Crítica | Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

estrelas 5,0

Birdman me ganhou em um ponto bastante específico de sua narrativa – Riggan, interpretado por Michael Keaton, está prestes a entrar no palco do teatro, à beira de dar início a uma atuação dentro da atuação. É nesse momento preciso que simples passos à frente se transformam em uma explosão química dentro de seu corpo, misturando o nervosismo com empolgação, medo com orgulho. Nesse exato instante eu senti exatamente o mesmo que o ator.

Preenchido por momentos como esse, a mais nova odisseia cinematográfica de Alejandro González Iñárritu se desenvolve nos colocando não apenas como observadores externos de sua história e sim como um personagem dentro da tela, um stalker silencioso de cada um dos personagens. A imersão é praticamente obrigatória, ao passo que a sensação de um plano-sequência contínuo nos suga para dentro do filme. Birdman, portanto, é muito mais do que apenas ver cinema, é sentir cinema.

Acompanhamos Riggan, um ex-astro de filmes de ação, mais conhecido pelo seu papel como o super-herói Birdman e que agora investe cem por cento em sua carreira como diretor/ator de teatro. Obviamente temos aqui uma deliciosa sátira ao próprio Keaton, que viveu o Batman nos dois filmes de Tim Burton e que, desde então, emplacou alguns poucos papéis de destaque (sendo Ray Nicolette em Jackie Brown um deles). O novo diretor busca se sobressair ao seu mais famoso personagem com sua estreia na Broadway – a jornada, porém, está longe de ser fácil, considerando que desde atores cheios de si até sua própria insegurança parecem querer destruir seu trabalho.

Michael Keaton, sem a menor sombra de dúvidas, nos traz a melhor atuação de sua carreira. Riggan é explorado cuidadosamente em camadas – desde o diretor inseguro até o ator orgulhoso – trazendo do homem que, outrora fora Bruce Wayne, três diferentes personalidades. A primeira delas é o próprio homem, uma pessoa comum que luta para fazer sua vida dar certo, tentando fazer sua peça vingar enquanto tem de lidar com sua filha, Sam (Emma Stone em sua melhor atuação até então), que, por sua vez, tem um certo envolvimento com drogas. Já o segundo estágio está nas já citadas atuações dentro das atuações e a genialidade está na forma como esse personagem dialoga com Riggan em si, refletindo, na peça, a vida do ator/diretor. A terceira, por sua vez, aparece nos momentos de solidão do personagem, Birdman aparece como uma manifestação agressiva de seu auto-respeito, funcionando como uma dupla-personalidade escondida. Aqui Iñárritu insere seu toque de mestre, criando em nós a dúvida: Birdman realmente existe ou é apenas imaginação de uma mente cansada? Riggan é realmente um super herói?

Tal pergunta permeia grande parte da narrativa da obra, mas, surpreendentemente, o roteiro consegue nos fazer esquecer delas em diversos pontos, enquanto outros elementos ganham prioridade. Como disse, estamos em uma jornada quase que onírica pelo seu grau de imersão e nossa preocupação acompanha a dos outros indivíduos em tela. Nesse ponto, o recurso dos inúmeros planos sequências encadeados por uma montagem que prioriza ao máximo o imperceptível, é fundamental. Todavia, não temos aqui um cinema clássico, espelhado no que vimos no inesquecível Festim Diabólico. A intenção do diretor é, de fato, incomodar o espectador, nos tirar de nosso lugar comum, criando uma espécie de êxtase, incômodo, que perfeitamente refletem a disposição do protagonista. A fotografia de Emmanuel Lubezki, também responsável por Gravidade, Filhos da Esperança A Árvore da Vida, simplesmente não para e funciona de forma dinâmica, mudando o foco de sua atenção, pulando de personagem a personagem a fim de transmitir não só uma ideia geral da trama, como o dinamismo do backstage. A escolha por tal foco, naturalmente, apenas enaltece o trabalho de direção que deve ser meticulosamente preciso.

Cada plano é um verdadeiro deleite de se observar, com centenas de elementos agindo em segundo e terceiro plano a fim de construir o necessário naturalismo de cada sequência. Preenchendo esse espaço temos a surpreendente trilha, apenas de bateria, de Antonio Sanchez, que acompanha a tormenta emocional de Riggan – atingindo um tempo mais acelerado dependendo da disposição do protagonista. Alejandro, disposto a tornar sua obra cada vez mais memorável, também brinca com esse lado de sua narrativa e garante a diegese da música ao inserir, em breves aparições, um baterista em cena – fator que, em geral, intensifica o crescente tom de loucura do longa e, naturalmente, de seu protagonista no centro do palco.

Limitar, porém, a trama de Birdman apenas a um homem, ao elenco de um teatro, contudo, seria um gigantesco erro. Com um humor ácido, Iñárritu critica praticamente todos os aspectos da indústria cinematográfica atual, dando golpes certeiros no investimento maciço em filmes de super-heróis, no orgulho dos atores – perfeitamente exemplificado através de Edward Norton, que interpreta uma versão caricata de si mesmo – e, dentre vários outros, na crítica cinematográfica em si. O cansaço de Riggan, crescente com o passar dos minutos, é o próprio cansaço do diretor em relação a esses elementos criticados, uma desmotivação perante ao comum à falta de originalidade e simples repetição de uma fórmula já cansada e cansativa.

Preenchido por ironias como essa, Alejandro González Iñárritu nos traz uma verdadeira obra-prima, um retrato distorcido da indústria hollywoodiana e uma emblemática experiência cinematográfica. Seja para estar completamente imerso, seja para testemunhar uma atuação de se aplaudir de Michael Keaton, Birdman merece e deve ser visto na sala do cinema – trata-se de uma obra pensada e concebida com esse propósito e, somente assim, traz por completo o êxtase e o incômodo almejado.

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (Birdman: or (The Unexpected Virtue of Ignorance) – EUA/ Canadá, 2014)
Direção:
 Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo
Elenco: Michael Keaton, Emma Stone, Zach Galifianakis, Naomi Watts, Jeremy Shamos, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Edward Norton
Duração: 119 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.