Crítica | Better Call Saul – 4X06: Piñata

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

De todos os espetaculares episódios desta quarta temporada de Better Call Saul, Piñata é o primeiro destaque negativo. Mas deixe-me esclarecer: negativo, no conjunto da obra apresentada até aqui, não significa ruim ou mesmo apenas bom. Trata-se de um episódio ainda muito bom, mas que não alcança o patamar dos anteriores por talvez tentar lidar com muita coisa ao mesmo tempo, da narrativa principal de Jimmy às voltas com seu negócio paralelo de celulares burners até a relação de Mike com sua nora, passando por mais uma demonstração de calma e rancor extremo de Gus por Hector Salamanca.

É, para todos os efeitos, um episódio de característica mais funcional, que reúne as pontas narrativas e as avança cada uma um pouco de forma quase igualitária, de maneira a começar a preparar o final (sim, estamos já a apenas quatro episódios do final da temporada!). Claro que o destaque fica por conta do relacionamento entre Jimmy e Kim, com a interessante revelação de que Jimmy ainda realmente sonha em um escritório em sociedade com sua namorada. Também é interessante a reação de Kim a isso, quando acha o bloco em cima de um Jimmy adormecido e vê suas anotações e desenhos de uma futura prática advocatícia. Seu rosto é críptico nesse momento, deixando entrever até uma certa pena por Jimmy ainda pensar assim. Quando, na manhã seguinte, ele confessa que não procurou o psicólogo que ela sugerira – sem dizer que foi em reação ao estado de Howard no banheiro do tribunal -, Kim parece tomar uma decisão por trás de seu rosto impassível, uma decisão que olha somente para ela, já que, talvez, suas esperanças sobre Jimmy tenham terminado de esvair-se bem nesse momento.

Ao procurar, propor e conseguir sociedade no escritório Schweikart and Cokely, Kim tem como objetivo abrir espaço para sua verdadeira paixão: o trabalho voluntário no tribunal, pegando os casos que a Defensoria Pública não tem tempo para lidar. Para ela, Mesa Verde não é suficiente, mas sua ética também a impede de abandonar o cliente. Ao levar sua prática para um escritório com estrutura, ela ganhará tempo para trabalhar naquilo que efetivamente lhe dá prazer. A reação de Jimmy a essa revelação – no mesmo restaurante em que os dois já deram pequenos golpes – é forte e aparentemente genuína, certamente muito mais grave e profunda do que ele sentiu após o suicídio do irmão (ainda que, nesse caso, Jimmy, suspeito, esteja conscientemente reprimindo seus sentimentos e alegoricamente jogando a culpa em Howard). Apesar de ele aceitar a decisão de Kim, fica evidente que seu último raio de esperança para um futuro legítimo despareceu.

Mas será mesmo que Jimmy queria esse futuro legítimo? Sabemos que, mesmo quando está por cima, Jimmy não resiste em voltar para o seu jeito antigo de agir, para sua persona de Jimmy Sabonete, praticando pequenos golpes. O prazer que ele sentiu no episódio anterior com a venda de seus burners, mesmo considerando o final menos do que ideal, é algo que ele não pode evitar, que ele realmente precisa para ser completo. Ele jamais seria “apenas” um advogado trabalhando com falência como ele dá a entender em suas anotações no bloco amarelo, mesmo que recomeçasse dessa forma. Em algum momento ele deixaria seu trabalho ser contaminado com sua persona que está cada vez mais à tona.

Portanto, sua volta ao projeto de venda de celulares, que acontece em seguida, após novamente vermos Howard se auto-destruindo, era algo que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Mas, aqui, a motivação pode ser dupla. Primeiro o prazer de fazer o que ele faz e, depois, a tentativa de conseguir dinheiro suficiente para, mais para a frente, tentar novamente atrair Kim para uma sociedade com ele. Ainda que o futuro que Vince Gilligan esteja pintando para os dois não seja iluminado – a não ser que ele esteja reservando uma surpresa para nós – esse desejo de Jimmy ter algo pelo menos minimamente legítimo quando puder voltar a advogar é o que ainda o separa de Saul Goodman.

Falando em Saul, é claro que a “estratégia” que dá nome ao episódio é todinha dele, quando vemos Jimmy aproximar-se dos malandros que o roubaram ao final de Quite a Ride. A fotografia noturna nesse segmento é sensacional, mantendo em destaque as cores da “roupa de corrida” de Jimmy e, depois, o galpão de piñatas onde os garotos são pendurados de cabeça para baixo, com a filmagem desnorteando-nos com a alternância de pontos-de-vista. É um daqueles “momentos Gilligan” impagáveis.

Mas outro “momento Gilligan” que merece destaque é o da imensa operação de Mike e Gus com os trabalhadores alemães, quase que criando uma cidade secreta para eles naquele armazém, com direito a casas pré-fabricadas, cinema, quadra de futebol, bar e tudo mais. A marca registrada da calma na construção da “ação” é de se aplaudir, com Mike já identificando aquele que será um muito em breve um problema que ele terá que resolver.

Se o episódio tivesse alternado entre esses dois núcleos apenas, acho que ele teria sido potencialmente perfeito, mas o endereçamento de outras pequenas questões, como o flashback para 1993, com Jimmy fingindo não saber nada de Direito, mas secretamente estudando, Jimmy encontrando-se com Howard, Mike com sua nora, a conversa de Jimmy com o filho da senhorinha e Gus contando seu passado a um Hector em coma (destaque para a mão do “ding, ding, ding”), acaba retirando o foco e quebrando o ritmo das narrativas principais. Como disse no começo, não é algo mortal ou particularmente problemático, já que cada sequência é muito bem feita, mas sim apenas uma constatação. Foi uma escolha deliberada de Gilligan para não deixar de impulsionar suas diversas pontas narrativas, mesmo que ele tenha mantido Nacho longe dessa equação pela segunda vez seguida, provavelmente em preparação para algo grande com o personagem.

Piñata é  mais um grande episódio de Better Call Saul. Só não é tão grande quanto os que o precederam. Gilligan não acerta na mosca sempre. Às vezes, ele erra o alvo por alguns milímetros…

Better Call Saul – 4X06: Piñata (EUA, 10 de setembro de 2018)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Andrew Stanton
Roteiro: Gennifer Hutchison
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Giancarlo Esposito, Ed Begley Jr., Javier Grajeda, Kerry Condon, Ann Cusack, Dennis Boutsikaris, Jordan Lage, Jeremiah Bitsui, Vincent Fuentes, Ericka Kreutz, Laura Fraser, David Costabile, Ethan Phillips
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 47 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.