Crítica | Bisbee ’17

Em 12 de julho de 1917, 1.300 mineiros grevistas, em sua maioria imigrantes, foram sequestrados e deportados via trem pelo xerife local e um grande número de delegados recém-empossados, da cidade de Bisbee, no Arizona, perto da fronteira do México. O evento, que poucos – inclusive moradores da cidade – conhecem, foi batizado de Deportação de Bisbee (ou Bisbee Deportation) e ninguém jamais foi responsabilizado pelo ato hediondo. Para lembrar sua história e marcar os 100 anos, Bisbee ’17, um documentário colaborativo parcialmente musical foi produzido.

Sim, um documentário colaborativo musical. Vocês não leram errado. E com Robert Greene na direção e roteiro desta inusitada, mas marcante obra que mergulha um pouco nessa nefasta medida extrema que marcou a cidade na mesma medida em que foi soterrada e literalmente apagada pela imprensa e autoridades locais.

Com a participação de moradores de diferentes gerações da cidade que, desde 1975, teve as atividades de mineração paralisadas, inclusive descendentes de figuras importantes na Deportação de Bisbee, Greene tenta trazer uma visão equilibrada e que procura não julgar os lados dessa moeda. Muito acertadamente, ele deixa o evento em si – cuja existência não é e nem nunca foi posta em dúvida – bradar aos quatro ventos o absurdo do ocorrido. Dividindo a narrativa em seis partes, a estrutura da obra é metalinguística ainda por cima, com o documentário começando auto-consciente de sua natureza e, ao longo da narrativa, confundindo realidade e reencenamentos da realidade.

Há pouco material histórico sobre o ocorrido, pelo que Greene recorre a relatos de “segunda mão” de pessoas que estudaram o assunto ou ouviram as histórias por seus pais. E, com exceção da reconstituição feita pela cidade e que perpassa o documentário, o diretor não recorre a animações ou outros artifícios para dar vida ao que aos poucos vai sendo revelado. Novamente, é uma decisão acertada, pois, com isso, ele trabalha interpretações e visões diferentes do evento, sem ele mesmo tecer considerações próprias ou guiar os entrevistados.

É particularmente interessante notar que, assim como em O Ato de Matar – mas com um efeito bem menor, claro – testemunhas as pessoas que, em um primeiro momento, se colocaram ao lado da “legalidade” do que ocorreu, ficando extremamente incomodadas com o reencenamento de que participam orgulhosamente e percebendo que “talvez” estejam errados. Esse é, talvez, a maior prova de que o objetivo foi alcançado. Ao fazer uma cidade inteira encarar e enfrentar seu passado sombrio, Robert Greene proporciona uma espécie de catarse coletiva, uma gigantesca e elaborada sessão de terapia que conta também com breves e absolutamente inusitados números musicais, inseridos, segundo os organizadores da celebração dos 100 anos, para tornar o assunto mais palatável e para fazer a mímica dos lemas cantados do I.W.W., sindicato radical que catalisou a greve.

Essa catarse é extremamente satisfatória e coroa um esforço histórico e cinematográfico de se tirar o chapéu, com o engajamento gracioso de centenas de pessoas. E isso vem tanto dos impressionantes e chocantes fatos históricos quanto da forma pouco ortodoxa como o documentário vem à vida, misturando linguagem clássica do gênero, assim como drama ficcional, metalinguagem e música de maneira tão integrada que o resultado parece natural e até simples, algo que a obra está muito longe de ser.

Bisbee ’17 é uma mensagem que vai além da Deportação de Bisbee. Ao trazer à tona um evento desse calibre, a obra mostra o quanto é importante olharmos para o passado para aprendermos sobre o presente e, principalmente, para usarmos o conhecimento para nos escudarmos da repetição futura de atos hediondos. O passado ensina, mas, para isso, ele não pode ser esquecido e Greene fez sua parte aqui.

Bisbee ’17 (Idem, EUA – 2018)
Direção: Robert Greene
Roteiro: Robert Greene
Com:  Mike Anderson, Charles Bethea, Ken Boe, Benjamin Joel Caron, Chris Dietz, Mary Ellen Dunlap, Aaron Gain, Richard Graeme III,  Dick Graeme, Doug Graeme, Annie Graeme-Larkin, Richard Hodges, Fernando Serrano, James West, Laurie McKenna
Duração: 112 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.