Crítica | Between – 1ª Temporada

estrelas 2

Between é mais uma série no estilo “isole um grupo de pessoas e veja como elas reagem” que mistura O Senhor das Moscas, clássico de William Golding com Sob a Redoma, calhamaço de Stephen King que foi adaptado em uma tenebrosa série. E, assim como o título, a nova série, criada por Michael McGowan e co-produzida pelo canal canadense City e o Netflix, fica literalmente entre uma coisa e outra, sem dizer a que realmente veio.

Estrelando Jennette McCurdy, mais conhecida com a Sam da série infanto-juvenil iCarly, Between, cuja primeira temporada é de apenas seis episódios, nos apresenta a Pretty Lake, cidadezinha que, da noite para o dia, enfrenta uma doença misteriosa que aniquila todas as pessoas com mais de 22 anos e é prontamente cercada por grades pelo governo americano. Sobram, apenas, os mais jovens que, exatamente como na obra de Golding, passam a ter que “recriar” um semblante de civilização dentro desse espaço confinado, mas sem sucesso, claro.

Se Between tem uma qualidade, essa é ser vastamente superior a Under the Dome em sua primeira temporada, o que torna a experiência bem menos dolorosa e laboriosa, ainda que longe de ser boa. Outra qualidade é que a produção não tenta dourar a pílula apresentando um cenário esperançoso, com fotografia clara e personagens saídos de desfile de moda. Aqui não há nada disso, muito ao contrário, diria. Between é triste, pesada, completamente fatalista, com paleta de cores frias, muita chuva e personagens que conseguem convencer em termos estéticos, ou seja, não parecem ter acabado de sair de um banho rejuvenescedor a cada vez que aparecem. Nem mesmo McCurdy, que vive Wiley Day, extremamente grávida até a metade da temporada, ganha tratamento diferenciado: a jovem é retratada sempre com rosto fechado, sem maquiagem e cabelo desarrumado. Falando em cabelo, o geninho Adam (Jesse Carere) ganha o prêmio nesse quesito, com sua juba que parece a do Urso do Cabelo Duro (espero que peguem essa referência das antigas!), além de ter uma voz derrotada, cansada e chateada, talvez por seu amor por Wiley não ser nem de longe correspondido por ela.

Mas, fora esses aspectos que definitivamente contam pontos para a série, o resto do material é de trincar os dentes. Esqueçamos o tal vírus misterioso e foquemos, pelo momento, na quantidade de estereótipos que o criador da série, Michael McGowan, nos força a engolir. Temos o filho do milionário local que toma para si as funções de prefeito, chefe de polícia e bully-chefe. A série faz questão de vesti-lo com o uniforme da escola para mostrar que ele é o clichê ambulante do valentão perdido. Do outro lado do espectro, temos os três irmãos “caipiras” que, na cabeça do bully-chefe, são os responsáveis por todo o mal na cidade (só falta culpá-los pelo vírus). Mas, surpresa, surpresa, os Creekers são mesmo responsáveis por uma boa parcela dos problemas que todos têm que enfrentar, mais uma vez deixando claro que o estereótipo que reza que “todo caipira é mau como aprendemos em Amargo Pesadelo” ainda é um conceito válido.

Ah, e as minorias? Os únicos dois negros da série são, também, as únicas duas pessoas com inteligência e equilíbrio para enfrentar a situação, em uma inversão tão gritante do estereótipo para encaixe no “politicamente correto” que é impossível não revirar os olhos. Afinal, reparem o que disse: eles são os únicos dois negros na cidade inteira! As minorias religiosas também são representadas, com uma surreal aparição de uma jovem “tipo Amish” lá pela segunda metade da curta temporada que não tem função alguma que não seja ocupar tempo de tela com bobagens e para mostrar que há outros grupos por aí que pensam diferente.

E eu não preciso falar no próprio (não)casal principal, não é mesmo? Wiley é a rebeldia contida, a raiva engolida que existe em todo o jovem, especialmente quando suas atitudes egoístas são contrastadas com as da quase santa de sua irmã, que se dedica a cuidar sozinha de todas as crianças pequenas da cidade. Adam, lógico, é o nerd de carteirinha, mas que, de tanto falar resmungando como o Zé Buscapé (é, hoje estou cheio de referências lá do fundo do baú), logo torna-se enfadonho vê-lo em tela, além de ele ter relativamente pouco o que fazer.

Mas o roteiro também não ajuda, pois, quando o mistério do vírus passa a ser o foco da narrativa no último e movimentado episódio, as explicações que vêm são tão absurdas e tiradas da cartola do Mandrake (ok, parei com as gracinhas) que não dá para segurar a risada mesmo com todo o peso da narrativa geral. É personagem novo que surge do nada, explicações pseudo-científicas que desafiam a lógica interna (ou qualquer lógica, por sinal) e atos heroicos vazios e completamente inúteis pontilhando um final que consegue desapontar mais do que o que veio antes.

Em algum momento no processo criativo de Between, deve ter existido uma boa série. O material está lá, perfeitamente visível e tentador. Mas a execução pífia, com personagens cortados em cartolina e as tentativas de amarrações que não funcionam acabam derrubando a experiência audiovisual. Pensando bem, Between não está exatamente entre O Senhor das Moscas (a obra literária) e Under the Dome (a série) e sim infelizmente muito mais próximo do segundo do que seria salutar. Uma pena.

Between – 1ª Temporada (Canadá – 2015)
Criação: Michael McGowan
Direção: Jon Cassar, Michael McGowan
Roteiro: Michael McGowan, Peter Mitchell, Malcolm MacRury, Blain Watters, Mark Bacci
Elenco: Jennette McCurdy, Jesse Carere, Ryan Allen, Justin Kelly, Kyle Mac, Jack Murray, Brooke Palsson, Samantha Munro, Jim Watson
Duração: 264 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.