Crítica | Better Call Saul – 4X03: Something Beautiful

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Eu simplesmente adoro as sequências de preparação ou execução de planos mirabolantes em Better Call Saul. Invariavelmente, são momentos silenciosos em que o diálogo praticamente inexiste, abrindo espaço para que a fotografia brilhe completamente, especialmente quando, como é o caso do início de Something Beautiful, a cena se passa em lugares abertos. É como ver um poema audiovisual. Um poema violento, sem dúvida, mas, mesmo assim, um poema que tem a capacidade, ainda, de ser funcional para o episódio em si e para a trama em geral.

O plano mirabolante da vez é a forma como os capangas de Gus encontram para livrarem-se do corpo de Arturo, morto no chocante final de Breathe. Certamente havia outras maneiras de se fazer isso, mas havia um objetivo duplo, ou seja, usar o corpo de um soldado do lado Salamanca do tráfico para instigar a desconfiança de Bolsa e abrir espaço para Gus introduzir sua própria droga made in America. São os primeiros passos para a já familiar linha narrativa de Breaking Bad, com a apresentação breve de um personagem “do futuro”, o químico Gale Boetticher (David Costabile em uma hilária ponta em que ele aparece cantando uma canção sobre a tabela periódica como se fosse o hit do momento).

Mas, voltando à lenta preparação inicial, é muito interessante ver como Gus não se importa em eventualmente perder Nacho, já que, mesmo tendo-o cooptado à força para seu lado como um espião, ele, por intermédio de seus executores, não hesita em baleá-lo na barriga, em uma reviravolta surpresa para o que seria um plano posto em prática em situação razoavelmente controlada, talvez como um terceiro objetivo do plano, de dar uma lição realmente inesquecível no coitado. Aliás, o roteiro de Gordon Smith maneja muito bem o destino de Nacho, fazendo-o literalmente resvalar muito brevemente com o do próprio Jimmy, quando o futuro Saul (ou ele já é Saul, mas sem saber…) esbarra em um dos primos mal-encarados ao sair do consultório do Dr. Caldera, o veterinário faz-tudo que Jimmy usara para estabelecer conexão com outro personagem “do futuro”, desta feita Ira (Franc Ross), da Vamonos Pest.

Creio, porém, que a costura parará por aí, já que a história de Nacho parece caminhar fundamentalmente com suas próprias – e trágicas – pernas, com pouca necessidade de ligação direta com a de Jimmy. Em uma série menos eficiente, isso seria um defeito, já que a desconexão, em princípio, não é a melhor técnica narrativa, mas há um plano maior em andamento que exige a queima-lenta, bastando a impressão de que esse submundo ali de Albuquerque está efetivamente conectado, algo que ganha mais um elemento com a execução do plano de Jimmy por Ira que, claro, não é assim tão fácil como antevisto.

Se há uma linha narrativa que ainda não mostrou a que veio nesta temporada foi a de Mike, mesmo que vê-lo juntamente com Jimmy mais uma vez seja sempre um prazer. A breve interação, que serve para nos explicar sobre o plano de Jimmy de roubar aquela estatueta tenebrosa de cerâmica, é ao mesmo tempo engraçada diante da recusa de Mike de abraçar um “plano tão perfeito” e marcante, de certa forma estabelecendo a tragédia de toda a situação. Mike não é exatamente um bandido. Ele não tem interesse algum em envolver-se de cabeça em um projeto que lhe renderá 4 mil dólares, por mais fácil que seja. Jimmy, mesmo com problemas de dinheiro, parece ter como motivação mais do que apenas pagar seu cartão de crédito. Jimmy parece um viciado em jogo (ou qualquer outro vício, lógico) que simplesmente não reconhece seu problema. Já havia ficado evidente que ele conseguiria qualquer emprego honesto que realmente quisesse, mas sua antiga persona golpista Jimmy Sabonete fala mais alto, só que cada vez mais claramente tornando-se Saul Goodman, que nada mais é do que Jimmy Sabonete sem freios, sem âncora moral, sem sentimentos.

Falando em sentimentos, Something Beautiful reúne, em uma sequência só, o que de melhor a série tem e que já havia sido usado separadamente em Breathe. Falo da sequência da leitura da carta que Chuck deixara para Jimmy, claro. Se vimos Rhea Seehorn explodir como Kim Wexler e Bob Odenkirk discursar como Jimmy para construir uma forte auto-defesa em sua busca por emprego no episódio anterior, aqui vemos uma Kim “implodindo”, engolindo suas emoções à flor da pele – isso depois da sequência na Mesa Verde, em que ela percebe que as tarefas à sua frente são hercúleas e, francamente, impossíveis para uma advogada só – e um Jimmy frio, desapaixonado, que destrói a carta de Chuck apenas lendo-a da pior maneira possível. Sem flexionar palavras, mencionado o início de parágrafos como se estivesse ditando, qualquer traço de emoção que Chuck quis passar (pouca emoção, que fique claro, mas, mesmo assim, presente) é defenestrada. Kim, porém, captura a intenção de Chuck e comove-se, mas, mais do que isso, percebe que Jimmy está se tornando um ser irreconhecível, de coração de pedra. Pode ser apenas a forma que Jimmy encontrou para lidar com sua culpa – convenientemente “passada” para Howard, claro -, mas Kim talvez não consiga ver isso e, de sua maneira, começa a erigir uma parede protetora ao seu redor, algo que pode ser visto com a delicada sequência em que ela deixa a porta do quarto entreaberta.

Something Beautiful é literalmente o seu título, “algo lindo”. Mais um excelente episódio de Better Call Saul que, mesmo com um roteiro funcional, que efetivamente expande e avança a narrativa de maneira prática, além de trazer mais easter-eggs de Breaking Bad, consegue manter-se artisticamente íntegro.

Better Call Saul – 4X03: Something Beautiful (EUA, 20 de agosto de 2018)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Daniel Sackheim
Roteiro: Gordon Smith
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Giancarlo Esposito, Ed Begley Jr., Javier Grajeda, Kerry Condon, Ann Cusack, Dennis Boutsikaris, Jordan Lage, Jeremiah Bitsui, Vincent Fuentes, Ericka Kreutz, Laura Fraser, David Costabile
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 42 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.