Crítica | Bidu – Juntos

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estrelas 4,5

Qualquer pessoa que tem, já teve ou conhece alguém que tenha um animal de estimação, especialmente um cachorro, vai ler esse 13º one-shot do projeto Graphic MSP com um misto de identificação, emoção e ataques de fofuchismo, como é típico de histórias ou representações desses “serumaninhos” (só para avisar aos navegantes desnavegados, isso é um meme, ok?) que há tanto tempo vem acompanhando a nossa espécie.

Escrito e desenhado por Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho, que voltam ao projeto depois de Bidu – Caminhos (2014), Juntos é um volume mais pessoal e narrativamente mais bem acabado que o anterior. Se em Caminhos tivemos o sofrimento a partir do ponto de vista do próprio Bidu e sua chegada até o Franjinha, aqui em Juntos a visão é de parceria, convivência e adequações, tanto da famosa dupla dinâmica quanto da mãe do Franja e até de Jeremias, que tem uma boa participação na história, coerentemente ligada à questão da adoção de um animal.

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A percepção de mundo do animal ganha um grande respeito por parte dos roteiristas, e é imaginada e mostrada em ações e hipóteses. A representação da “fala” de Bidu, seus latidos e as vontade de Franjinha que não têm nada a ver com o que o bicho está “dizendo” e as consequências temporárias disso para a relação entre os dois chega a emocionar no meio da história, começando do momento em que o azulzinho fica sozinho em casa pela primeira vez e faz uma bagunça tremenda, reagindo à saudade do companheiro e ao medo do espaço da casa, que de repente parece tão grande e assustador, sem os humanos. Existem experimentos na internet que colocam câmeras para filmar a reação dos cães quando os donos saem e os deixam sozinhos, e a essência dessas reações foi mostrada com acuidade e beleza nas páginas de Juntos. Impossível não compartilhar uma certa angústia com Bidu.

Mas existe um outro foco também. A mensagem que sempre acompanha os lançamentos da Graphic MSP se mostra através da necessidade da adoção de animais abandonados, da tentativa de tornar o ambiente da casa harmônico para animal de estimação e humano, e a plena noção de que “dono” não é exatamente a palavra correta para se usar quando se tem um animal. Claro que não levanto aqui a bandeira da chatice sobre o termo. É uma expressão convencional, é comum e válio utilizarmos. A questão é realmente diferenciar o termo e da ação. O que mais me chamou a atenção no texto dessa GN foi a verossimilhança com que certas relações de criadores e animais criados são divulgadas por inúmero veículos, ou seja, algumas pessoas acham mesmo que ter um animal é apenas algo para constar na lista, uma amenidade, um capricho. Bidu – Juntos vem para mostrar que apenas alimentar e dar abrigo não é o bastante.

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A arte aqui tem um papel todo especial em nos fazer ver esse lado sentimental. A paleta rosa utilizada para boa parte das cenas interiores com o Franjinha em cena — existem outras cores como padrão, mas elas possuem significados diferentes, como a fria e belíssima página dupla com o Bidu sozinho, olhando para a porta, visto em perspetiva com a sala em ponto de fuga — e as exteriores, que vai mudando à medida que a dificuldade de comunicação entre humano e animal aumenta. Como cada um vai aprendendo pequenas lições ao longo da história, fica difícil não relacionar cores, luzes e sombras com os estados de espírito de Franjinha e Bidu.

Exceto no comecinho da HQ, todos os pequenos arcos, especialmente o do ponto de vista do Bidu, são trabalhados com perfeição. A organicidade com que as coisas acontecem, o trabalho com o tempo — os roteiristas estão de parabéns por nos transmitirem de maneira orgânica essa passagem — e o significado das relações estabelecidas possivelmente farão alguns leitores lacrimejarem. O entendimento final entre a dupla é o resultado de um impasse que se resolveu com um pouco de sofrimento para os dois lados, mas que enfim encontrou um status de compreensão final. Enfim, humano e cachorro, estão juntos.

Bidu – Juntos (Brasil, 2016)
Panini Books e Mauricio de Souza Editora
Roteiro: Eduardo Damasceno, Luís Felipe Garrocho
Arte: Eduardo Damasceno, Luís Felipe Garrocho
82 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.