação de Jimmy em Saul. A morte de Chuck, claro, será o pivô da mudança, mas ainda há outras peças para serem reveladas nesse quebra-cabeças minucioso e fascinante de Gilligan. Só nos resta esperar com ansiedade, mas, também, paradoxalmente, muita paciência, para que tudo se encaixe à perfeição.

Better Call Saul – 4X01: Smoke (EUA, 06 de agosto de 2018)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Minkie Spiro
Roteiro: Peter Gould
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Giancarlo Esposito, Ed Begley Jr., Javier Grajeda, Kerry Condon, Ann Cusack, Dennis Boutsikaris, Jordan Lage, Jeremiah Bitsui, Vincent Fuentes, Ericka Kreutz
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.