Crítica | Black Hammer: Origens Secretas

Questões familiares, cidadezinha isolada, vida no campo, relações humanas com um nível de complexidade extremamente realista — dialogando de imediato com o público — e ao mesmo tempo problematizadas em suas bases, seja naquilo que se mostra demais (como fuga), que se sublima constantemente ou que se esconde demais (com medo). Todos esses temas, muito caros a Jeff Lemire, aparecem já neste primeiro arco da série Black Hammer, intitulado Origens Secretas. Já a partir do título do arco, que faz referência a uma famosa linha de publicações da DC Comics, o autor dá a letra do que é esta sua empreitada e de como ele pretende jogar com o Universo dos super-heróis a partir de uma linguagem divertida, inteligente e profundamente ligada ao cânone da História dos Quadrinhos, inclusive com modelos de escrita e, através da arte, composições de desenhos da Era de Ouro à Era de Bronze, partindo de ligações com os heróis pulp e abraçando referências diretas a personagens e revistas de editoras como Timely ComicsFawcett PublicationsNational Allied PublicationsQuality Comics e por aí vai.

A ideia para a criação da série veio para o autor entre 2007 e 2008, quando ele ainda trabalhava em O Condado de Essex e achava que jamais teria a oportunidade de escrever sobre “super-heróis de verdade“. Esta foi a sua forma de contornar a situação. Com a rápida inserção que ganhou no mercado, porém, ele precisou adiar Black Hammer por oito anos, quando então resolveu botar a mão na massa. Esse retorno aos seus personagens antigos já trazia a noção de que ele não poderia desenhar e escrever a série, como tinha planejado no início. Então entregou a arte para Dean Ormston, que teve um derrame logo depois de finalizar os primeiros números da série. Lemire e a Dark Horse mantiveram-se éticos em relação ao compromisso junto ao artista e esperaram meses até que ele se recuperasse (a mão que Ormston desenhava ficou parcialmente paralisada, então adicionem aí o tempo de fisioterapia e a garra do próprio artista em vencer esse obstáculo e voltar ao trabalho) reassumindo a arte, que tem uma excelente exposição e recebe ainda mais vigor com as cores espetaculares de Dave Stewart, mantendo uma visão mais escura para esse Universo, gerando uma atmosfera sombria e depressiva que combina muitíssimo com a proposta da saga.

No enredo, cinco heróis estão vivendo em uma fazenda chamada Black Hammer, numa cidade-prisão suspensa no tempo. Neste primeiro arco, Lemire utiliza todo o seu conhecimento de como criar aventuras intricadas — mas sem absurdos narrativos que deixe o leitor confuso (aqui, a confusão é substituída pela extrema curiosidade que o roteiro suscita) — e nos introduz cada um dos cinco indivíduos principais, que há 10 anos moram nessa Fazenda, em uma cidade da qual não conseguem sair, mas que as outras pessoas aparentemente conseguem. Disfarçados e agindo como “uma família reclusa, porém normal” eles amargam (bem, nem todos… um deles gosta dessa “aposentadoria”) um exílio forçado e semi-bucólico após a icônica luta contra um vilão chamado AntiDeus, mistura de Galactus com Darkseid, salvando Spiral City da destruição.

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Algo acontece no meio dessa luta que leva os cinco heróis para essa para esta dimensão/cidade, após perderem o amigo que dá título à série, do qual temos poucas informações nesse arco. O mesmo, porém, não acontece com os cinco sobreviventes. Origens Secretas fala justamente sobre os primórdios de cada um deles, seus poderes, personalidades, desejos e medos. E é aí que entra a vertente à la Astro City misturada com Tom Strong e todas as brincadeiras (excelentes) que envolvem esses Universo de heróis, um amálgama menos denso entre Vida na Cidade Grande, as HQs da America’s Best Comics e Watchmen. O volume da Editora Intrínseca para esse arco traz, nos extras, um modelo geral de história e motivações iniciais dos personagens concebidas por Jeff Lemire, expostas no modelo daquelas fichas de características Who’s Who in the DC Universe, curiosamente, flertando com a Crise nas Infinitas Terras, que na verdade tem amparo no conflito entre os heróis dessa saga e o AntiDeus, isso de maneira rápida e aplicada imediatamente ao drama corrente, sem arroubos chateantes e pretensões épicas (é o Você Tão Perto de Lemire).

A seguir, vou citar algumas revistas e numerações ao abordar cada um dos personagens. Vale dizer que tudo isso é mais uma brincadeira do autor, pois todas essas revistas são fictícias, contudo, flertam com as edições da Era de Ouro e Prata nas quais esses personagens são baseados. Menina de Ouro (Gail) — As Aventura do Capitão Ouro #18 — é uma mistura de Capitão Marvel e Mary Marvel, uma garota angustiada pelo fato de ser uma mulher sessentona que ficou presa no corpo de uma garota de 9 anos e nem falando a palavra mágica ZAFRAM! ela consegue mudar isso. Barbalien (bárbaro e alienígena) — Barbalien, o Guerreiro de Marte #1 — é inspirado no Caçador de Marte, e vive atormentado por um segredo. Abraham Slam — Mais Ação e Diversão #1 — é um misto de herói pulp com Capitão América, o avô da família, representante da fazenda na cidade.

Madame Libélula — Mansão Macabra #126 — é a bruxa do grupo, herdando os elementos dos quadrinhos de terror da EC Comics e Warren Publishing, tendo aliado a ela, no passado, um personagem baseado no Monstro do Pântano e, no presente, a cabana que herdou da bruxa original, um tipo de House of SecretsHouse of Mystery. E por fim, Coronel Weird — Contos do Futuro #17 — uma espécie de Adam Strange também herdeiro das HQs de ficção científica dos anos 50 e sua ex-ajudante de viagens espaciais, Talky-Walky, uma robô inspirada em Robby, o Robô, de Planeta Proibido. É com esse time que o roteiro de Black Hammer nos faz viajar pelas mais diversas variações heroicas, com direito a brincadeiras com Star Trek, referências ao Cthulhu de Lovecraft e mais uma porrada de indicações da cultura pop. Da Parazona do Coronel Weird às indecisões de cada personagem, o autor consegue brincar com o cânone dos quadrinhos e nos apresentar um mistério que, na verdade, começa na última página da revista, quando todas as origens secretas (ou pelo menos o principal delas) foi revelado. Um início excelente de série que, apesar de condescendente demais nas relações expositivas à la Era de Ouro em alguns pontos (embora nada exatamente grave), nos encanta e definitivamente vicia.

Black Hammer: Origens Secretas (Black Hammer: Secret Origins) – EUA, 2016
Editora original:
Dark Horse Comics
No Brasil: Intrínseca, 2018
Roteiro: Jeff Lemire
Arte: Dean Ormston
Cores: Dave Stewart
Capas: Dean Ormston
Editoria: Brendan Wright, Cardner Clark, Daniel Chabon, Ian Tucker
184 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.