Crítica | Better Call Saul – 4X02: Breathe

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Se Better Call Saul recomeçou com um episódio de queima lenta que, em sua cadência e em seu silêncio, substancialmente tinha o condão de homenagear Chuck e, por tabela, claro, a incrível atuação de Michael McKean nas temporadas anteriores, Breathe vem acelerar o ritmo e colocar em efetivo movimento as maiores peças desse tabuleiro que transformará Jimmy em Saul. Não que Breathe seja um episódio particularmente movimentado ou cheio de ação, pois esse não é o estilo da série, mas, aqui, o silêncio abre espaço para incríveis e explosivos monólogos e, claro, um momento sombrio, daqueles de arrepiar os cabelos da nuca.

Começando pelas sequências em menor conformidade com o todo, cabe dizer que a narrativa solitária de Mike Ehrmantraut em sua tentativa enviesada de conseguir um emprego na mesma empresa que lava seu dinheiro é o ponto fora do curva do episódio. São momentos breves que avançam lateral e vagarosamente essa sub-trama e que trazem de volta Laura Fraser como Lydia Rodarte-Quayle, personagem de Breaking Bad que já havia dado as caras na 3ª temporada. No processo, porém, apesar da belíssima fotografia que enfatiza o vazio e imponência da enorme sala de reunião alugada pela Madrigal com uma câmera muito bem posicionada primeiro na cabeceira oposta da mesa e, depois, levemente acima e na diagonal dos personagens, diminuindo-os e ao mesmo tempo enfatizando-os no breve embate, é inegável que há uma quebra do ritmo que já havia sido imposto desde o começo do episódio. É quase como ver um lindo intervalo comercial que se irrompe no meio de acontecimentos importantes de seu filme favorito.

Meu receio, aqui, é que a história de Mike torne-se genérica, presente unicamente para fortalecera conexão com a série original, algo que, a essa altura, muito sinceramente, é absolutamente desnecessário. Claro que, ao final do episódio, fica a promessa da reaproximação de Mike a Jimmy (Saul, na verdade) em alguma trama envolvendo aquelas horrendas esculturas de cerâmica, mas o envolvimento da Madrigal, pelo menos até agora, não foi plenamente justificado além do easter-egg bacana, mas desnecessário. E que fique claro: da última vez que duvidei de Vince Gilligan, quebrei a cara completamente e eu sei que isso acontecerá novamente. Mas sou um escravo das circunstâncias…

A grande verdade, porém, é que tudo envolvendo Mike é um pequeno detalhe em Breathe, diante dos presentes que recebemos do roteiro de Thomas Schnauz e da direção da sensacional e premiadíssima Michelle MacLaren. E, assim como no caso dos Reis Magos, são três os presentes que recebemos e todos eles valiosos e inesquecíveis.

O primeiro deles são os quase 10 minutos em que vemos Jimmy vender-se a uma empresa que fabrica fotocopiadoras. Deixando Kim bem cedo para procurar emprego, ele procura uma colocação de vendedor na empresa, localizada embaixo de um deprimente viaduto, e precisa convencer o diretor a contratá-lo mesmo que ele não tenha experiência alguma em vendas. Se o primeiro monólogo dele já é incrível, o segundo, depois de alguns momentos de hesitação sobre voltar ou não para tentar novamente, é um primor de texto e de atuação por Bob Odenkirk. Não há pressa desde o início, com a câmera primeiro acompanhando Jimmy entrando no escritório e mostrando seu conhecimento sobre fotocopiadoras. Os travellings tranquilos de MacLaren nos colocam na pele de Jimmy e nos fazem compadecer e torcer por ele a cada segundo, inclusive quando a tal estatueta de cerâmica o faz lembrar das senhorinhas que ele atendia como advogado no que parece ser um passado longínquo agora. Quando ele senta para “vender-se”, ficamos extasiados com sua demonstração absoluta de controle. Ele é o senhor da situação. Mas isso não é suficiente para a contratação, o que exige uma nova carga, uma última e desesperada tentativa de pegar essa chance. Vibramos com a presença magnética de Jimmy e com cada palavra que sai de sua boca. Somos convencidos absolutamente de sua argumentação e, puxando nosso tapete sem dó nem piedade, o roteiro traz uma reviravolta em que Jimmy, depois de ser bem-sucedido, diz que não quer mais e ainda termina tudo chamando a dupla de “otários”.

