Crítica | Better Call Saul – 4X08: Coushatta

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Pelo menos no que se refere a Jimmy e Kim, Coushatta é, todo ele, um longo e divertidíssimo plot twist que sacramenta a separação dois dois – depois disso ser o foco de Something Stupid – somente para aproximá-los novamente. Vince Gilligan sacoleja o status quo da dupla e põe em dúvida exatamente o que ele planeja para Kim nesse cenário, considerando que ela “não existe” em Breaking Bad e, aparentemente, no futuro em preto-e-branco de Jimmy como Gene.

Ao longo da temporada, na medida da progressão narrativa, Gilligan quis nos dizer que a relação da dupla principal estava esfriando, chegando até mesmo ao ponto de, neste episódio, Jimmy verbalizar sua desesperança para a dona do salão de beleza onde aluga a salinha do boiler. Muito se especulava que seria esse fim natural de um amor que nunca se fiou em clichês do gênero, com pouquíssimos momentos de intimidade, que derrubaria Jimmy de vez, abrindo espaço para Saul Goodman. Mas, por baixo da separação, havia a perene vontade de Jimmy de reconstruir sua vida profissional junto com Kim, o que efetivamente serviu para que ele vestisse a camisa de um proto-Saul Goodman e passasse a vender celulares para uso por marginais, os chamados burners, em uma época (leia-se poucos anos atrás…) em que eles não eram tão comuns assim, com o objetivo de comprar ou alugar um escritório em que os dois pudessem trabalhar.

Mas Kim perdeu as esperanças em Jimmy e também em seu cliente Mesa Verde. Coushatta, porém, desnuda exatamente a natureza desse inconformismo dela. Para todos os efeitos, ela viu que seu par simplesmente estava além de qualquer ajuda e tudo o que ela oferecia era negado por Jimmy. Sua fuga para os casos pro bono, agindo como defensora pública, indicava que ela queria lidar com questões que ela considerava mais profissionalmente satisfatórias. Essas atitudes, agora, vistas pelo filtro que Coushatta nos traz, ganha outra matiz, uma matiz que volta no tempo para quando Jimmy praticou golpes inofensivos tendo Kim como uma empolgadíssima ajudante.

Olhando em retrospecto, o embarque da personagem em um novo e elaboradíssimo golpe em que ela própria teve participação em sua gênese faz absoluto sentido, mesmo que, no episódio anterior, ela tenha dado de ombros à oferta de Jimmy de fazer algo parecido e por ter brigado com ele lá atrás em Cobbler quando ele forjou provas naquele sensacional vídeo. Mas a vigarice parece ser viciante e, uma vez sentindo a adrenalina correr por suas veias nos pequenos golpes que participou com Jimmy, Kim parece ter aberto uma Caixa de Pandora. E como isso se encaixa no processo de afastamento dela e mergulho em seu trabalho pro bono? Simples: quando Jimmy se apagou, sua “fonte” usual de excitação acabou e quando ele mostrou-se avesso à sua assistência, sua utilidade à ela desapareceu por completo. Além disso, seu cliente Mesa Verde é um banco, com um trabalho financeiramente interessantíssimo, mas que, no final, das contas, é, praticamente, o preenchimento criativo de uma papelada sem fim.  Sua defesa de gente que precisa – e de marginais no meio, lógico – era sua maneira de conseguir sua dose da “droga” que a faz sentir a vida, o que, sabemos agora, é essencialmente a versão diluída dos golpes de Jimmy.

E é por isso que é tão satisfatório e absolutamente cativante ver os dois trabalhando efusivamente em um esquema complexo de “relações públicas” para levar a promotora pública a aceitar um acordo que evitasse que Huell fosse para a cadeia por agressão a um policial. Aqui, a construção do “golpe” ganha os ares calmos e detalhados das sequências que mais comumente envolvem Mike, primeiro focando no detalhe – as cartas e cartões postais febrilmente sendo escritos por Jimmy na viagem de ônibus – e, depois, bem aos poucos, abrindo para a estratégia macro que, por mais ilegal que possa ser, traz sorrisos (e, no meu caso pelo menos, gargalhadas) nos rostos de qualquer espectador.

Claro que o chantilly nesse belíssimo bolo é o momento em que a “chama” da paixão de Kim reacende na escada de incêndio do Tribunal depois que a promotora entrega os pontos e, mais do que isso, a proverbial cereja em cima disso tudo é o “vamos fazer de novo” que encerra brilhantemente essa narrativa, em uma sequência milimetricamente construída para fazer referência a nada menos do que o primeiro episódio da série, com os dois na garagem do HHM dividindo um cigarro. Aguardo, agora, as premiações que simplesmente têm que ser entregues para Rhea Seehorn por sua atuação. Se eu tenho alguma “reclamação” sobre tudo isso é que essa sequência deveria ter encerrado o episódio como um todo e não nos levado para Nacho mais uma vez.

Aliás, falando em Nacho, depois de sua ausência por três episódios seguidos, ele está de volta e vemos como o salto temporal o afetou. Ele é, agora, a nova encarnação de Hector Salamanca para todos os efeitos, aparentemente tendo abraçado de vez seu lado traficante, com direito a brincos sendo arrancados de orelhas de vendedor que paga menos, uma enorme casa, um cofre carregado de dinheiro e duas mulheres viciadas a seu dispor. Seria esse o fundo do poço do personagem que foi desenvolvido cuidadosamente para ser o “bandido que amamos”? A própria fotografia escurecida em sua bela mansão nos passa essa impressão, com Michael Mando deixando transparecer o desgosto pelo que se tornou. A chegada de Eduardo “Lalo” Salamanca (Tony Dalton) em sua operação azeitada certamente será um entrave que levará a conflitos internos e, possivelmente, com Gus. Nacho, diferente de Kim, efetivamente me parece um personagem que terá um fim trágico, ainda que a manga de Gilligan seja sempre cheia de ases escondidos.

Finalmente, nas sequências dedicadas a Mike, a noitada que ele proporciona aos inquietos alemães no strip club descarrila rapidamente, mas, novamente, não da maneira que esperamos. Mesmo que Kai seja um problema, ele é o que ele é: um bobalhão que merece uns tapas de vez em quando, mas não muito mais do que isso. O grande problema vem mesmo de Werner Ziegler, o engenheiro originalmente contratado para cuidar da complexa obra do super-laboratório subterrâneo. Sem conseguir controlar-se, o sujeito parece gostar de “tirar onda” e, por muito pouco, não contou tudo sobre seu grande projeto. O desapontamento de Mike e o receio de Gus são palpáveis e será interessante ver onde é que isso vai dar.

Mas o grande destaque de Coushatta é mesmo o golpe de Jimmy e Kim e em que ele resulta. Fica nas entrelinhas, aqui, que não será o distanciamento de Kim e Jimmy que trará Saul Goodman à tona de vez, mas sim, ironicamente, sua aproximação. Interessante, hein?

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Better Call Saul – 4X08: Coushatta (EUA, 24 de setembro de 2018)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Jim McKay
Roteiro: Gordon Smith
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Giancarlo Esposito, Ed Begley Jr., Javier Grajeda, Kerry Condon, Ann Cusack, Dennis Boutsikaris, Jordan Lage, Jeremiah Bitsui, Vincent Fuentes, Ericka Kreutz, Laura Fraser, David Costabile, Ethan Phillips, Mark Margolis, Rainer Bock, Tony Dalton
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.