Crítica | Black Hole

Publicada originalmente em doze capítulos, de 1995 a 2004, Black Hole fala sobre uma doença sexualmente transmissível, causadora de mutações físicas grotescas em jovens infectados e destacando como suas vidas são transformadas por causa desta epidemia. Em alguns, tal doença gera um tipo de deformidade que pode ser camuflada ou escondida; estes são considerados sortudos, pois continuam a participar de um convívio social, até certo ponto, normal. Já para outros, os efeitos são muito mais aparentes, tornando o indivíduo, às vezes, irreconhecível, tendo como única saída se isolar na floresta, fugindo do preconceito e desconfiança das outras pessoas.

Porém, esta é a camada mais rasa e perceptível da obra, pois Black Hole consegue abordar e se aprofundar em temas como: preconceito, amadurecimento, inclusão social, descoberta sexual, inconsequência e solidão. Tudo sempre do ponto de vista dos protagonistas da história, que são adolescentes, ainda estudantes do ensino médio.

Um dos elementos mais importantes com o qual o leitor se depara é o tempo. O autor não nos diz quando a história se passa, mas há muitos indícios para perceber que a ambientação se dá em meados dos anos 70: o visual dos personagens, as referências musicais e o design dos carros, por exemplo. Além disso, só conseguimos saber que certo fato ocorreu no passado por causa da diagramação da página; Burns opta por divisões onduladas dos quadros quando está narrando um sonho ou lembrança. Às vezes, temos um personagem no presente se lembrando de uma situação na qual dormiu e teve um sonho. Ou seja, três camadas de realidade numa mesma sequência, mas conduzida com muita competência, pois em momento algum o leitor se sente perdido.

Apesar do recorte setentista, o paralelo com a epidemia de AIDS que o mundo viveu nos anos 80 e 90 é inevitável: o desconhecimento gera medo e intolerância, e é isso que vemos aqui. Os jovens infectados são marginalizados e segregados e, mesmo aqueles que não manifestaram a doença de forma tão aparente, temem pelo futuro que os aguarda.

Também é possível compararmos a trama sobre doença com a adolescência. Os medos, frustrações e anseios gerados pelas mutações são bem semelhantes aos mesmos sentimentos que surgem quando se atinge esta etapa da vida, além da necessidade de lidar com as mudanças naturais do corpo e da mente. Desta forma, o autor consegue fazer com que a doença em si seja um pretexto para tratar da transição para a vida adulta, um tema universal. Com isso, a identificação com os personagens é instantânea.

Outro elemento que nos revela níveis diferentes da obra são as simbologias e metáforas utilizadas pelo autor. Afinal de contas, o que é o buraco negro (black hole em inglês) do título? Tal buraco aparece por toda a trama, muitas vezes em formas que remetem a uma vagina: a barriga do sapo aberta, o corte no pé, as costas descascadas de Chris, as folhas de mato, o ramo de fumo, a boca de Rob, entre outros elementos. Uma vagina remete ao sexo, que é, ao mesmo tempo, uma etapa natural na transição para a vida adulta e também origem da doença (e do temor, pelas suas consequências físicas e sociais) que se espalha entre os jovens.

Isolados, desamparados e sem perspectiva, é assim que os personagens da obra se sentem e Burns nos passa estes sentimentos também através do seu traço. Com muito mais preto do que branco, a arte é pesada, com um tom pessimista, mas muito bem delineada e limpa, sem hachuras. Sua arte às vezes lembra o terror japonês, não pelo estilo do seu traço, que é bem diferente do oriental, mas pela capacidade de retratar o grotesco ou bizarro de uma forma natural, sem estardalhaço, deixando que a situação por si só gere impacto no leitor. O menos é mais!

Uma característica interessante é a ausência de um ponto de vista diferente dos adolescentes. Os poucos adultos que aparecem na trama são meros coadjuvantes em diminutas participações, com quase nenhuma fala. O autor, propositalmente, não usa o recurso narrativo de deixar o leitor saber a abrangência da situação através das notícias nos jornais ou na TV. Não sabemos se a doença é ou não tratável, quando ou como começou, se ocorre só naquela cidade ou no país todo (ou no mundo). Também não nos é revelado como as escolas lidam com isso, ou os governos e nem as famílias. A única fonte de informações que temos são os próprios jovens e isso reforça o sentimento de solidão e isolamento vivido pelos personagens. Ou seja, uma obra que trata da transição para a vida adulta contada por quem a está vivendo, com todas as dificuldades encontradas pelo caminho.

Aos mais empáticos:
Desta forma, com tantos paralelos que podemos estabelecer entre Black Hole e a vida real, torna-se desnecessário abordar este outro lado, de como a sociedade lida com tudo isso. A resposta está na história humana, em nossas famílias, círculos de amizade, comunidades ou grupos sociais dos quais fazemos parte. Basta pensarmos em como as diferenças individuais são percebidas entre nós mesmos.

Aos mais pragmáticos:
Por outro lado, alguns podem sentir falta dessa outra perspectiva. Apesar do elemento fantasioso (a doença que gera mutações), a obra de Burns é absolutamente verossímil como drama humano e, como tal, sua abrangência não é local e sim social. Quero dizer, os jovens somem de casa, da escola e fica tudo certo? Ninguém vai atrás, nem pais, nem polícia ou professores? Poderia ser muito interessante explorar também este aspecto.

Ou ainda:
Será que não foi tudo um sonho do Keith? Será? Bom, isso explicaria… espera um pouco…

Com cerca de 350 páginas, deve-se elogiar a coesão, consistência e coerência do texto e desenhos ao longo da obra, pois é impossível perceber que há um intervalo de dez anos entre a primeira e a última página, tamanha é a harmonia e unidade do trabalho de Burns. Black Hole tem absoluto êxito ao definir seus personagens, dando a devida profundidade a cada um, e também na abordagem absolutamente humana e sensível dos dilemas apresentados. Além disso, trata-se de uma obra que pode ser lida de várias formas e com diversos níveis de profundidade. Quem procura alternativas aos quadrinhos mainstream, com certeza encontrará uma excelente em Black Hole.

Black Hole – EUA, 2005 (Versão Completa)
Texto: Charles Burns
Desenhos: Charles Burns
Capas: Charles Burns
Editora: Darkside
Páginas:
368 páginas (Edição Nacional)

DANIEL TRISTÃO . . . Paulistano, gosto de quadrinhos desde criança, aos 10 anos me interessei por literatura ao ler suspenses infantojuvenis e ainda adolescente já assistia filmes como um dos meus principais hobbies. Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Christopher Nolan, Agatha Christie e H.P. Lovecraft são alguns dos autores que mais admiro. Sou formado em Administração e trabalho com TI; leio livros, gibis e assisto filmes mais do que muita gente considera normal, mas menos do que eu gostaria.