Crítica | Better Call Saul – 4X09: Wiedersehen

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Se eu precisasse escrever uma crítica focando em apenas um momento do penúltimo episódio da 4ª temporada de Better Call Saul, eu definitivamente escolheria a sequência da visita de Lalo e Nacho a Hector. Não me lembrava dos detalhes espetaculares do trabalho de Mark Margolis como Hector já entrevado na cadeira de rodas e comunicando-se com uma campainha, mas essa cena fez minhas lembranças voltarem a galope no mesmo momento em que meus olhos se fixaram na performance do ator e meu queixo caiu. Mesmo tendo tido um gostinho disso em Something Stupid, vê-lo em sua versão Breaking Bad foi fenomenal.

Usando leve contraluz e close-ups extremos do rosto de Hector e de Lalo que criam uma halo “santo” ao redor deles em um lar de idosos que poderia facilmente ser o cenário de um episódio de Twin Peaks, aprendemos, lentamente, sobre a macabra “origem” da sineta, com Margolis mostrando uma realmente inacreditável capacidade de comunicar o que seu personagem está sentindo apenas com respiração forte e acelerada, lábios tremendo no rosto contorcido e um dedo nervoso batendo no braço mudo da cadeira e, depois, feliz, fazendo o inesquecível (e irritante) som. Acho que poderia muito facilmente ver um episódio inteiro somente assim, como uma versão unilateral, mafiosa e raivosa de Meu Jantar com André. Lalo tem um plano e Hector deu sua bênção silenciosa (mas não tanto), o que provavelmente significará guerra contra Gus depois da “conversa civilizada” dos dois no Los Pollos Hermanos.

Guerra é também a palavra-chave para o que Jimmy passa aqui. Finalmente chega o dia de sua audiência final com a banca da Ordem dos Advogados de Albuquerque, com o objetivo de ter de volta sua tão almejada licença para advogar. Assim como em Breath, Jimmy se vende maravilhosamente bem e nós temos a certeza – aliás, nunca tivemos dúvida! – de que ele sairia de lá com o que lutou para conseguir. Mas eis que vem uma pergunta “fora do script“. Gaguejo aqui e outro acolá, Jimmy se recompõe e novamente parece arrasar. Só que, a essa altura, nosso alerta ligou e, como o proverbial último prego no caixão, vem a pergunta de um milhão de dólares: quem serviu de inspiração para ele? Esse é o momento em que todos os alarmes começam a tocar, pois a grande ausência da cena faz-se sentir mais do que fortemente. Chuck não foi mencionado uma vez sequer e Jimmy se recusa a evocar seu irmão, exatamente o nome que a banca espera ouvir da boca do entrevistado.

A cena é construída cirurgicamente para nos tirar do sério juntamente com Jimmy. Como assim ele não conseguiu a licença de volta? Como isso é possível, minha gente? A resposta óbvia do líder da banca – insinceridade –  nós não precisávamos nem ouvir, mas Jimmy sim, pois ele bloqueou qualquer compreensão do que ele fez, ou melhor, deixou de fazer. E, mesmo ouvindo a palavra, ele se recusa a conectar os pontos, sendo necessário que Kim faça isso para ele em uma conversa no telhado do estacionamento que logo descamba para um confrontamento quente e aparentemente finalista entre os dois. A forma como o roteiro de Gennifer Hutchison insere texto expositivo no episódio é uma aula magna de como empregar essa delicada técnica que costuma destruir bons filmes. Há uma perfeita organicidade na explicação que, por mais óbvia que possa ser, é completamente necessária para quebrar a barreira psicológica que Jimmy erigiu. Chuck é nome tabu. Chuck é reconhecer responsabilidade, é entender que não foi Howard o culpado por sua morte. Chuck é a derrocada de Jimmy mesmo do além.

No entanto, fica evidente que essa derrocada será mais complexa. Se por alguns segundos realmente achamos que Jimmy e Kim já eram, Kim faz uma oferta a Jimmy Sabonete que ele não pode recusar e que casa com o prólogo do episódio em que os dois dão outro golpe, desta vez para substituir a planta da nova filial do banco Mesa Verde em Lubbock. Kim sucumbe à tentação e Jimmy parece que corresponderá, pois é seu futuro em jogo. O que exatamente eles farão para obter a licença de volta, talvez só descubramos no season finale, mas seja o que for, o futuro dos dois na malandragem parece estar indelevelmente ligado.

Como se tudo o que aconteceu com Jimmy, Kim, Lalo, Hector e Gus não bastasse, Vince Gilligan começa a “dançar na nossa cara” tirando onda de sua posição aqui também como diretor. Afinal, o que poderia facilmente ser o calcanhar de aquiles do episódio – o dilema de Mike – com grande possibilidade de quebra de fluidez narrativa, transforma-se em outro momento de excelência. Como não ficar tenso ao extremo com Werner tendo um ataque de pânico no ápice da verificação do que ocorreu com a banana de dinamite na rocha? Levantem a mão quem ficou esperando uma explosão mortal, mas com quase certeza de que ela não viria e mesmo assim suou frio no momento? Eu só não levanto minhas duas mãos porque estou escrevendo…

E o conflito Mike vs Werner que se avizinhava ganha outro contorno. Sai o trivial, entra o psicológico. Werner quebrou. Ele quer voltar para casa, para sua esposa. Custe o que custar. E sua fuga ao final, dando uma rasteira em Mike, o sujeito mais cuidadoso e detalhista do mundo, traz um sorriso dúplice aos nossos lábios, primeiro pela impagável cara de tacho de Mike ao notar que foi enganado e, depois, pelo que imaginamos que Mike fará com Werner. Mas, como tudo que Gilligan faz, simplesmente não podemos esperar o óbvio.

É chover no molhado elogiar Better Call Saul. Não há episódio menos do que muito bom, com a enorme maioria resvalando na perfeição e vários alcançando-a. É deleite televisivo puro, capaz de nos deixar tão embasbacados quanto testemunhar Margolis vivendo a versão final de Hector Salamanca. Pouco importa como a temporada acabará, pois estou aplaudindo de pé desde agora.

Better Call Saul – 4X09: Wiedersehen (EUA, 1º de outubro de 2018)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Vince Gilligan
Roteiro: Gennifer Hutchison
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Giancarlo Esposito, Ed Begley Jr., Javier Grajeda, Kerry Condon, Ann Cusack, Dennis Boutsikaris, Jordan Lage, Jeremiah Bitsui, Vincent Fuentes, Ericka Kreutz, Laura Fraser, David Costabile, Ethan Phillips, Mark Margolis, Rainer Bock, Tony Dalton
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 55 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.