Crítica | Black Lightning – 1X09: The Book of Little Black Lies

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Há SPOILERS do episódio e da série. Leia, aquias críticas dos outros episódios e, aquias críticas das HQs.

A entrada de Jennifer no mundo dos segredos heroicos do pai e da irmã não tem sido algo fácil. E é bom que seja assim. A um mês do fim desta primeira temporada de Black Lightning, o roteiro de Keli Goff acaba de vez com as surpresas de identidade da família — o elemento melodramático sabiamente foi colocado de lado — e foca em buscas pessoais e compartilhadas de cada um dos personagens. Raio Negro segue com a investigação para limpar o seu nome, ao mesmo tempo que tem contas antigas a acertar com Os 100, que ainda espalham a droga Green Light pela cidade. Tormenta sai em campo e cada vez mais se adapta às regras do jogo, fazendo uma excelente dupla com o pai. E claro, Jennifer, que em breve terá o impulso que a fará usar os poderes de Rajada.

Um dos pontos centrais discutidos nesse roteiro são os conceitos éticos ligados à vida de um super-herói. E isso é muito bom, porque nos faz pensar em coisas que parecem passar batido quando consideramos o tema. A rigor, quando alguém de moral adequada a uma convivência pacífica em sociedade percebe que tem poderes, que escolha essa pessoa tem, a não ser usá-los para fazer o bem? A pessoa tem vantagem sobre a maioria esmagadora dos cidadãos e pode fazer a diferença em diversos lugares. No entanto… e se este não for o sonho do indivíduo? E se ele tiver se programado para uma existência simples, com casa, esposo/esposa, filhos e apenas isso? Ter uma família e ser feliz com ela? Com poderes, como isso é possível, analisando todos os desdobramentos que a vida de um herói pode ter? Pois esta é a preocupação de Jennifer aqui, e convenhamos, ela levanta questões absurdamente pertinentes.

Toda a sequência de descoberta sobre a irmã e o pai foi um choque para a caçula, que se recolhe e tenta lidar com informações dessa dimensão, levando em conta que ela é bastante diferente da irmã, em termos de pensamento sobre o mundo e sobre como deseja passar a vida adulta. Às portas da faculdade, ela já se imagina privada de uma série de coisas e tudo isso é colocado no roteiro de maneira rápida, ligando-se ao novo passo da investigação de Jefferson e Anissa. Bill Henderson também ganha destaque aqui e é muito bem ver o ator Damon Gupton recebendo uma boa carga dramática, além de ter a oportunidade de sair para investigar, agora que ele se deu conta do que está em jogo, um processo que o fez se aproximar do Raio Negro — bom, pelo menos na troca de informações e conversas pelo celular. As cenas de ação que liga ele a Raio e Tormenta são boas, mas a diretora Tawnia McKiernan parece ter tido receio de adotar apenas a ação como gênero, usando clichês do suspense (câmeras através de objetos) que funcionam à primeira vista, mas depois saturam e, a seguir, irritam o espectador.

A participação de Gambi também recebe uma outra cor nesse episódio. Os efeitos para rejuvenescer o ator James Remar são muito bons para uma produção de TV não tão popular. A tentativa do personagem em ficar de bem com sua consciência e com Jefferson nos leva para algo ainda mais interessante no lamaçal do passado, ao menos neste episódio. A pesquisa do velho Pierce apontava para a “criação” de super-poderosos, mas esta não é a única surpresa aqui. Gambi era um “olheiro” e ajudou a identificar uma porção de pessoas que apresentavam habilidades especiais. Sua pesquisa atual o levou a uma “encubadora” e mostrou para ele o erro que cometeu há décadas. Num primeiro momento, a vibe Stranger Things que isso tem, nos empolga.

Por outro lado — e considerando a mania e a maldição que parece rondar as séries da CW — me vem a péssima impressão de que isso pode funcionar como um tipo de “acelerador de partículas” e vermos em Black Lightning a repetição da fórmula que afundou The Flash. Imaginem só… todos aqueles indivíduos soltos. Dentre eles, haverão pessoas boas e más, correto? E eles devem atacar em sequência na cidade, certo? Isso nos leva para a esteira estúpida e intragável do estilo “vilão da semana”, certo? Que os deuses dos raios e dos trovões não permitam isso. Há muitas formas de trabalhar com uma conspiração governamental e pesquisas com pessoas, como é mostrado aqui. Que a fórmula do “vilão da semana” não a escolhida.

The Book of Little Black Lies traz à tona conceitos de honestidade, convivência e apontamentos sobre o que é ser um super-herói. A história avança sem problemas, a não ser algumas manias da direção, mas sem nada muito grave em jogo. A propósito, perceberam o bom uso da trilha sonora no último bloco? A reta final da temporada promete bastante. Já podemos contar com a renovação?

Black Lightning – 1X09: The Book of Little Black Lies (EUA, 2018)
Direção: Tawnia McKiernan
Roteiro: Keli Goff
Elenco: Cress Williams, China Anne McClain, Nafessa Williams, Christine Adams, Damon Gupton, James Remar, Gregg Henry, Morgan Brown, Charles Green, Derrick J. Haywood, Anthony Reynolds, Benedetto Robinson, Jonathan D. Williams
Duração: 43 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.