Crítica | Black Lightning – 1X01: The Resurrection

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É quase inacreditável que Black Lightning seja uma série da CW, ainda mais com Greg Berlanti em um dos cargos executivos. O produtor tem (ou tinha?), com poucas exceções, uma opinião muito romântica para projetos com super-heróis. Seu costume é cobrar de roteiristas, diretores e equipe técnica esse princípio romântico na parte estética ou conceitual, gerando composições visuais e escolhas de decupagem que não levam a lugares muito positivos. Juntamente com isso, os enredos dessas produções acabam fincando os dois pés em dramas amorosos ou supérfluos, onde o exterior problemático não dá suporte ao herói — que por tabela, também não ganha um bom desenvolvimento –, caindo em um mar de clichês envernizados com referências aos quadrinhos. E uma ou outra cena memorável, para variar.

Em The ResurrectionBlack Lightning mostra ser bem diferente do “padrãozinho básico CW” e a liberdade criativa dos principais criadores do projeto, o casal Salim Akil e Mara Brock Akil, pode ser vista na representação em tela da essência da obra de Tony IsabellaTrevor von Eeden, ou seja, o foco central em uma cidade corrompida, jogada nas mãos da máfia (no caso, The One Hundred / The 100) que através de seus muitos braços e conexões ganha dinheiro com o tráfico, mata inocentes e deixa um rastro de medo e indignação na população que apenas um herói é capaz de dissipar.

A Origem do Raio Negro foi publicada em 1977 pela DC Comics, que então lançava o seu primeiro super-herói negro com um título solo e inédito (já havia John Stewart, mas ele vestia o manto de um herói já estabelecido por dois dois personagens brancos). Neste primeiro episódio da série vemos inúmeras e boas semelhanças e discrepâncias em relação aos quadrinhos originais, trazendo novamente à tona a ideia de que uma boa adaptação não tem que ser uma transposição tal e qual o material-fonte. Se a essência é mantida e se a base apresentada na primeira mídia for bem estruturada, o resultado é promissor. Aqui, Jefferson Pierce (Cress Williams, simplesmente excelente no papel, com uma postura que demanda atenção do público) é o diretor da Garfield High School. Ele tem duas filhas e é divorciado, mas parece estar voltando a chamar a atenção da ex-esposa Lynn (Christine Adams muito segura e bem escalada para o papel). Depois de 9 anos afastado do manto do Raio Negro, Pierce enfrenta algumas situações que farão com que “a ressurreição” do título aconteça. O herói volta a agir. E com um modo de justificativa interna para este retorno pensado com muito escrúpulo pelo roteirista. Algo que dá orgulho de ver.

As boas surpresas começam já com a trilha sonora de Kurt Farquhar, que não exagera nos temas dramáticos com a orquestra e faz uma seleção pontualíssima de canções para acompanhar, engrandecer, apoiar e acrescentar elementos narrativos às cenas em que aparecem. Não há uma única faixa fora do lugar e a montagem fez o seu papel de deixar o tempo correto para cada música, não saturando as cenas. De Lazaretto (Jack White) a Strange Fruit (Nina Simone), passando pelo rap e eletrônica, temos uma ajuda essencial da trilha na apresentação dos personagens e criação dos primeiros dramas que o roteiro organiza com uma elegância estupenda. Tirando a segunda cena com Lala (William Catlett) e o pequeno espaço para o espectador conhecer alguém tão importante para o protagonista quando Peter Gambi (James Remar), não temos tropeços desnecessários no texto, que flui muito bem do começo ao fim.

Tendo escrito (juntamente com a esposa) e dirigido o episódio, Salim Akil tem o controle do conteúdo político — trabalhado exatamente como nos quadrinhos dos anos 70 –, das mazelas da violência urbana e descaso ou burocracia do governo e das instituições para atender as necessidades da cidade. Junto a isso, o texto nos entrega questões pessoas do herói em cena, de sua família e do vilão central da temporada, Tobias Whale (Marvin ‘Krondon’ Jones III, um ator albino, desconhecido e talvez a escalação mais inesperada e mais interessante do elenco).

Como a série não irá ter o formato de “vilão da semana” (posso ouvir um “amém”?) essas bases iniciais muito bem dispostas, com exceção de Gambi, como já apontei anteriormente, mostram caminhos que os roteiros seguirão nos episódios vindouros. Se a qualidade for mantida nesse nível, sem dúvida nenhuma, estamos falando da melhor série de super-herói da CW até a presente safra.

Black Lightning 1X01: The Resurrection (EUA, 16 de janeiro de 2018)
Criadores: Salim Akil, Mara Brock Akil, Greg Berlanti
Direção: Salim Akil
Roteiro: Salim Akil (desenvolvido com Mara Brock Akil)
Elenco: Cress Williams, Christine Adams, Erol Brandis, Aria Brooks, Crystal Lee Brown, Fallyn Brown, Kwajalyn Brown, Donny Carrington, William Catlett, Dabier, Allen DeBerry, David Dunston, Damon Gupton, Scott Hunter, Brian Kayode-Patrick Johnson
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.