Crítica | Better Call Saul – 4X07: Something Stupid

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Chegamos ao episódio da “passagem temporal” que avança a trama para meses a frente tendo como foco primordial o desaquecimento da relação entre Jimmy e Kim. No lugar de criar algo bombástico para separar os dois, Vince Gilligan nos carrega pelas dores mundanas de um relacionamento em que as partes vão se afastando naturalmente, pelos vários percalços que a vida coloca à frente deles.

Para executar o pulo necessário e ao mesmo tempo simbolizar a divisão do casal, a direção de Deborah Chow (estreante na série) usa o batido recurso da tela dividida, mas emprestando ares de originalidade, com as metades por várias vezes se comunicando. Mas, sobretudo, ela usa o vazio para segregar Jimmy e Kim, o primeiro focado em seu negócio paralelo de venda de celular para marginais e, a segunda, mergulhando cada vez mais em seus trabalhos como sócia de um escritório tendo o Mesa Verde como cliente principal de sua prática e fazendo as vezes de defensora pública pro bono. Ambos estão “divididos” no que fazem. Existe o Jimmy ainda esperançoso em ter um escritório com Kim e o Saul malandro agulha fazendo o que for necessário para tornar o sonho de Jimmy uma realidade. Kim, por sua vez, parece usar o Mesa Verde para proporcionar-lhe o trabalho gratuito, que talvez seja, agora, a única fonte de verdadeiro prazer em sua vida.

O Saul Goodman do cartão de visitas, vale deixar bem claro, ainda não é o mesmo Saul Goodman dos ternos e gravatas espalhafatosos do “futuro”, mas sim uma versão prototípica dele, uma capaz de estragar a festa do escritório de Kim apenas por ciúmes, mas ainda bem aquém do que ele se tornaria. Sim, é bem verdade que talvez seja uma filigrana, um detalhe que separa um Saul do outro, mas o roteiro de Alison Tatlock (também em seu primeiro trabalho em BCS) deixa bem claro que esse Saul que vemos tem o propósito de usar a malandragem para alcançar um objetivo nobre. Se os meios justificam os fins, fica para o espectador decidir, pois a narrativa anda de maneira muito equilibrada na corda bamba entre o certo e o errado, colocando Huell como centro da fúria de uma promotora pública com sangue nos olhos, o que precipita a revelação do trampo paralelo de Jimmy à Kim que, por sua vez, recebe a notícia de maneira fria, distante, reiterando a linha que divide a tela na montagem do prólogo.

É também interessante ver como, mesmo tão próximo de ter de volta o direito de advogar, Jimmy continua maquinando golpes jurídicos para obter a absolvição de seu guarda-costas – e talvez único amigo -, o que inclui armar para o policial que foi agredido com um sacola de sanduíches. Da mesma maneira, ao oferecer ajuda a Kim seguindo sua linha menos do que ética (só para usar um eufemismo), ela lida com a sugestão sem mudar sua expressão facial, realmente descartando Jimmy como alguém que mais atrapalha do que ajuda, alguém cuja presença em sua vida não parece mais ter uma justificativa.

O salto temporal também beneficia a construção do laboratório subterrâneo que um dia será usado por Walter White e Jesse Pinkman. Quando a mecânica de transporte dos trabalhadores alemães é revelada, vemos um espelhamento neles do tipo de apatia que se abateu sobre o relacionamento de Kim e Jimmy. Sem poder sequer ver o céu e respirar ar que não seja refrigerado, eles parecem mortos-vivos seguindo uma rotina entediante e estressante. Até a paleta de cores ganha um esmaecimento que combina com o espírito cansado deles. Por outro lado, a promessa de encrenca vinda da reação rebelde inicial de Kai no episódio anterior não se realiza, pelo menos não como imaginávamos. Ele continua sendo o estourado do grupo, o único com um semblante de personalidade, mas Mike ainda não aplicou nenhum tipo de corretivo no rapaz, algo que ainda pode acontecer, mas que, depois de todos esses meses de tolerância, poderá parecer tarde demais.

Da mesma forma, a passagem de tempo permite que testemunhemos talvez o mais sinistro momento de toda a série (e até de Breaking Bad) até agora. Muitos gostaram do monólogo de Gus ao pé da cama de Hector em Piñata, que de fato foi interessante, mas, para mim, redundante fora o fator cool, lógico. É aqui, porém, que Gus mostra toda sua raiva e rancor quando deixa entrever uma felicidade incontida por dentro – e quase por fora, já que ele esboça um sorriso – ao notar no vídeo da médica que ele contratou a peso de ouro para cuidar de seu rival, que o velho traficante está de volta. Hector Salamanca está plenamente consciente em seu corpo debilitado e não poderia haver vingança maior do que deixá-lo entrevado dessa maneira, o que é exatamente o plano de Gus, apesar de a médica ter sido assertiva que seria possível ele voltar a falar e andar (reparem no paralelismo disso com a “prisão” dos trabalhadores alemães). A maldade da sequência na cozinha de Gus ficará para sempre marcada na mente de quem assisti-la, assim como as inestimáveis atuações de Giancarlo Esposito e Mark Margolis.

Se Pinãta foi ligeiramente inferior à média dos episódios apresentados até agora na temporada, Something Stupid é a volta total à forma. De certa forma, são episódios que abordam a mesma quantidade de assuntos diferentes, mas o que separa um do outro é o ritmo narrativo entrecortado em um e absolutamente fluido e quase frustrante de tão instantaneamente que os minutos – ou meses, depende do ponto de vista – passam. Vince Gilligan mais uma vez transforma o mundano em obra de arte.

Better Call Saul – 4X07: Something Stupid (EUA, 17 de setembro de 2018)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Deborah Chow
Roteiro: Alison Tatlock
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Giancarlo Esposito, Ed Begley Jr., Javier Grajeda, Kerry Condon, Ann Cusack, Dennis Boutsikaris, Jordan Lage, Jeremiah Bitsui, Vincent Fuentes, Ericka Kreutz, Laura Fraser, David Costabile, Ethan Phillips, Mark Margolis
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 41 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.