Crítica | Black Butler – Vol. 1

estrelas 4

Pactos com o demônio, seja ele de qualquer forma, há muito já não é novidade na ficção: de Fausto a O Retrato de Dorian Gray, a temática já foi abordada das mais diversas formas. Dificilmente, contudo, vemos a criatura andar ao lado do humano que realizara ao pacto da mesma maneira que em Black Butler. Escrito e ilustrado pela mangaka, Yana Toboso, a obra nos traz uma abordagem que mescla o drama, o humor e o humor negro, com uma arte bem característica, já com sua identidade desde as primeiras páginas.

black-butler-capa-1Acompanhamos, no mangá, Ciel Phantomhive, um nobre inglês de apenas doze anos, que vive na Era Vitoriana. Ciel, além de ser um tanto excêntrico por si só, também conta com uma característica um tanto quanto notável: ele é servido por um mordomo bastante peculiar, que é belo e parece realizar tudo à perfeição. Evidente que, nos primeiros capítulos, desconhecemos a origem do mordomo Sebastian e a autora brinca com essa questão, brincadeiras essas que acabam perdendo sua força nas versões traduzidas, já que Toboso utiliza a seguinte frase em japonês para criar um trocadilho quando lido de formas diferentes – akuma de shitsuji desu kara (eu sou um demônio e um mordomo), que também pode ser lido como aku made shitsuji desu kara (eu sou um mordomo e tanto, na tradução oficial da Panini).

O primeiro volume faz uso de seus capítulos para nos apresentar essas duas figuras e, com calma, a autora coloca as peças principais no tabuleiro, criando a curiosidade no leitor sobre a origem do perfeito mordomo de Phantomhive. Os títulos de cada capítulo ainda aumentam o mistério de forma divertida e com um humor bastante irônico – nesta primeira edição temos: Esse Mordomo, Talentoso; Esse Mordomo, Onipotente; Esse Mordomo, Forte e Esse Mordomo, O Mais Maligno. O volume segue uma estrutura bastante episódica, com histórias fechadas em cada uma, apenas aumentando a mitologia do mangá. Por essa razão, uma leitura contínua chega a ser um tanto quanto dificultada à princípio, ainda que os capítulos sejam divertidos por si só, em virtude da relação entre o mestre, seu mordomo e seus outros atrapalhados empregados.

O que verdadeiramente chama nossa atenção, contudo, é a arte da própria Yana Toboso, que nos traz um traço que flerta com a androginia, especialmente através dos dois personagens principais – felizmente, para ambos, a escolha artística é justificada, especialmente no caso de Sebastian, visto que o diabo, inúmeras vezes, é retratado sem contar com um sexo definido, sendo uma mistura dos dois. Dito isso, os quadros com mais ação também são elaborados com precisão, nos trazendo ilustrações que não nos confundem e podem ser facilmente entendidas sem necessitar de um grande esforço por parte do leitor. A quantidade certa de balões de fala e expressão também ajuda nisso, não poluindo as páginas de forma desnecessária, tornando a leitura mais fluida – algo necessário para contrabalancear a natureza episódica do mangá em questão.

Black Butler, ou Kuroshitsuji, no original, é um mangá um tanto divertido de se ler, mas, nesse primeiro mangá, temos a nítida impressão de que a história ainda há muito de se aprofundar. Yana Toboso faz um ótimo trabalho apresentando seus personagens e o universo no qual vivem, resta esperar e torcer para que sua história se mantenha em um padrão de qualidade similar, preferencialmente nos contando uma trama que siga de forma contínua e não limitada a apenas um capítulo. Já tendo lido um pouco adiante, sei que o mangá não decepciona, ao menos até certa edição.

Black Butler – Vol. 1 (Kuroshitsuji – Vol. 1) – Japão, 2006
Roteiro: Yana Toboso
Arte: Yana Toboso
Editora (no Japão): Square Enix
Editora (no Brasil): Panini Comics
Páginas: 192

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.