Crítica | Big Mouth – 2ª Temporada

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Eu sou normal? É com esta pergunta que a 2ª Temporada de Big Mouth começa e é em torno dela que inúmeras coisas ao longo do serial são desenvolvidas, acompanhando, como já era esperado, o avanço da puberdade dos personagens principais, o quinteto de amigos composto por Nick (Nick Kroll, que também interpreta o impagável Maurice, o Monstro dos Hormônios; o Treinador Steve e Lola), Andrew (John Mulaney), Jessi (Jessi Klein), Missy (Jenny Slate) e Jay (Jason Mantzoukas). Essas questões pessoais ainda permanecem no terreno do crescimento desses meninos e meninas, mas se tornam mais “sérias”, ou seja, expõem as primeiras experiências reais de um adolescente consigo mesmo e também com os outros, algo um pouco mostrado na 1ª Temporada — que representa o início dessa fase — e fortemente explorado aqui.

Os momentos mais fracos desse segundo ano da série estão nos dois episódios iniciais, não porque são ruins, mas por demorarem a engatar os seus temas principais, embora o segundo consiga resolver mais rápido a questão dos seios das meninas e fazer disso uma das colunas de “conversa de moças e rapazes” ao longo dos episódios. A coisa começa a ficar realmente impagável, mantendo o alto nível de qualidade e humor do show, a partir do terceiro episódio, O Mago da Vergonha. Esse personagem (dublado por David Thewlis) é uma das adições mais interessantes feitas a Big Mouth, porque representa, com todo o cinismo e realidade, os piores medos e os piores momentos possíveis na vida de um adolescente, principalmente o pesadelo dos pesadelos: passar vergonha na frente dos amigos.

E sim, há muita vergonha na frente dos amigos aqui. Os roteiros dos episódios estão agora mais ciosos da importância da vida pessoal de cada um, então a temporada é costurada com tramas envolvendo cada uma das famílias e cada uma das descobertas desses adolescentes. Temos a vergonha e a liberdade em relação ao próprio corpo, a demora dos pelos pubianos de Nick em aparecerem, as ondas de masturbação dos meninos e das meninas, os primeiros namoros, beijos, gozadas junto com alguém e testes ou descobertas inesperadas, vide o personagem de Jay — aliás, se a temporada seguinte mantiver exatamente o que foi mostrado aqui, será um dos desenvolvimentos de bissexualidade mais interessantes numa série de animação, justamente pela organicidade com que é mostrada na tela, com percepção e entendimento depois das experiências pessoais. A representação desse viés é engraçado, bizarro (no sentido mais positivo dessa palavra, como tudo na série) e muito realista: “todo mundo gosta de mim e eu gosto de todo!“.

Paralelo aos medos e prazeres, os problemas familiares de cada um. Boa parte desses problemas são mostrados como catalisadores de birras adolescentes, reclusão e até depressão. O maravilhoso episódio The Planned Parenthood Show (as inclusões metalinguísticas nesse capítulo são preciosas) e O Departamento da Puberdade são exemplo de como coisas muito sérias podem e devem ser colocadas para adolescentes, levando em consideração a linguagem adequada para cada idade. Toda a gama de informações e emoções que um adolescente passa ao longo da puberdade pode gerar, mesmo que por um período relativamente curto, uma pessoa insuportável e tão agressiva com os outros, quanto consigo mesma. Isso, como todos sabemos, terá um papel notável no adulto que esse indivíduo será.

Deixar que a “boa e bela internet” assuma o papel de Grande Educadora para questões ligadas à sexualidade, gênero, mudanças no corpo e até mesmo a laços humanos e assuntos que abraçam narrativas sociais e políticas está mais do que provado que é uma péssima ideia. Big Mouth alfineta até não poder mais esse tipo de pensamento — hoje, cada vez mais crescente — e coloca na persona do Treinador Steve e também em Jay (por influência de sua família disfuncional) uma mistura do que pode ser o resultado final desse pensamento.

Os ótimos números musicais ainda estão presentes esse ano (se bem que os primeiros, aqui, não são tão impressionantes assim) e a animação brinca com técnicas, cores e modelos narrativos bem diferentes, dinamizando a jornada do espectador ao longo dos 10 episódios da Temporada. Big Mouth segue como uma série hilária sobre um período da vida que todos nós entendemos muito bem — e de certa forma, gostaríamos que tivesse sido um pouco mais fácil. Já podem mandar a Terceira Temporada, por favor.

Big Mouth – 2ª Temporada (EUA, 05 de outubro de 2018)
Criadores: Jennifer Flackett, Mark Levin, Andrew Goldberg
Direção: Bob Suarez, Bryan Francis, Joel Moser
Roteiro: Andrew Goldberg, Kelly Galuska, Victor Quinaz, Joe Wengert, Emily Altman, Gil Ozeri, Alex Rubens
Elenco (vozes): Nick Kroll, John Mulaney, Jessi Klein, Jason Mantzoukas, Jenny Slate, Fred Armisen, Kristen Bell, Neil Casey, Jordan Peele, Maya Rudolph, Kat Dennings, Paula Pell
Duração: 30 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.