Crítica | Black Dynamite (2009)

Black Dynamite é uma diversão descompromissada ou, na verdade, uma paródia cômica ao mesmo tempo que homenageando e criticando  o subgênero majoritariamente setentista de filmes conhecido como blaxploitation em que atores negros atuavam em papéis estereotipados e nas situações mais improváveis, misturando pegada policial com kung-fu e outro subgêneros em uma salada para consumo rápido. É, talvez, a versão diet do que Quentin Tarantino fez com muito mais categoria no excelente Jackie Brown.

Michael Jai White vive o personagem-título, um ex-agente da CIA afro-descendente que, como tal, é durão, invencível, amado pelas mulheres, bem dotado, inteligente, todo-poderoso e com um enorme cabelo armado que fala somente por intermédio de frases de efeito e que espanca e mata para somente depois fazer perguntas. Dentro desse contexto, seu irmão é assassinado e isso catalisa uma investigação para saber quem é o pobre do responsável.

A direção de Scott Sanders, cuja filmografia é praticamente uma nulidade, consegue emular muito bem o espírito dos  filmes que o roteiro procura homenagear e criticar. Close-ups exagerados, transições absurdas, decupagem quase super-heroística aliadas a uma fotografia que privilegia cores primárias usadas da maneira mais forte possível e uma montagem ágil tornam o resultado final muito agradável e cômico sem que o roteiro precise se fiar em gags verbais todo o tempo, equilibrando bem entre os diálogos surreais e as piadas visuais.

Infelizmente, porém, na segunda metade da projeção a trama da morte do irmão de Black Dynamite é quase que completamente esquecida em favor de uma narrativa paralela envolvendo a missão do protagonista de limpar as ruas dos traficantes de drogas que têm transformado em viciados as pobres crianças de um orfanato em que trabalha. De quebra, ele descobre um terrível plano para drogar os negros dos Estados Unidos, tirando-lhes aquilo que é mais importante: sua virilidade. Claro que a crítica social é forte aqui e o amontoado de linhas narrativas que vão soterrando umas as outras faz parte da brincadeira, mas a grade verdade é que, por vezes, a estratégia cansa e a direção de Sanders não consegue segurar o ritmo apropriadamente. Aqui, teria sido o caso de criar uma narrativa episódica, com leves tangenciamentos e uma resolução única ao final, algo que inexiste na obra, fazendo com que esqueçamos o que já se passou em prol do mini-arco em desenvolvimento naquele momento.

No entanto, o filme é uma divertida brincadeira – daquelas com fundo de verdade – atrás da outra, começando, evidentemente, pelo próprio Black Dynamite, o esterótipo do arquétipo que lida apenas com personagens igualmente estereotipados, como os componentes de uma liga de cafetões (todos vestidos da maneira que o leitor está imaginando) e mulheres de um prostíbulo (igualmente vestidas – ou despidas – da maneira que se convencionou em filmes do gênero). As cenas de sexo são verdadeiras demonstrações do “poder negro” na cama e as lutas fazem qualquer durão dos anos 80 parecer um florzinha. É sopapo para tudo quanto é lado e sem nenhum arranhão no personagem principal, que sai não só ileso, como também com seu cabelo intocado.

De mestre de Shao Lin (lembranças de David Carradine em sua célebre série Kung Fu!), passando por um inspirado momento em que Black Dynamite e seus amigos sentam à mesa e partem para deduzir onde é escondida a droga anti-virilidade para negros com um hilário raciocínio tortuoso e muito bem construído, o filme mostra a que veio sem parecer exatamente cansativo, ainda que se perca aqui e ali. Diversão garantida com o bônus de haver uma mensagem crítica sócio-política que está logo abaixo da superfície para quem quiser procurar.

Black Dynamite (Idem, EUA – 2009)
Direção: Scott Sanders
Roteiro: Michael Jai White, Byron Minns, Scott Sanders
Elenco: Michael Jai White, Salli Richardson, Arsenio Hall, Kevin Chapman, Tommy Davidson, Obba Babatundé, Richard Edson, Buddy Lewis, Brian McKnight, Nicole Ari Parker, Byron Minns, Bullhorn James McManus, Phil Morris, Miguel A. Núñez Jr., Tucker Smallwood, John Salley, Chris Spencer, Darrel Heath, Mike Starr, Nicole Sullivan, Kym Whitley, Mykelti Williamson
Duração: 84 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.