É para aplaudir de pé, não tenham dúvida. Mas fica a pergunta: o que diabos foi isso? E eu não tenho uma resposta. Foi algo de momento ou planejado? Jimmy fez a mesma coisa nas demais entrevistas? Será que é uma espécie de auto-flagelação ou ele tem um motivo golpista por trás? Ou, resumindo, aquele ali que vimos falar por 10 minutos é Jimmy ou Saul? A conexão que será refeita entre Jimmy e Mike provavelmente responderá pelo menos parcialmente a pergunta e teremos que esperar para ver.

O outro grande momento do episódio, bem mais breve que o de Jimmy, foi quando Kim explode no escritório de Howard e, ato contínuo, o destrói completamente, em uma defesa realmente apaixonada de Jimmy. Toda aquela reserva de Kim no episódio anterior e também durante grande parte deste acaba aqui. Vemos, no momento em que as veias de seu pescoço saltam nervosamente para fora, que ela protegerá Jimmy com sua vida se necessário for, enfrentando quem quer que seja. Rhea Seehorn não tem mais do que alguns segundos, mas ela faz mais aqui do que muita atriz não consegue fazer em duas horas. Mas essa paixão toda que ela demonstra me leva a uma outra pergunta (hoje estou cheio delas…): será que Jimmy sente o mesmo e com a mesma intensidade por ela? Temos que considerar que aquele Jimmy lá do começo da série não existe mais e que estamos em um momento da narrativa em que, propositalmente, não temos mais certeza qual é a personalidade dominante naquela mente brilhante, mas perturbada. Jimmy até pode ser apaixonado loucamente por Kim, mas será que Saul é? E mais: será que não será a partir desse eventual abismo que existe entre Jimmy/Saul e Kim que a personalidade malandra de Saul será fixada em seu inconsciente? Novamente, não tenho respostas…

Finalmente, há o momento sombrio. Ao longo de todo o episódio, vemos a raiva de Gus por não ter podido vingar-se de Hector Salamanca de seu próprio jeito. Nacho roubou-lhe essa oportunidade. Mas Gus não desiste fácil e faz das tripas coração para trazer Hector do coma, contratando, indiretamente, uma especialista do renomado hospital Johns Hopkins só para cuidar do velho traficante e futuro tocador de campainha. Isso mostra o quanto ele é obsessivo e rancoroso, algo que, no ritmo tranquilo, mas certeiro do episódio nos leva ao momento de sua própria explosão, quando ele arregaça as mangas, mata Arturo de forma horrível em frente a Nacho, revelando que ele sabe o que Nacho fez e que, agora, o assustado Salamanca trabalha para Fring. Como na sequência de Mike na sala de reunião, MacLaren posiciona sua câmera de forma a fazer o melhor uso do espaço, primeiro com close-up em Arturo se debatendo, algo que eleva a tensão absurdamente, depois focando em Nacho completamente apavorado em mais um excelente e silencioso trabalho de Michael Mando e, finalmente, com a câmera no chão, foca em um “gigantesco” Gus que parece falar com aquela voz deformada do Batman de Nolan, em segundos que lembram, de longe, o famoso momento I am the one who knocks, de Heisemberg. É de congelar o sangue a nota com que o episódio é encerrado.

Breathe não nos deixa respirar (não resisti ao trocadilho) e mostra a força que um ótimo roteiro pode ter nas mãos de um elenco afinadíssimo. Quando ficamos extasiados com uma mera entrevista de emprego, sabemos que não estamos diante de algo ordinário. Better Call Saul continua seu certeiro caminho para garantir seu lugar no panteão das séries de TV.

Better Call Saul – 4X02: Breathe (EUA, 13 de agosto de 2018)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Michelle MacLaren
Roteiro: Thomas Schnauz
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Giancarlo Esposito, Ed Begley Jr., Javier Grajeda, Kerry Condon, Ann Cusack, Dennis Boutsikaris, Jordan Lage, Jeremiah Bitsui, Vincent Fuentes, Ericka Kreutz, Laura Fraser
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.