Crítica | Better Call Saul – 4X04: Talk

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Volta e meia eu me pego duvidando de Better Call Saul. Duvidando sobre como Vince Gilligan conseguirá contar a “história de origem” de Saul Goodman, de como ele tornará relevante cada linha narrativa, de como cada detalhe de cada episódio tem razão de ser diante do todo. Invariavelmente, porém, acabo quebrando a cara e sorrindo diante de minha teimosia e pouca visão.

Talk foi mais um exemplo desses meus indesculpáveis arroubos de incredulidade sobre o trabalho do showrunner, algo que simplesmente não deveria mais acontecer a essa altura do campeonato. E, aqui, foi por uma besteira, uma provável implicância que eu tenho cultivado sobre o arco de Mike na temporada, algo amplificado imediatamente pela sequência pré-créditos iniciais em que vemos Mike, bem mais jovem, calmamente construindo um bloco de cimento para que seu filho Matty possa assiná-lo. Do flashback, pulamos para segundos no grupo de auto-ajuda de que Mike participa que eu imediatamente etiquetei como desconexa e sem sentido. Seria Gilligan querendo martelar Mike na história de algum jeito ao ponto de ele ter recorrido a algo assim? Uma espécie de desespero para abordar seus personagens de forma equânime mesmo que isso sacrifique a impressão de conjunto?

Fiquei incomodado de verdade, especialmente porque a sequência seguinte foca no começo da armação da armadilha de Gus para seus concorrentes, os Espinosa, como parte de sua estratégia de dominação do tráfico local, por sua vez seguida de Jimmy acordando com uma ligação da CC Mobile oferecendo-lhe emprego. Na medida em que o episódio caminhava, porém, a compreensão de que Better Call Saul é mais do que a origem de Saul Goodman retornou e tudo efetivamente começou a entrar nos eixos, com um absolutamente espetacular “tapa na cara dos incrédulos” (confesso que cheguei a ficar com o rosto inchado…) quando o arco de Mike na sessão de auto-ajuda é encerrado e compreendemos que o prólogo nada mais era do que um flashfoward que nos mostrava o que ele estava pensando quando Stacey fala que está esquecendo Matty, seguido de seu enfrentamento do pobre Henry, um turista por ali que, assim como o Narrador e Marla em Clube da Luta, encontra algum tipo de compensação para seus próprios e inauditos problemas. Mike certamente arriscou afastar-se de sua nora, neta e também de Anita, o que pode retirar-lhe as únicas coisas realmente boas de sua vida, terminando por enrijecer seu já petrificado coração.

De toda forma, o final anti-climático, com corte seco, devolve o policial aposentado ao seio da ação, com a promessa de algum trabalho que provavelmente envolverá Nacho na outra ponta de uma pistola. No entanto, Mike sempre pareceu ser alguém acima disso, acima de ser um mero capacho de Gus, e o fim de Nacho certamente ganhará complicações potencialmente muito interessantes, isso, claro, se ele realmente tiver um fim, já que, mesmo não aparecendo em Breaking Bad, isso não é garantia de que ele morrerá, especialmente pelas mãos de Mike.

Falando em Nacho, Michael Mando conseguiu de vez transformar seu personagem em alguém por quem torcemos desesperadamente. De certa forma, ele é o equivalente à Kim do lado Jimmy da narrativa: um homem essencialmente bom, que quer ajudar os outros, mas que não consegue fugir de um certo dirigismo social. Nós o vemos enganar os irmãos Exterminadores do Futuro, fazendo-os chacinar os Espinosa em uma excelente sequência substancialmente off camera que me fez lembrar o morticínio perpetrado por Lorne Malvo no episódio 7 da 1ª temporada de Fargo, mas Nacho não não se faz de rogado e, mesmo todo arrebentado, sacrifica-se para ajudá-los e, mais tarde, sela seu destino ao enfrentar Gus verbalmente, o que provavelmente leva o grande vilão a convocar Mike.

Se Nacho parece cansado de fugir, Kim parece completamente perdida, agora que ela finalmente entendeu que sua auto-imposta missão de “salvar” Jimmy não vai para frente. Sem conseguir sentir-se relevante, ela vaga pelo tribunal em busca de propósito, com um juiz que a conhece (vivido por Ethan Phillips) servindo como o psicólogo que ela mesmo sugerira a Jimmy horas antes e cujo aconselhamento ela reage exatamente como Jimmy, ignorando-o completamente. Se Jimmy não tem salvação – até porque já não vejo muitos traços do velho Jimmy em Jimmy… – Kim também parece não ter, o que certamente ameaçará a conta de seu cliente Mesa Verde e, lógico seu relacionamento pessoal. O castelo de cartas da vida a dois começa a ruir de verdade e é doloroso ver isso acontecer de maneira tão crível e lógica, com o roteiro de Heather Marion (do espetacular Slip) “comendo pelas beiradas” e fugindo inteligentemente do didatismo mesmo quando o juiz confronta Kim.

E, curiosamente com menos destaque do que se poderia imaginar, temos a continuidade da narrativa de Jimmy que só aceita o tal emprego da CC Mobile – depois de rejeitá-lo de pronto – para esquivar-se do psicólogo sugerido por Kim, ou seja, para fugir de ter que encarar de frente seus problemas e continuar caminhando para o inevitável e possivelmente aconchegante abraço sem culpa e sem responsabilidade de Saul. Mas o mais curioso – e genial – é como o roteiro usa o tédio de Jimmy na loja como arma para que ele desça mais um degrau. Ao decidir esquentar os negócios da loja pintando a fachada com uma mensagem “cifrada” para bandidos (basicamente um “compre aqui seu celular para cometer crime e jogar fora em seguida”), ele próprio, talvez ainda inconscientemente, esteja armando seu futuro.

Se eu voltarei a duvidar de Gilligan? Certamente. Mas já de antemão afirmo que será um exercício em futilidade que me levará a novamente “pedir desculpas”. Mas sabe de uma coisa? Isso simplesmente não importa. O que interessa é o quanto cada tela preta ao final de 40 e poucos minutos – que parecem 15 – me deixa entristecido por estarmos mais um episódio próximo do fim.

Better Call Saul – 4X04: Talk (EUA, 27 de agosto de 2018)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: John Shiban
Roteiro: Heather Marion
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Giancarlo Esposito, Ed Begley Jr., Javier Grajeda, Kerry Condon, Ann Cusack, Dennis Boutsikaris, Jordan Lage, Jeremiah Bitsui, Vincent Fuentes, Ericka Kreutz, Laura Fraser, David Costabile, Ethan Phillips
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.